O Vidago Palace voltou a ser premium

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Nunca foi um hotel qualquer e agora ainda menos, que ganhou uma estrela para fazer cinco. Para isso, desfez o interior para renascer com o espírito original - e isto significa sofisticação, elegância e luxo - e todas as comodidades modernas, incluindo um spa de autor. O Vidago Palace Hotel fez cem anos e foi (re)inaugurado: uma nova vida que se quer igual à dos primórdios. Andreia Marques Pereira (texto) e Paulo Pimenta (fotos) estiveram na festa

Não foi uma surpresa total, porque já víramos fotos. Mas a sensação de passar os portões de ferro, caminhar pela alameda mergulhada num bosque centenário que se abre perante a monumental fachada ocre avermelhada é como uma pequena viagem no tempo - e no espaço: de repente poderíamos estar numa estância termal austro-húngara a ver passar uma comitiva imperial. Não importa sequer se chovia e se a humidade se entranhava, porque quando a alameda se fez praça e subimos a escadaria para a porta principal do Vidago Palace Hotel tivemos a clemência dos céus e pudemos absorver a atmosfera de fim-de-século que (ainda) ali se respira, entre palácio e parque - e Trás-os-Montes a toda a volta.

Na verdade, o Vidago Palace Hotel é uma grande ironia do destino - da História. Foi mandado construir por D. Carlos com toda a pompa e circunstância que a realeza e aristocracia europeia lhe mereciam - queria ali recebê-las e, claro, impressionar. Mas o primeiro sopro da História passou em forma de regicídio e o convidado de honra para a inauguração seria D. Manuel II. Diz-se que esteve marcada para 5 de Outubro de 1910, mas a República intrometeu-se: a abertura foi um dia depois, a 6 de Outubro de 1910, a bênção republicana a substituir o fausto real.

Hotel da república, portanto, este, que até é palácio e que um século depois foi então (re)inaugurado (a 6 de Outubro, embora funcione em modo soft opening desde 30 de Julho): novamente sob o olhar atento do poder - o primeiro-ministro José Sócrates não faltou -, novamente para agradar às classes (mais) abastadas - conseguiu mais uma estrela, chegou às cinco, e entrou no clube restrito dos The Leading Hotels of the World. Passaram cem anos, o Palace Hotel não é o mesmo - ou é?

Um século é muito tempo - mais do que suficiente para remodelações, face-liftings menos conseguidos e para a decadência se instalar, primeiro sub-repticiamente, depois sem vergonha. Quando o Vidago Palace fechou, o seu declínio era mais do que evidente. Por isso, agora caminhamos num hotel que não foi restaurado, porque não o podia ser - foi reconstruído. E, a acreditar nas palavras de Rosário Pinto dos Santos, directora de marketing e de vendas da G.L.A. Hotels, a quem a Unicer (proprietária do espaço) cedeu a gestão do hotel, depois de várias reestruturações ao longo dos anos, já há várias décadas que o Vidago Palace Hotel não se parecia tanto com o original. Afinal, sabemos que para tudo permanecer igual é necessário que tudo mude. Neste caso, foi necessária toda uma reconstrução para se regressar ao espírito original. Há quem aponte com tristeza a substituição da madeira do salão nobre, o fim dos óleos nas paredes - e, sobretudo, a "substituição" da antiga piscina em "8". E há quem compreenda o que foi feito, como concessões da modernidade dentro do espírito original do hotel.

Um século é muito tempo - mais do que suficiente para muitas vidas e muitas histórias. "Vinha para cá desde criança", recorda Luísa Furtado - com os pais e os irmãos, primeiro; com o marido e os filhos, depois. Agora, veio novamente com o marido, o arquitecto Fernando Maia Pinto, director do Museu do Douro, para a reabertura e não resistiu a espreitar um pouco mais o hotel. Na escadaria, que é uma espécie de assinatura do hotel - dupla, de madeira, que se une um breve momento para novamente se dividir - lembra-se de "brincar às caçadinhas". "E havia a escadaria para baixo, para o que chamávamos a boîte". Ainda há - e havemos de ir à boîte (que já não o é). "A sensação na mata quando vi o hotel igual... Julguei que ia ver tudo moderno, do Siza Vieira" (o arquitecto é responsável pela reabilitação exterior do Palace).

A experiência de uma vida

Não sabemos como era antes, mas agora, 40 milhões de euros depois, entramos no Vidago Palace Hotel impressionados pelo exterior e seguimos impressionados corredores fora em tapetes fofos até entrarmos nos quartos. Há elementos originais, revela Rosário Pinto dos Santos, na estrutura arquitectónica e decorativa (peças retiradas e remontadas cuidadosamente) e até no mobiliário (não houve muito que tenha resistido ao tempo, o que há está em destaque ou habilmente disperso entre outras peças que recriam o princípio do século XX) - e isto vê-se sobretudo nos espaços comuns do rés-do-chão, cheios de dourados e trabalhos em gesso, tectos altos e colunas grandiosas, lambris e rodapés rebuscados, estatuária e tapeçarias de Beiriz, mármores venezianos e nacionais.

O lobby tem um fausto inegável, mas não ostensivo; o salão nobre, sumptuoso e com os candeeiros que viram a abertura em 1910, será o espaço principal das refeições, com um pé direito que não acaba e é apenas interrompido no mezanino que é uma varanda a toda a volta; o chão está coberto por uma impressionante tapeçaria de Beiriz e portas-janelas varrem toda uma parede - acompanham, aliás, toda a fachada, dando para a "galeria", uma varanda onde cadeiras de verga se dispõem alinhadas como "antigamente".

Do outro lado do edifício, o corredor coberto com papel de parede Farrow & Ball, uma floresta exótica de cores quentes, conduz-nos até à sala de fumo, primeiro; ao bar, depois; para terminarmos na Sala Primavera, portas-janelas a três quartos e mais salão do que sala, mobiliário ecléctico no mesmo estilo Belle Époque, tecidos sumptuosos, cores quentes e ambiente lounge elegante - a abrir para um terraço lateral.

A sala dos pequenos-almoços é novamente grandiosa, também com mezanino (que neste momento expõe as pratas da casa, no futuro será a biblioteca) e sob uma enorme cúpula de vidro entre ferro forjado branco, proporciona refeições tranquilas e abundantes (desde compotas caseiras a ovos mexidos e bacon). E se formos à cave vemos a antiga boîte a transformar-se numa adega, para ser ponto de encontro mais informal (e aberto ao público) em torno do vinho e produtos regionais.

Subimos aos quartos (ou descemos - há quartos na "cave" com pátios privativos) para uma aventura - cada quarto é personalizado e aqui leva-se a ideia a sério: vamos de paredes vermelhas para azuis ou castanhas, por exemplo, pintadas ou com papel pintado; o mobiliário é uma recriação do antigo, feito à medida de cada espaço. As casas de banho são também assim, cheias de surpresas e com óbvios toques retro (e a louça sanitária tem o papel principal nessa ilusão). Não se esperem grandes dimensões nos quartos (70, incluindo as suites) e isso explica-se com os constrangimentos da arquitectura (as suites são bem maiores, e podem incluir sala de estar e sala de vestir) - mas espere-se um conforto inexcedível, em que a atmosfera é de outros tempos, mas o conforto totalmente actual.

Mas não deixamos o Vidago Palace Hotel sem espreitarmos o spa termal, que Siza Vieira desenhou nas

traseiras - já não há balneário termal (e o antigo virou centro de congressos, com o esplendor passado visível em mármores e colunas dos espaços comuns), mas a água mineral que deu fama a estas paragens continua a ser usada. Passamos a galeria que une os dois edifícios e admiramos o contraste entre a arquitectura clássica de um lado e as linhas direitas de assinatura do outro. A cor prolonga-se no exterior, enquanto avançamos no interior por um espaço quase imaculadamente branco - e marmóreo - que se abre constantemente à paisagem em janelões (como no ginásio, em caprichosa inclinação) ou paredes envidraçadas (como nas salas de descanso). Da área de recepção passamos para o ginásio que ainda cheira a novo, pelo hammam e sauna, pelas salas de tratamentos; espreitamos a vitality pool num recanto exterior que tem algo de zen e chegamos à piscina interior - a piscina exterior abre-se defronte, inescapavelmente moderna, água a rasar as bordas, entre um relvado imaculadamente verde.

E, voltemos ao início, não nos esqueçamos que estamos dentro de um magnífico parque centenário que vale toda uma visita a Vidago (e está aberto ao público em geral até às 18h00). O arranjo ainda não está concluído, mas podemos admirar a riqueza botânica do lugar, onde magnólias, plátanos, cameleiras, azevinho, pinheiros, alfazemas se misturam em combinação esplendorosa e escondem um lago e as fontes de água termal.

Não sabemos se é o Vidago Palace Hotel de antes, mas sabemos que há uma elegância e sofisticação incontidas aqui. Só o parque, vale bem uma visita; uma estadia no hotel será, com certeza, uma experiência de uma vida.

A Fugas esteve alojada a convite do Vidago Palace