Marcel Ophuls: o carrossel do século XX passa por aqui

Marcel Ophuls
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Marcel Ophuls

Carrascos, SS, arquitectos do regime nazi, delatores, resistentes, sobreviventes, repórteres e mercenários da emoção - o carrossel do século XX, que vem de Auschwitz, que vem de Sarajevo, passa por nós. Mestre de cerimónias e denunciador das reinvenções da memória: Marcel Ophuls. Retrospectiva no DocLisboa da obra do homem que destruiu o mito da França resistente a Hitler, que postula que o jornalismo não pode ser neutral - e que foi seduzido por um criminoso de guerra chamado Albert Speer

De Ophuls, Max, para Ophuls, Marcel: a História que se repete, uma circularidade incessante, o movimento, a História que não pára e a dança, a valsa, a valsa, mas a estação terminal está ao fundo.
De pai para filho, então. "Vamos fazer a psicanálise familiar?", brinca, do outro lado do telefone, Marcel, que assumiu um dia que ser filho de um "génio", Max, não lhe trazia complexos de inferioridade porque sabia que era inferior...
"Sim, somos ambos pessimistas. O grande Max, o génio... Acho que somos pessimistas porque o século XX não foi muito divertido. E o século XXI não parece que vá ser muito divertido. Mas acho que a maior parte dos escritores e dos cineastas, com honrosas excepções, é pessimista. Shakespeare não era um optimista... O meu pai, quando realizou 'Libelei', antes de 1933, quando deixou a sua terra, a Alemanha, era muito inteligente, muito divertido, muito poético, cheio de vitalidade. Depois, passou a ser apenas um génio de inteligência."

Os Ophuls, judeus, fugiram da Alemanha em 1933, em direcção a França (Marcel nascera em 1927), onde Max pôde continuar a sua carreira - "Werther" (1938) ou "De Mayerling a Sarajevo" (1940), filme em que se vê o tiro que deu origem à I Guerra Mundial, o assassinato do arquiduque Franz Ferdinand, e que estava em rodagem no momento preciso em que eclodiu a II Guerra Mundial.

Isto foi antes de os Ophuls serem obrigados a fugir de novo, para os EUA - 1940, a tempo de evitarem Hitler que tomava Paris -, onde Max continuou a sua carreira ("Letter from an Unknown Woman", "Caught", "Reckless Moment") e onde Marcel cresceu como adolescente em Hollywood.

Haveriam de voltar à Europa, nos anos 50, onde o pai faria os seus títulos mais infestados pela "malaise" ("La Ronde", "Le Plaisir", "Madame De...", "Lola Montès") e onde o filho trabalharia como assistente (de John Huston, no "Moulin Rouge", e do próprio pai, em "Lola Montès"). E onde, depois de frustrada experiência na ficção, nos anos 60, Marcel cumpriria um desígnio familiar: isto é, para o que aqui nos interessa, judeu, pessimista, irónico e cineasta monumental.

São seus os "monumentos" que o DocLisboa vai exibir em retrospectiva. É o nosso século XX: "Munich ou la Paix pour Cent Ans" (1967), "Le Chagrin et la Pitié" (1969), "Memory of Justice" (1976), "Hotel Terminus: The Life and Times de Klaus Barbie" (1988) e "Veillée d'Armes" (1994). Que memória construímos dele? Como é que o refizemos? A II Guerra no centro de tudo, determinante, mas sobretudo um mergulho em profundidade para dentro da experiência humana. Como se tornasse disponível a história da vida privada de um tempo. E é um implacável espelho onde um presente se deve confrontar. Para além de se tratar de saber "como foi?" - como foi possível o Holocausto? como é que se pode dizer que não se sabia do Holocausto? (as manobras de reinvenção da memória, portanto) -, trata-se de encontrar os traços do passado que ainda continuam presentes.

Os filmes de Ophuls ambicionam ser tratados, épicos - irados mas lúcidos -, sobre a deceptiva natureza humana. Por isso vários desses filmes chegam às quatro horas de duração, a experiência é viciante.
Veja-se "Le Chagrin et la Pitié", o filme que o obsessivo judeu Alvy Singer queria que a sua amada, a estouvada Annie Hall, visse, mas ela recusava-se sempre a ver esse "documentário" de quatro horas sobre nazis" - embora no fim (isto é, no fim de "Annie Hall", de Woody Allen) Alvy (Allen) e Annie (Diane Keaton) se encontrassem, e Annie levasse o novo namorado para ver o documentário de quatro horas sobre nazis...
É mais do que isso "Le Chagrin et la Pitié". "Filho" da contestação de Maio de 68, mostra a França e a sua "necessidade de um regime de autoridade". Toma Clermont-Ferrand - cidade de província, ao lado da Vichy onde se instituiu a França colaboracionista de Pétain - como "case study". A vida entre os anos 1940-1944: os SS e os que resistiram e os que se comprometeram através da delacção ou tão-só pela neutralidade, como aquele Marius Klein, comerciante, que, receando represálias e mesmo a deportação, manteve anunciado nos jornais, durante a ocupação, que apesar do nome não era judeu.

Um filme sobre as raízes burguesas de um compromisso com o invasor, portanto. O país da Resistência, DeGaulle e tudo o mais? O mito cai por terra, naqueles anos do final dos anos 60 fazia-se pontaria às estátuas da burguesa França. E a televisão francesa demorou dez anos a exibir "Le Chagrin et la Pitié".

Maurice Chevalier acompanha-nos ao longo destas quatro horas: o motivo musical vai sendo repetido, uma precisão de arma política, a leveza a transformar-se em coisa densa até à estocada final, quando ficamos com Chevalier a desfazer-se em explicações, justificações e desmentidos, ao público americano, negando que alguma vez tenha cantado para os alemães, só cantou para os prisioneiros dos alemães. O cinema de Marcel faz-se de "palavras e música", para citar o título do documentário-retrato que dele faz Bernard Bloch. E na verdade - isto não é para fazer favores a Marcel - desta leveza e desta gravidade se faziam também os filmes do pai Max, em que se dançava e cantava a caminho da destruição.
"Tenho grande admiração por Chevalier, fez filmes maravilhosos, com Lubitsch, por exemplo", diz-nos Marcel. "Era um actor maravilhoso. O que ele fez foi característico das pessoas daquela época. Ninguém é obrigado a gostar dele, mas também ninguém é obrigado a detestá-lo. Ele apenas era um francês na França ocupada a fazer o seu trabalho." E convenceu os americanos, e chegou a Hollywood.

Opiniões à vista

Marcel reserva-se o direito de gostar ou não dos seus entrevistados, SS, torcionários, resistentes, traidores, tudo aquilo de que se faz a experiência humana. A entrevista é a base do trabalho do cineasta, herança do modelo televisivo que ele astutamente reformula, com um trabalho de montagem que também é comentário e que puxa o espectador para o banco das testemunhas, deixando-lhe o peso do julgamento.
Ophuls reserva-se o direito de os confrontar e fazer cair em "ratoeiras", simulando cumplicidades. É um estatuto de poder que assume e que exibe (e isso, o facto de não ser sub-reptício, torna-o igualmente humano). Mas  não o isenta de um olhar "compreensivo". É uma espécie de convocação de toda a matéria da experiência humana, eufórica ou torpe, espectacular e sombria, e por isso o crítico David Thomson viu bem quando viu em Marcel um mestre de cerimónias, como o Anton Walbrook de "La Ronde", de Max Ophuls.
"Sem câmara eu sou uma pessoa muito tímida. Sobretudo com as mulheres. Mas quando tenho uma câmara, que é um instrumento de poder, faço o que quero. Há muitos anos, fui convidado para a segunda mais importante escola de psicanálise, em Chicago - a de Bruno Bettelheim [prisioneiro em Dachau e Buchenwald] e de todos os outros... queriam que eu explicasse porque é que eu era tão determinado nas minhas perguntas e porque é que fazia perguntas tão inteligentes. Eu respondi: eu edito as minhas perguntas. E mais: eu edito as respostas. Não quero parecer um idiota [risos]. O acusador britânico nos Julgamentos de Nuremberga dizia, e isso está em 'The Memory of Justice', que não se devia fazer uma pergunta quando não se sabe qual vai ser a resposta. Concordo - embora às vezes seja preciso não saber as respostas, para o suspense e o espontâneo poderem acontecer."

"Tem tudo a ver com um ponto de vista subjectivo. Ou seja, um cinema em que as nossas opiniões estão à vista. O jornalismo também devia ser assim. Acima de tudo, o jornalismo tem de ter uma assinatura. O que se faz à objectividade? Nada a fazer com ela. Devemos deixá-la para as ciências exactas. Na maior parte das vezes a objectividade é uma desculpa para a neutralidade." E o relativismo que vá para o diabo! As pessoas esquecem, e esquecem porque precisam de negociar e de se reconciliar. O papel do documentarista - como do jornalista - é contrariar esse trabalho. Se isto nos pode lembrar o senhor chamado Michael Moore, sim, Michael considera-se discípulo de Marcel, e este até se admira por aquele fazer os filmes que faz e não ser judeu.

"Ser judeu." O que é isso? Responde Marcel que é aquilo que lhe dá a caução para fazer os filmes que fez. Nisso, mas pouco mais do que nisso, concorda com Claude Lanzmann, o realizador de "Shoah" (1985). "O ser-se inquisidor em relação a um agressor é uma característica judaica. É uma condição para se fazer este trabalho. Nesse sentido, concordo com Claude Lanzmann, embora em relação a tudo o resto não concordemos, porque ele é uma pessoa de vistas curtas - e não é muito generoso. Mas só um judeu pode fazer este trabalho. Porque só um judeu tem esta história nas suas raízes familiares."

Provas da natureza  humana

Este cepticismo agressivo - mas com algo de didáctico: inquirir junto das provas da natureza humana - faz-se guerrilheiro em "Hotel Terminus: The Life and Times de Klaus Barbie" ("scar em 1988), documentário que segue os traços do "carrasco de Lyon" até chegar à "network" nazi na América do Sul, passando pela contratação pela CIA desse homem "simpático" que esmurrava as cabeças de encontro às esquinas dos móveis enquanto fazia festas aos gatos. A banda sonora, com cânticos de Natal, talvez diga da devastação de Marcel ao dar-se conta de que o mundo, e não apenas a II Guerra lá atrás, estava infestado de nazis.

Mostra-se mais desesperado em "Veillée d'armes", um fracasso nas bilheteiras tal como "Le Chagrin et la Pitié" foi um sucesso. Mas é a apoteose de um método, e do seu fogo-de-artifício, este olhar sobre o jornalismo visto no momento do cerco a Sarajevo, quando a Europa se desintegrava. "É verdade, é o meu filme mais desesperado. O que aconteceu na Bósnia, e acontece agora em todo o mundo, é apenas uma repetição do que já tínhamos tido", diz-nos Ophuls, que começa "Veillée d'armes" assim, a dizer que depois de Auschwitz nada disto poderia voltar a acontecer, mas aconteceu. "Opressores e oprimidos, vitoriosos e vencidos."

O que se segue é um carrossel (temos de dizer "ophulsiano", tal pai, tal filho) que parte do Holiday Inn da cidade sitiada e dos seus "hóspedes" - repórteres de guerra em busca da causa justa e mercenários da emoção, e ao longe, talvez perto de mais, os tiros dos "snipers" - para fazer a psicanálise do repórter e inventariar os dilemas que ainda hoje são os do jornalismo: do narcisismo à cultura do espectáculo, e dando uma sapatada na "equidistância". Talvez porque tenha sido um filme que procurou e não um que lhe tenha sido encomendado, talvez porque era feito a quente, inquirindo o presente e não só as marcas do passado que sobreviveram, o realizador dá largas ao seu desesperado anti-relativismo, encenando-se como jornalista, com chapéu felliniano e tudo, mais champanhe e prostituta a condizer, a gozar as férias de um grande repórter de guerra depois de reportagem de risco. Os excertos de "Only Angels Have Wings", de Hawks (idealismo primitivo e romântico), de "Lola Montès", de Ophuls, Max (premonição da infernal espectacularização que estava para vir) e de "De Mayerling a Sarajevo", outro de Max Ophuls (e outra catástrofe anunciada, a da Europa) ajudam a compor a fantasmagoria. Filmes, filmes, filmes... "Hey, eu fui um miúdo de Hollywood", ri-se.

É em "Hotel Terminus: The Life and Times de Klaus Barbie" que aparece uma das "personagens" mais inquietantes do cinema de Marcel, a mulher francesa que terá, ou talvez não, denunciado um compatriota, e que às tantas deixa cair que "Noite e Nevoeiro" de Alain Resnais (1955) é "um filme de propaganda". "Uma mulher velha e estúpida", resume Ophuls, que tem menos respeito por ela (veja-se o trabalho de montagem, aquele nervosismo de roedor nas mãos dela) do que o que mostrou por Albert Speer, o arquitecto-chefe e ministro do Armamento do Terceiro Reich. Em "Memory of Justice", interrogação da responsabilidade individual nesse enorme chapéu-de-chuva que são os crimes cometidos em nome do Estado, Speer é um homem que já cumpriu a sentença que lhe ditou Nuremberga (embora alguém note que as maneiras aristocráticas proporcionaram menos anos de prisão a alguém com maiores responsabilidades criminosas do que outros condenados). O céptico Ophuls parece deixar-se encantar pelos tempos e ritmos de Speer. Que é capaz de assumir que na monumentalidade das suas obras já estava tudo explícito, mesmo antes de os judeus serem mortos, mas que não deixa de persistir como figura velada, opaca. Como é que foi capaz de gostar dele, Marcel?
"Não podia matá-lo, pois não?!!! Sim, gosto dele. Em primeiro lugar, gosto das pessoas que colaboram com o meu trabalho. Ele era muito carismático e um 'charmeur'... Passámos quatro dias juntos a filmar. Claro que ele diz que esteve no campo de Mauthausen mas que nunca viu a máquina de morte - é o que ele diz, os espectadores que tirem as suas conclusões. Gostei dele. Mas ele é um dos maiores criminosos de guerra. Se não temos sentido de compreensão para com as pessoas, como é que se tem a arrogância de se colocar à frente delas uma câmara de filmar?" Marcel Ophuls, filho de Max, judeu, 83 anos.