É obrigatório exportar a música portuguesa, e agora há uma agência que vai tratar disso

Paulo Furtado
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Paulo Furtado

Em Portugal a música popular não recebe dinheiros públicos. Os autores dizem que é preciso mudar este cenário e querem formar uma agência que apoie a internacionalização, à semelhança do que acontece noutros países da Europa. A apresentação foi ontem. O Governo revela interesse, mas não se compromete. Quando é que tudo isto começa a ser posto em prática? Ninguém sabe

O talento é fundamental, mas não chega. A música com ambições de se mover no cenário global é também uma competição entre economias, culturas, línguas, países. Foi com essa ideia em mente que ontem, no Teatro São Luiz, em Lisboa, foi feita a apresentação pública do Portugal Music Export (PME), projecto para a criação de um organismo que fomente a exportação e internacionalização da música portuguesa, desenvolvido pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) e pela Gestão dos Direitos dos Artistas (GDA).

Para que o projecto passe à prática é necessário, segundo Tiago Faden, consultor e rosto do Portugal Music Export, que está a ser desenvolvido há ano e meio, o envolvimento dos ministérios da Cultura, dos Negócios Estrangeiros e da Economia e Inovação. "O organismo está dependente, à semelhança do que acontece noutros países europeus, de um apoio estatal - à volta de 450 mil euros anuais, nos primeiros três anos - e de um investimento dos agentes da música, da SPA e da GDA a rondar os 50 mil euros/ano."

Em Janeiro, os agentes reuniram-se com a ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, que, segundo Tiago Faden, "se revelou uma entusiasta" do plano, e em Junho, em audiência, também o Presidente da República Cavaco Silva mostrou "enorme interesse". Mas até agora não houve uma resposta concludente da parte do Ministério da Cultura, que no projecto do PME funciona como elo de ligação com os restantes ministérios. "Não há momentos ideais para apresentar uma proposta destas", diz Tiago Faden, referindo-se ao momento delicado do país. "Não se pode estar à espera das condições político-económicas ideais para se criar um projecto de validade económica como este. Não queremos pressionar, mas também nos parece que não se pode perder mais tempo."

Ontem não foi possível obter uma reacção de Gabriela Canavilhas, voltando o ministério, através do assessor da ministra Rui Peças, a revelar que o projecto é do maior interesse e está a ser acompanhado com toda a atenção. No documento apresentado ontem pela PME pode ler-se que a exportação da música portuguesa é "um importante contributo para a criação de riqueza, emprego, e para a afirmação da língua portuguesa no mundo", anunciando-se como objectivos, de curto prazo, consolidar os investimentos dispersos feitos até aqui, "no sentido de se aceder a economias de escala que permitiam estabilizar a presença nesses mercados e aumentar o valor da exportação".

Para sair do actual estádio de internacionalização em que a música portuguesa se encontra, dependente de iniciativas localizadas e pontuais, "são necessários programas eficazes de exportação", diz Tiago Faden, "que exigem vontade política", para que a música popular possa ser encarada como uma indústria rentável, geradora de emprego e difusora da cultura lusa no mundo.

"A música portuguesa não erudita foi provavelmente até aqui a única indústria cultural nacional não subsidiada", diz o documento, numa alusão ao facto de haver verbas públicas destinadas à música clássica, teatro, cinema ou artes plásticas, esquecendo-se a música popular contemporânea. "Não estamos a pedir subsídios para artistas sobreviverem no mercado nacional, mas sim a solicitar investimento estratégico, de acordo com as nossas potencialidades e com o conhecimento que temos do mercado global."

O exemplo europeu

A França foi o primeiro país a criar um organismo semelhante (o Bureau Export), em 1993. A liderar a iniciativa encontrava-se Jean-François Michel, hoje à frente do European Music Office, a organização europeia que coordena todos os organismos locais semelhantes. "Inicialmente foram os diversos profissionais da música que se organizaram para ser criado o Bureau", recorda, "de forma a existir uma estratégia concertada dos profissionais, tendo em vista a exportação e também para serem ouvidos pelo poder político."

No começo o Ministério da Cultura francês contribuiu com 20 por cento da verba total. Hoje é o Ministério dos Negócios Estrangeiros que investe a maior fatia, cerca de 60 por cento. "A verba cresceu consideravelmente também", diz Jean-François Michel. "No início era de 300 mil euros, agora é de mais de 2,5 milhões de euros anuais." Nos anos 90 constatou-se que o mercado francês não era suficiente para os artistas franceses. "Quando o Bureau Export foi criado estimámos que quatro milhões de álbuns tinham sido vendidos no mercado internacional", diz. Depois desse impulso inicial, as editoras investiram mais, os músicos organizaram-se, e em 2000 tinham sido vendidos 40 milhões de álbuns fora de França. "O ano passado um estudo mostrava que 30 por cento dos discos de artistas franceses são vendidos no estrangeiro, o que é óptimo."

A formação do Bureau coincidiu com o surgimento de uma geração de músicos gauleses (Daft Punk, Air, St Germain) que alcançou grande protagonismo na arena internacional. Não foi apenas devido à acção do gabinete, mas segundo Jean-François Michel aquela organização contribui com a sua quota-parte para a afirmação das duas últimas gerações (Gotan Project, Camille, Justice ou Phoenix) de músicos franceses fora de portas.

Nos anos 90, quando se pensava em cultura pop ou rock éramos de imediato transportados para os EUA e o Reino Unido. À volta não era o deserto, mas quase. Nos últimos dez anos muita coisa mudou. Os mercados inglês e americano ainda predominam, mas a realidade é fragmentada, e países que não tinham muita visibilidade no panorama global acabaram por se afirmar.

É esse o caso do Canadá dos Arcade Fire, Broken Social Scene, Final Fantasy ou Feist, com cenas musicais vibrantes em cidades como Montreal, Toronto ou Vancôver. Naquele país a organização Factor, não exclusivamente dedicada à exportação, congrega dinheiros públicos e taxas de rádios privadas (cerca de nove milhões de euros anuais) para apoiar a indústria. Na Europa, países como Inglaterra, Alemanha, França, Itália ou Espanha possuem organismos dedicados à exportação, o mesmo sucedendo em territórios de dimensão populacional semelhante à de Portugal, como a Bélgica, a Suíça, a Áustria, a Estónia, a Hungria, a Dinamarca, a Suécia ou a Noruega.

Os gabinetes de exportação de música europeus são, regra geral, formados por associações locais da indústria da música (autores, artistas ou editoras) em que o Estado se faz representar através de um ou mais dos seus ministérios. O financiamento é assegurado por dinheiros públicos, na íntegra, ou na sua quase totalidade, sendo o restante proveniente de associações (de agentes, produtores ou músicos) e de sociedades de autores e de artistas. Os orçamentos variam entre os 450 mil euros anuais de um país sem grande tradições na música popular, como a Bélgica, ou os três milhões da Alemanha.

Em países escandinavos como a Suécia, Noruega ou Dinamarca a acção deste tipo de gabinetes tem surtido efeito. "Do ponto de vista internacional, a cena musical na Dinamarca há dez anos era inexistente", diz Henrik Friis, um dos responsáveis pela ROSA, organização chapéu-de-chuva de outras estruturas locais (entre elas a MXD - Music Export Denmark), sob alçada do Ministério da Cultura. Como acontece em Portugal, os dinheiros públicos para a cultura na Dinamarca, até há dez anos, eram canalizados para o cinema, artes performativas, artes plásticas ou música erudita. A mudança operou-se quando os políticos perceberam que o rock, pop ou géneros similares, não só detinham valor económico, como serviam para chamar a atenção sobre o país de forma mais eficiente do que uma operação de marketing.

Na actualidade inúmeros músicos e grupos dinamarqueses actuam em salas europeias, circulam pelos festivais de todo o mundo e são alvo de atenção da imprensa internacional mais credível. Os organismos de apoio à exportação não explicam tudo. Um sistema de educação onde a música é essencial, uma imprensa dinâmica e público curioso ajudam a perceber o que está a acontecer.

"A estratégia inicial foi entrar na Alemanha e, depois do sucesso quase instantâneo, fomos entrando aos poucos na Bélgica, Holanda e França", conta Christian Hald Buhl, director estratégico do Music Export Denmark. "É um processo moroso, os políticos nem sempre têm sensibilidade para o perceber, mas que gera resultados - para um país com 5,5 milhões de habitantes é óptimo termos a capacidade de realizar três mil concertos anuais fora de portas."

Apoiar financeiramente as digressões de bandas, criar parcerias internacionais e assegurar a participação em inúmeros festivais são algumas das funções do MXD. "Ingleses e americanos obtêm uma atenção quase natural. Nós não. Se queremos obtê-la, temos que lutar por ela." Este é o seu lema.

A visibilidade de grupos dinamarqueses como os Mew, Raveonettes, WhoMadeWho, Efterklang, suecos como The Knife, Jens Lekman, El Perro Del Mar, Lykke Li, ou noruegueses como Kings Of Convenience, Sondre Lerche, Lindstrom, parece dar-lhe razão. Mas mais do que o sucesso deste ou daquele nome, o que impressiona é a sensação de que existe verdadeiramente uma dinâmica criativa que vem da Escandinávia. O objectivo não é criar artistas de êxito fugaz para treparem pelas tabelas de vendas, mas dar a um número razoável de agentes condições para competirem em pé de igualdade. De uma forma planeada, organizada, estratégica.

Portugueses sozinhos

Coisa que não tem acontecido em Portugal. Os The Gift, por exemplo, têm aberto algumas portas no estrangeiro, mas sempre por iniciativa própria, de forma isolada. "Há mais de dez anos que defendo que Portugal deveria ter um organismo deste género", diz um dos membros da banda, John Gonçalves. "Já fomos a várias feiras internacionais, por exemplo, mas sem uma estrutura de apoio, sem exposição de conjunto, é difícil. A França e os países escandinavos estão muito bem organizados e as bandas têm vários tipos de apoio - tanto ao nível da organização de digressões como do pagamento de impostos, por exemplo. Seria excelente se essa iniciativa vingasse. Seria uma satisfação enorme saber que miúdos de 14 ou 15 anos, que hoje tocam em garagens, poderão ter no futuro um sistema de apoio ao nível da concorrência."

A música portuguesa já tem uma presença significativa no mercado internacional, em comparação com muitos dos países de características semelhantes. Não se parte do zero. O objectivo é estimular o que já foi feito isoladamente, potenciar novas relações. No final dos anos 80 assistiu-se a uma vaga de internacionalização protagonizada por nomes como Madredeus, Mísia, Dulce Pontes ou Rodrigo Leão. A partir do meio dos anos 90 houve uma pulverização com protagonistas associados ao fado (Mariza, Cristina Branco, Ana Moura, Mafalda Arnauth), às músicas urbanas (Buraka Som Sistema, J-Wow), aos sons africanos de expressão portuguesa (Sara Tavares, Lura, Nancy Vieira), ao jazz (Bernardo Sassetti, Maria João), às novas linguagens da pop (The Gift, Micro Audio Waves, David Fonseca), ao rock (Legendary Tiger Man, WrayGunn, Moonspell), às novas orientações da pop (Gala Drop, Tiago Miranda) ou à música ligeira (Tony Carreira, Emanuel).

Segundo dados do Portugal Music Export, há uma média anual de 500 concertos de artistas portugueses no exterior. O fado, com todas as suas ramificações, sem surpresa, é o género com mais procura, embora as músicas de inspiração africana ou algumas das linguagens pop-rock estejam em crescendo. "Esta iniciativa só pode trazer benefícios para a música portuguesa no seu todo, e não só para o fado, que é provavelmente o género com mais visibilidade no estrangeiro", diz ao P2 Cristina Branco, "fazendo com que artistas conquistem novos mercados e circulem de forma diferente".

Os Buraka Som Sistema talvez sejam o caso mais surpreendente dos últimos anos. Procuraram novos mercados para a sua música com sucesso, um facto comprovado por uma agenda de actuações cheia, pela presença nos mais importantes órgãos de informação internacionais e por um 1.º lugar no top espanhol de singles, tudo isto através de uma linguagem musical, o kuduro, que ainda não tinha sido credibilizada. A receita foi a aposta na diferença, mas ao mesmo tempo a procura de pontos de contacto com outros artistas e linguagens emergentes com potencial de afirmação global (M.I.A., Diplo).

Paulo Furtado, que no domingo termina em Paris mais uma digressão por França do projecto Legendary Tiger Man, é outro caso emblemático. "Sempre que venho em digressão trago discos portugueses. Desta vez trago Sean Riley, Dead Combo e Rita Redshoes e noto que as pessoas a quem os entrego ficam surpresas com a qualidade do que ouvem. Ou seja, temos várias bandas, de diversos géneros, com potencial de exportação, capazes também de dar outra imagem do país."

Opção ou imperativo?

Entre os programas que o PME pretende pôr em prática, numa primeira fase, encontramos a criação de um "cluster fado", tendo em vista a criação de um festival internacional, a participação em feiras e prémios no estrangeiro, o apoio à participação de artistas portugueses em digressões e festivais no exterior; e o investimento na produção de conteúdos de suporte de exportação, assim como ajudas para visitas promocionais e de divulgação.

"Aquilo que propomos é um modelo semelhante ao dos outros países europeus", explica Tiago Faden. "Existirá um programa de candidaturas semestrais que serão avaliadas por diversos especialistas, privilegiando-se a consistência do projecto e não o género musical." Paulo Furtado revê-se nesta estratégia, defendendo que os parâmetros de avaliação têm de ter em conta as possibilidades reais de exportação de cada projecto e não a necessidade de privilegiar um estilo. "Neste momento, em Portugal, existe bom hip-hop ou rock, por exemplo, com possibilidades de mercado." Terão de ser feitas escolhas - "algumas irão, claro, ser contra o que certas pessoas querem", diz Kalaf, dos Buraka Som Sistema. Na Dinamarca o critério para apoiar digressões internacionais tem em conta o número de concertos, as salas onde se efectuarão ou os contactos com a imprensa que irão ser feitos. "Se tivesse o tipo de apoio em viagens que têm bandas canadianas, francesas ou nórdicas, triplicava ou quadruplicava com facilidade os meus espectáculos", diz Furtado.

Há quem defenda que, para países periféricos como Portugal, de mercado exíguo, a internacionalização não é uma opção. É mesmo um imperativo. É a condição natural de estar no mundo. Já não é apenas uma questão de ser-se competitivo no mercado global. É criar condições para sustentar um percurso. É nisso que acredita Kalaf: "A indústria da música pop portuguesa precisa de uma intervenção, por isso esta iniciativa pode ser muito benéfica." O mesmo pensa Jean-François Michel: "Não existe uma crise, mas sim uma transformação. É nesse contexto que um Bureau adquire maior relevância. A música é internacional e, neste momento, é importante que os profissionais se organizem, percebendo quem são os seus interlocutores nesta nova era. Neste tempo de adaptação a uma nova realidade o poder público deve intervir, como faz com outras indústrias."