Drogas: Aqui não dá para uma pessoa ser o que uma pessoa é

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Foto: Vìtor Ferreira

Dominados pela heroína e pela cocaína, Carla e António procuram a normalidade possível dentro de uma fábrica fétida. Num apartamento vizinho, Francisco tenta outra normalidade - não voltar a traficar e a consumir. O tráfico de drogas ganha terreno desde que a Câmara do Porto decidiu demolir o Aleixo. Ao longo de seis semanas, à terça-feira, a Pública visitou aquele casal e ouviu aquele rapaz. Voltou um mês depois e recebeu uma boa notícia.

A fábrica

13 de Julho

Um casal partilha um cigarro, lado a lado, num sofá azul, de frente para uma mesa manchada, debaixo do alpendre do que já foi uma fábrica de garrafas de gás. Ela baixinha, magrinha, de cabelos pretos, crespos, presos num elástico. Ele alto, delgado, de cabelos curtos.

- Está tudo desarrumado - comenta ela, ao ver aproximar-se uma técnica da Norte Vida, associação incumbida de reduzir os riscos e os danos do uso de drogas na zona ocidental do Porto.

O lixo amontoa-se no interior do muro que contorna a fábrica, nas costas da Rua de Diogo de Botelho, a uns minutos do Douro. E entra nos edifícios sem portas nem janelas.

- O que quer dizer "renunciar"? - pergunta ele, levantando-se, num salto, a capitalizar a visita.

- Não querer - replica a psicóloga Sandra Vieira, do alto dos seus tacões de cortiça, incerta da utilidade da resposta.

O rapaz leva a mão direita à algibeira direita, tira uns papéis escurecidos, desdobra-os.

- Então explique-me isto aqui!

- Se eu souber.

Uma carta notifica-o de que o Ministério Público o acusou de traficar drogas junto à capela do Bairro do Dr. Nuno Pinheiro Torres - apanhou-o alguém da Divisão de Investigação Criminal com uma dose de cocaína e 20 de heroína. A outra avisa-o de que renunciou ao pedido de abertura de instrução do processo - esgotaram-se os 20 dias que a lei lhe dava.

O apoio jurídico não pára neste sítio tomado por toxicodependentes meses depois de anunciada a demolição do Bairro do Aleixo - a revelar transferência de algumas dinâmicas para bairros vizinhos. Pára a educação para a saúde e o apoio psicossocial - com pequenas refeições, drogas de substituição opiácea (metadona), medicamentos para a tuberculose ou o VIH, preservativos, material asséptico (seringas, toalhetes desinfectantes, carteiras de ácido cítrico, filtros, recipientes, ampolas de água bidestilada).

Os invólucros notam-se entre os edifícios da antiga Comanor - outrora Aluminia. E no átrio do edifício principal. Na escada de cimento que conduz ao andar superior. No corredor com portas fechadas atrás das quais se escondem ninhos de toxicodependentes sem abrigo. No salão do qual saem umas escadas que levam a um terraço de acesso barrado com tábuas.

Surpresa.

Zona livre de lixo.

António deixa-se cair sobre o sofá encostado a um canto do terraço. Encosta-se, sorridente.

- Esta é a nossa casa!

Carla olha-o, como se lhe fizesse uma festa. Senta-se ao seu lado, com as costas um pouco dobradas sobre as pernas.

Quem os vê ali, sentados, naquela alegria cúmplice, naquele sofá virado para duas cadeiras de ferro dispostas em torno de uma mesa do mesmo material, não adivinha desespero. E, no entanto, não há dia sem desespero debaixo deste guarda-sol, estrategicamente colocado em frente às portas das duas divisões ocupadas por este casal.

- Chegámos aqui e isto estava cheio de lixo. Não era, tia? Era uma altura de lixo. A minha mulher é que se dedicou a limpar isto.

A fábrica é um mundo fétido, por vezes violento, que existe à parte do bairro, à parte da cidade. Quem vive dentro dele, como quem vive fora dele, estabelece relações de namoro, de amizade, de trabalho. "Tia" é a mulher que ocupa uma divisão ao lado, e que assomara à porta, curiosa:

- Isto tinha alcatifas. Tantos bichos! A Carla começou no cantinho dela, porque ela é muito limpa.

Poucas coisas perturbam tanto esta cinquentona alta, trigueira, como o acumular de desperdícios. Há semanas, houve um incêndio. E todos os dias se cruza com ratos capazes de roer plástico, madeira, alumínio ou cimento e de transportar doenças que nem passam pela sua cabeça.

- Atiram tudo para o chão. É tudo a sujar, tudo a sujar! Não é por sermos consumidores que temos de viver no nojo!

Não é com pena dos vizinhos que pega na vassoura e a usa, com altivez. Teme importunar os moradores do bairro - inaugurado em 1970, baptizado Lordelo, rebaptizado Dr. Nuno Pinheiro Torres, PT para os moradores, em homenagem ao autarca que concluiu o Plano de Melhoramentos para a Cidade do Porto 1956- 1966, a primeira grande iniciativa de construção de habitação social pelo Estado no concelho. Se se aliam odores, consumos na via pública, barulhos, zaragatas, como podem eles aceitar a sua presença e a dos outros?

- Eu levo o meu lixo para o contentor. Faço as minhas necessidades num saco, amarro, levo para um contentor. Levo tudo, tudo.

Recuperar no PT

Ao [Bairro do] Aleixo vai todo o tipo de gente. Ao PT, é mais gente da alta. Pessoas que não querem dar a cara à morte. No PT, há algum cuidado - não se deixa estacionar, é comprar e andar. Os moradores do PT não gostam de confusão - começam logo a desatinar.

Estar em recuperação [morando] no PT é muito difícil. Venho à janela e vejo tudo a rolar. Tenho de ter uma força de vontade do carago. Mas estou farto da vida que levava. Gosto de acordar ao lado da minha namorada sem estar a pensar em arranjar dinheiro para usar "branca". Tento estar entretido. Acabo de almoçar, lavo a louça, faço uns recados à minha mãe ou à minha avó. Faço tudo para me manter ocupado. E tento evitar contactos com pessoas que consomem ou traficam, como o António ou a Carla. Passo por elas: "Então? Está tudo?" Sigo a minha vida. Não me quero relacionar. Se me puser à beira delas, posso recair.

Sempre fugi a responsabilidades. Agora, quero ser responsável, trabalhar, ter uma família. Sei que não vai ser fácil. Consumo desde os 13 anos. Aos 16 comecei a vender. Estou com 32. Tenho a 4.ª classe e nunca fiz outra coisa na puta da vida a não ser traficar!
Flagrante delito 20 de Julho

Carla caminha em passo lento. Pálida como uma personagem de um filme de zombies. Traz as calças pretas e a T-shirt branca da véspera. Não disfarça o corrimento no nariz, nos olhos; as dores no estômago, nos intestinos. Já passa das 16h e ainda não consumiu.

- Quero ir para tratamento o mais depressa possível! - proclama, trémula, ao chegar ao posto móvel que a equipa da Norte Vida às 10h30 e às 16h30 de cada dia estaciona quase em frente à fábrica.

A firmeza que empregou naquela frase num instante se percebe. Saiu há minutos do Tribunal de Instrução Criminal, a quatro ou cinco quilómetros daqui, na Rua de São João Novo, no centro histórico. A polícia surpreendeu-a na capela, por volta das duas e meia da manhã.

- Que querem esses gajos?! Tenho de consumir, tenho de arranjar para consumir! Tinha seis pacotes e quatro bases e levaram-me! Por amor de Deus! Com um quilo não apanham eles!

Alegou ser tudo para ela. Despenalizado o consumo, não se livra da acusação de tráfico um consumidor que seja apanhado com uma quantidade superior a dez doses médias diárias. Mas como saber com precisão qual a dose média diária de um toxicodependente como Carla?

Passou a noite na 17.ª esquadra, na Rua de João de Deus, já perto da Rotunda da Boavista. António foi lá, a pé, levar-lhe um iogurte e um maço de tabaco - tudo o que tinham em "casa". E, de manhã, pediu boleia para o Tribunal de Instrução Criminal a "um conhecido da vida", a um rapaz que viera ao Bairro do Dr. Nuno Pinheiro Torres comprar cocaína.

O juiz não se fiou na inocência da rapariga de menos de um metro e meio. Sujeitou-a a apresentações periódicas. Tem de se apresentar entre as 9h e as 20h de cada segunda, terça, quinta, sexta e domingo na esquadra. Tinha 0,58 gramas de cocaína e 2,44 de heroína.

- Eles andam sempre em cima de mim! Não sou traficante! Não ando com um BMW! Não tenho onde cair morta! Há uma semana, fui "caça" com seis pacotes! Uma vez, levaram-me e eu só tinha um pacote e cinco euros. Puxaram-me pelo cabelo, meteram-me no carro, levaram-me para a esquadra e mandaram-me calar, muito bem caladinha, senão era pior.

Amiúde, despejam-se acusações destas às equipas de intervenção directa da Norte Vida e do Serviço de Assistência das Organizações de Maria (SAOM) - ambas financiadas pelo Instituto da Droga e da Toxicodependência, uma mais virada para a redução de riscos, outra mais virada para a reinserção social. Sem pretensão de formalizar queixa. Como desabafos inconsequentes.

A psicóloga Sandra Vieira ouve até relatos sobre apreensão de material asséptico, tantos que deduz não terem ainda alguns agentes percebido "que isto é uma questão de saúde pública". Não seriam os únicos. No seu dia-a-dia, encontra muito quem não entenda este investimento público em seringas, vacinas, tratamentos. Para os calar, diz: "Os meus utentes também usam o metro."

Alheia a esse debate, Carla engole a metadona, acelera Rua das Palmeiras abaixo, vira à direita, na Rua do Dr. Nuno Pinheiro Torres, em direcção à capela, em busca de base de cocaína. António engole a metadona, cruza a Rua das Palmeiras, entra na fábrica, sobe as escadas, segue até "casa".

Isto é para quem está no fim da linha. Isto é um programa de baixo limiar. Isto não exige abstinência. "Isto tira-lhes os sintomas de privação de heroína", explicará a coordenadora Manuela Moreira. "Alguns injectam-se menos ou deixam de se injectar e passam a fumar." E ligam-se a uma equipa que os encaminha ou acompanha a serviços públicos - centro de saúde, hospital, segurança social, reinserção social, tribunal...

António entra em "casa":

- O meu dia foi péssimo. Nem dormi. Eram duas e meia e estava a sair para a Boavista. Fui a pé e vim a pé, por aí abaixo, devagarinho. Deitei-me para aí às quatro da manhã. Às oito já me estava a levantar.

Imagina o que a namorada sentiu. Entre Janeiro e Outubro de 2007, esteve preso - apanharam-no na capela por volta das oito da noite; saiu em liberdade condicional. Acaba de cumprir a pena a 4 de Janeiro de 2011. Desde então, já o detiveram umas quatro vezes.

Uma vez, a droga estava no chão de terra batida. Alguém a "desmarcara" - "desmarcar" é deitar a droga fora para escapar à polícia. Os agentes não acreditaram que não fora ele. Outra vez, a namorada fora comprar, alguém "desmarcara", ela apanhara, os agentes deduziram que era dele. Noutra vez, apanharam-no a vender. E noutra a transportar dez mil euros em notas e moedas.

António cala-se. Estica o pescoço, a tentar identificar quem está lá fora, na estrada, a uns 200 metros.

- Tenho um palpite que o gajo que está na paragem é "bófia". Não quero saber! Não tenho nada e não.

Há que estar alerta. A polícia aparece a qualquer instante do dia ou da noite. O bairro não é impenetrável, sequer reservado. Faz-se de blocos em banda com três andares e conta com duas fábricas a abrir a fronteira sul ao exterior. Quem passa pela Rua do Dr. Nuno Pinheiro Torres vê bem a capela e os que se agrupam junto a ela. De pé. No tráfico ou na cavaqueira. De vez em quando, agentes da Divisão de Investigação Criminal que circulam, aos pares, em carros descaracterizados, param a uns metros, saem, posicionam-se, a observar, como quem conversa. De repente, alguém os reconhece - ou ao carro. Debandada.

Carla chega, afogueada, com duas doses. António pergunta-lhe pela "ponta de lança", um cachimbo com um pequeno tubo de cerca de seis milímetros de diâmetro e dez centímetros de comprimento que usa para fumar base de cocaína, e refugia-se no quarto no qual cabe apenas uma cama de corpo e meio e um estreito armário - não gosta de fumar à frente de quem não fuma. A rapariga, de voz rouca e olhar parado, afunda-se no sofá. Não é indiferente ser ou não ser ela a primeira a colocar a "pedra" na ponta do cachimbo, a acender um isqueiro por baixo, a fumar. Por ele, ela aguenta mais um bocadinho. Afinal, por ela, ele aguentou o dia inteiro.

- Se tiver, fumo. Se não tiver, tenho de ressacar, não consigo arrumar, não consigo fazer nada. Eu fumo aquilo e fico uma pessoa normal. Posso fazer as minhas coisas. Não fumo, fico com dores. É um mal-estar. Dores musculares. Vómitos. Abrir a boca, só... Não se está bem em lado nenhum. É horrível. Dá suor. Dá frio. É horrível.

Consciência de autodestruição

Nunca usei "castanha". A "castanha" dá-me vómitos. Cheira a remédio. Só usava "branca". Um gajo usa "branca" e fica todo acelerado. Nem pensa em metade das merdas que faz - e faz tanta merda. Depois de as coisas acontecerem é que põe a mão na consciência. Dei mais por isso quando fui para tratamento e fui confrontado com a minha história de vida.

Usava bué. Como era traficante, usava bué. Desleixei-me. Um gajo desleixa-se. Tenho bué de processos-crime. Nem sei quantos tenho. Tudo 21. Há o [artigo] 25 e o [artigo] 21 e o 21 é tráfico e outras actividades ilícitas e o 25 é tráfico de menor gravidade.

Encaminharam-me para um serviço do Ministério da Saúde e uma assistente social disse-me: "Ou vai para tratamento ou vai preso." Eu disse-lhe: "Não quero ir fazer uma desintoxicação e já está! Oito dias para que serve?! Quero ir para uma comunidade terapêutica." Numa comunidade terapêutica, há [um jogo de] confrontação. Disseram-me: "Eras um palhaço!" Só quando me disseram essa merda é que percebi que prejudiquei a minha família e que me prejudiquei. A minha avó chegou a querer matar-se. Não aguentava mais ver-me assim - a destruir-me.
Namoro em tempo de ruína
27 de Julho

Saí por uma entrada lateral da fábrica. Alguns toxicodependentes consomem no salão com chão repleto de traves de madeira. Não sente calor. Veste uma saia castanha, comprida, e uma camisola justa, preta, de mangas compridas. António segue-a. E, num rompante, puxa-lhe o cabelo.

Ele brinca, brinca como se qualquer coisa tivesse ficado lá atrás. E ela gosta. As diabruras dele provocam-lhe riso, o riso alivia-lhe a carga. Mas ela também perde a paciência. Como agora, que o puxão a fez deixar cair os óculos de sol demasiado grandes para o seu rosto.

- Está quieto, caralho! Pareces uma criança!

Há quem negue o amor entre toxicodependentes - quem reduza as "relações de uso" ao instrumental, ao utilitário. Talvez perdesse as certezas frente a este namoro iniciado a 14 de Março de 2008. António nunca se esquece da data. Pensa sempre num modo de a assinalar.

- Já fui mais romântico. Também esta vida... Não dá para uma pessoa ser o que uma pessoa é. Esta vida priva de muitas coisas que fazem muita falta a um casal. São pormenores a que se dá bastante valor, eu sei... Mas isso também se altera um dia se... Tem de se ter uma casa, um quarto numa pensão, qualquer coisa, sei lá! Não digo um trabalho, porque é preciso uma desintoxicação...

- Ele saiu de casa da mãe dele e está aqui a viver por minha causa... A família dele não me aceita...

Nota-se-lhe amargura na voz. Quando ela fala nisto, a culpa mistura-se com a gratidão. Sim: fora um impulso encantador. Sim: generosidade dele estar ali, com ela. Sim: ele garante-lhe que tal impulso lhe trouxe mais prazer do que dor, mas ela não sabe, não sabe.

- Sempre a mesma coisa. Aqui, a nossa vida é sempre a mesma coisa. Acordar. Fumar. Comer, se houver; se não houver, não comer. Fumar. Ir à metadona. Pelo meio, "cortar", vender. Se não era a carrinha, às vezes, estava lixada. Não comia pão, não comia nada. A droga não vem a casa. Enquanto não for para tratamento, tenho de consumir. Aparece a polícia, vou dentro. Já fui umas vezes. É só para arranjar para o consumo, mas eles levam na mesma.

Aspira a uma certa normalidade. Encontra na "casa" um bocadinho dessa sensação. Está sempre à procura de qualquer coisa que torne a "casa" mais "casa". Esta semana, uma poltrona verde, com uma colcha branca e anil por cima, aliou-se à mesa e às cadeiras do terraço para compor a "salinha"; e um armário de contraplacado e vidro entrou na "cozinha".

- Tenho gosto pela minha casa. Para mim, isto é a minha casa. Mas se fosse uma casa a sério, era diferente...

Faz de conta que partilha um apartamento de tipologia 1 com o namorado. Tenta recriar o quarto, a cozinha, a sala. Falta-lhe a casa de banho. Ninguém conhece o valor de um chuveiro e de uma sanita até viver sem chuveiro e sem sanita.

- Vamos buscar água em garrafões de 25 litros à casa da mãe dele. Ela mora na Pasteleira Nova [o bairro da fronteira oeste]. Tomamos banho todos os dias. Antes não tinha fogão e tomava banho de água fria. Não é como quem tem um chuveiro ou assim. É à gato. Ponho água numa bacia, lavo o cabelo, depois os braços, por aí abaixo. Depois, ele vem com um garrafão e deita em cima de mim. Eu saio. Ele lava-se nessa água. Eu boto-lhe um garrafão por cima. Posso estar dois dias sem me lavar, mais não. Mais do que isso não aguento.

Guarda uma certa vaidade. Tem as unhas pintadas de roxo. As dos pés e as das mãos. Compra verniz numa loja de produtos chineses instalada num dos acessos ao Aleixo - há-os de dezenas de cores, a um euro, numa prateleira, quase à entrada, antes da tinta preta que usa no cabelo, depois dos colares de contas que em certas ocasiões coloca à volta do pescoço. Tem muitos. Todos coloridos. Provam-lhe que as drogas não levaram tudo.

- Ainda ontem fui dar uma volta com o meu homem. Arranjei-me. Pintei-me. Pus o meu tacão alto. Fomos tomar um café ao Marquês. Saímos deste ambiente que é só falatório. Devíamos ser todos unidos, mas não. Se tenho mais alguma coisa, é uma inveja. O que eu tenho, eles podem ter, mas não têm capacidade. Não se dão ao trabalho de ir ao caixote do lixo e de pegar nas coisas. Não se dão ao trabalho de pegar num garrafão e de trazer água.

- Nós vamos namorar todos os dias - cintila António, cortando a conversa sobre as relações de vizinhança.

- Quando estávamos na casa da mãe dele, quando tínhamos um cantinho... Agora, nem tenho muito sentido para isso. Estou sempre com medo que alguém ouça. Se tivesse um quarto, uma casa, era diferente.

- Quando tivermos um quarto, vou ter um quadro com a família toda - anuncia ele, dançante.

Ele anda com uma fotografia da família na carteira que traz sempre no bolso de trás das calças. Uma foto A6 do pai, com uma foto tipo-passe da mãe colada no lado direito. Atrás, outras do mesmo tamanho - da irmã, do irmão, dos sobrinhos. Só lhe falta da companheira e da enteada.

- Eu sou sozinha, sou... Não sou. Tenho o meu homem. Saí de casa com 15 anos. Trabalhava na noite. Desde que conheci o António, deixei a vida da noite.

Sangue-frio

Nunca me faltaram mulheres. Talvez por nunca me faltar droga. E só fui detido duas vezes. Uma vez umas horas, outra vez uns dias, por multa [por não me ter apresentado em tribunal]. Com o tempo, aprendi a estar calmo. Podia estar a fumegar por dentro, ninguém notava. A "bófia" abordava-me e eu mostrava que tinha duas ou três doses, não era revistado e, às vezes, tinha mais.

Uma vez, tinha de pagar uns 300 euros de multa. Estava no Bairro do Aleixo com uma mochila com uns cem pacotes. Eu vendia no PT, ali, ao pé da capela, mas fui ao Aleixo despachar aquilo. Estava lá mais gente. Iam comprar-me porque sabiam que eu tinha bom produto. O polícia disse-me: "Ou pagas os 300 euros agora ou comes o cabrito lá dentro." Liguei para o meu sobrinho: "Preciso de um favor. Traz-me 300 euros, senão vou já para [a cadeia de] Custóias." E eles não me revistaram!
A avó morta e a filha guardada em casa da mãe
3 de Agosto

O casal falhou a consulta no Centro de Respostas Integradas Porto Ocidental, que atende toxicodependentes da freguesia de Lordelo do Ouro, ali perto, quase no fim da Rua de Diogo de Botelho. A equipa de rua da Norte Vida tem "via verde" às quartas-feiras. Mas, à hora combinada, nem vivalma.

- Já nem me lembro porquê. Adormeci ou esqueci. Sei lá! Agora, têm de me marcar outra...

A psicóloga nem pestaneja, habituada que está a lidar com estas manifestações de vontade sem força para passar à prática. Não se zanga. Zangar-se para quê? Ou Carla sente um desejo autêntico, fortíssimo, de mudar de vida, ou de nada servirá obrigá-la a desintoxicar-se.

O namorado deu um salto a casa da mãe. E ela ficou por ali, a tentar encontrar outras formas de se desenrascar. Uma mulher encontra sempre forma de se desenrascar. Há sempre quem aproveite a aflição. As toxicodependentes são as trabalhadoras do sexo mais baratas do mercado. Cobram dez euros. Se estiverem a ressacar, até são capazes de cobrar cinco.

- Estou farta disto! Quero parar, ter uma vida normal com uma pessoa que eu amo, que é o meu homem, e ter tempo para a minha filha. Queria dar carinho à minha filha. Quando tinha a idade dela, queria ter a minha mãe ao meu lado e não tinha. A minha avó ia buscar-me à escola, mas não era igual... Por uns minutos, interrompe a sua luta diária. Refugia-se "em casa", disposta a satisfazer a curiosidade de quem há um mês aparece, observa, indaga, ouve, anota. Vai doer. Sabe que vai doer. E avisa: a disponibilidade mental para falar pode esvair-se a qualquer momento.

- Eu ia ao Aleixo comprar. Ia de táxi. Ia lá e ia embora. Depois, perdi a minha filha e desinteressei-me por tudo. Fumava pouco, mas morava numa pensão e prostituía-me. Quiseram tirar-me a minha filha e pedi à minha mãe para olhar por ela. A minha vida deixou de fazer sentido.

A menina de seis anos celebrou 12. E a mãe completou 32, quase sem abrigo, quase sem dentes.

- Posso ir lá vê-la ao fim-de-semana, mas não tenho ido. Estou muito em baixo. Estou muito magra. É o stress também... Vou-me abaixo. Não adianta. Os nervos dão cabo de mim. Ir lá com este aspecto... a minha mãe começa logo: "Só queres saber da droga!" E a minha filha a ouvir isso... Não quero! Não quero! Para ouvir isso, não vou. Sofre ela e sofro eu. Eu, quando era miúda, também queria ter a minha mãe à minha beira. A minha mãe abandonou-me com nove meses. Conheci a minha mãe tinha sete ou oito anos. Lembro-me como se fosse hoje. Ela vivia e trabalhava em Espinho. Era uma boîte. Aquilo tinha um corredor enorme com portas que nunca mais acabavam. Os quartos eram em cima e a boîte era em baixo. Eu chegava ao domingo a casa da minha avó com notas de 20 escudos. Ela perguntava de onde vinha aquele dinheiro. E eu dizia: "A mãe bebe, eu danço e os homens dão notas." A minha avó não era burra e proibiu-me de ir com a minha mãe.

- Era alternadeira?

- Era.

- E não se dão?

- Não. Não gosto de ir à casa dela. Ela e o meu padrasto deitam-me abaixo. No Natal, convidaram até pessoas que não conheço e tinham prendas para todos menos para mim, a desgraçadinha. Parece que eu não sou da família. Quando andava grávida, o meu padrasto dizia que ia nascer um ET.

- E a tua filha percebe o que se passa?

- Oh! Percebe, percebe. Quer dizer, nunca tive uma conversa com ela sobre isso. A minha mãe não me deixa sair sozinha com ela, ir a um café. Tem medo que eu não a entregue. Que sentido isto tem? Eu é que pedi à minha mãe para ficar com ela e ela agora... A minha filha viveu comigo até aos seis anos. Só quando a assistente social me quis tirar a menina é que eu fui falar com a minha mãe. Sempre ficava melhor com ela do que num lar ou em casa de desconhecidos. Ela não foi mãe para mim, que crie a minha filha.

A tristeza apoderou-se do seu rosto mirrado. Não dá, porém, sinal de desejar pôr um ponto final naquela conversa que se vai tornando íntima. Prossegue-a, a quebrar uma rotina feita de diálogos curtos sobre drogas, decidida a revelar o que pode ser uma vida desarrumada por elas.

- É uma menina inteligente, graças a Deus. Não saiu à mãe. A mãe não era burra, mas era preguiçosa. Ela gosta da escola.

Os seus olhos humedecem.

- Se tivesse uma casa, podia ir buscar a minha filha ao fim-de-semana. Não a vou trazer para aqui, para esta confusão! Ela já percebe. Ela percebe tudo. "Mãe, onde moras?" Ela já faz perguntas. Ela já me disse: "Mãe, não ligues à avó e ao avô (ela chama avô ao meu padrasto). Eu quando for trabalhar, quem te vai ajudar sou eu. Não interessa o que dizem, eu gosto de ti."

Limpa as lágrimas com os dedos da mão direita, passa-os pelo nariz, esfrega-os nas calças curtas de um castanho mais escuro do que o da camisola. De súbito, qualquer coisa se ilumina.

- Eu era a pessoa mais importante da vida da minha avó. Se ela fosse viva, eu não estava aqui. Uma vez, estava no Aleixo e disse: "Meu Deus! Acho que já chega de tanto sofrimento. Minha rica avó, acho que já paguei por todo o mal que te fiz!" E apareceu o António. Nunca tinha tido um homem que fosse meu amigo. Já tinha tido um homem e ele dava-me porrada. Este nunca me bateu.

Pó em pedra

Fechava-me no quarto a consumir. A minha avó via que eu andava com os olhos arregalados, sem vontade de comer, a perder os dentes. A minha avó via que eu não conseguia pôr um travão naquilo, que para ir a algum lado tinha de levar muito dinheiro. E a minha avó chorava.

Eu não sabia que sofria de uma doença e que tinha de aprender a lidar com ela. Queria deixar a "branca", ia para o Algarve de férias, não levava um grama. Chegava lá: "Então, estás fixe?" Sou muito conhecido. Ia a uma festa, bebia uns copos, dava-me um "vaipe", comprava "branca". No primeiro dia, dizia que era só uma vez e até me resguardava. No segundo dia, comprava outra vez. Depois, já estava. Perdia a vergonha. Fumava à frente de toda a gente.

Nunca me faltou dinheiro. Eu cozia: a "branca" vinha em pó e eu transformava-a em pedra - fazia bases. Como é que se faz bases? É só aquecer o hidrocloreto de cocaína numa solução de bicarbonato de sódio até a água evaporar. Eu tinha um truque: punha hidrocarboneto. Aquilo crescia! Cozia 50 gramas, tirava 60. E dez gramas são cento e tal contos. Cozia um quilo: ganhava 100 contos e dez gramas.
O fecho da fábrica
10 de Agosto

- Chegaram lá dentro e puseram-se aos berros: "Tudo embora!" Como cães. A partir tudo o que é nosso. Fiquei com uma mão à frente e outra atrás. A solução é arrombar isto tudo.

Ficou com a roupa que traz vestida, com as sandálias que traz calçadas, com o saco. Foi esta manhã. Seriam umas nove e meia. Sente-se desrespeitada, devastada, despojada. Atrás da metadona, bebe dois copos de água e um iogurte líquido. Embrulha o pão no guardanapo. Guarda-o no saco. Não quer comer. A comida não desce. O desgosto não deixa.

- Chegaram lá, estávamos a dormir. "Upa! Rapaziada!" Eu comecei logo a mandar vir: "Têm de nos dar um tempo!" Não quiseram saber: "É cinco minutos! A andar, a andar!"

- E os outros? - pergunta a técnica psicossocial Catarina Teixeira, que há tanto temia este dia.

- Sei lá! Parece que combinaram sair todos.

Senta-se no fino muro de cimento que separa o passeio do espaço arborizado, fronteira leste do bairro bege. Dali, observa a fábrica, o movimento de quatro homens de calça de ganga e pólo e de dois de farda e colete fluorescente. E comenta cada um dos seus movimentos, com desdém.

- O dinheiro que estão a gastar naquilo... Podiam construir uma casinha para a gente. Isto ao fim e ao cabo vai ser tudo deitado abaixo. Põem uma patrulha a passar à frente, entramos por trás. Não há outra solução. Então! Tenho lá as minhas coisinhas. Quero ir lá buscar as minhas coisinhas.

- Onde está o António?

- Está no buraco. Há outra fábrica lá atrás, mas está quase sem tecto. O pessoal que estava aqui está lá.

Dois polícias e três funcionários andam para trás e para a frente. Pelo menos as portas e as janelas do edifício principal estão já tapadas com tijolos. Os funcionários põem agora uma rede sobre o muro e é como se, de um momento para outro, aumentassem a sua altura.

- É para o pessoal não saltar.

- Nós saltamos aquilo e muito mais! Estão a ter tanto trabalho não sei para quê! Para a gente deitar tudo abaixo? Hum... Se fizessem uma casinha para todos nós! Estão ali a gastar tanto dinheiro para a gente deitar tudo abaixo. Além de sermos drogados, somos cidadãos como os outros!

- Vocês têm é de sair daqui - torna a técnica.

- Já meti os papéis para o rendimento [social de inserção]. Foi os da SAOM. Disse que precisava do rendimento e eles trouxeram papéis. Eles levam o bilhete de identidade, tiram fotocópias, preenchem tudo, trazem para a gente assinar e entregam lá na Segurança Social. Tem de ser assim. Um "agarrado" não tem vontade de ir a lado nenhum. Somos tipo crianças. Estamos metidos aqui e não conseguimos sair daqui. Tenho noção disso. Quando estou com a cabeça mais fraca, não tenho. Quando não estou, tenho.

Parece ter interiorizado o discurso técnico que há tantos anos ouve aqui e noutros "bairros de uso". O reconhecimento daquelas incapacidades, daquela infantilização, é que resultou na rede nacional de equipas de rua, devedora do programa "Diz não a uma seringa em segunda mão".

- Hoje, estivemos toda a manhã a tentar arranjar dinheiro e ele ainda está ali... sentado. Não se pode levantar. Ele consome mais do que eu. Foi à mãe dele pedir. Ela não estava em casa. Ele está um bocado mal. Enquanto ele foi pedir, eu consegui arranjar. Guardei-lhe um bocadinho, mas não deu para ele ficar bem. Vou ver se consigo arranjar qualquer coisa para ele. Eu sou capaz de dar. Por isso também me dão. E quando peço, emprestam-me, porque sabem que eu pago. Tenho palavra. Ele nisso é diferente de mim. Às vezes, por causa de uma merda de cinco euros... o mal que nós passamos! Mas é mesmo assim. É a vida. Foi a vida que nos calhou.

Chega António, balouçante, murcho:

- Estou cheio de sede.

Leva o copo de plástico à boca, sôfrego. Bebe um, dois, três copos de água, um de metadona, outro de água.

- Dê-me um pão.

O técnico psicossocial Rui Lopes dá-lhe um pão e um iogurte líquido. A equipa traz sempre pão e iogurte ou sumo para aconchegar o estômago de quem aqui recebe a sua droga de substituição.

- Deixa ver quanto é que esse leva.

Compara as duas marcas de iogurtes disponíveis na carrinha. Tenta descobrir se uma embalagem contém mais do que a outra.

- Obrigado. Não posso ficar com os dois?

- Só posso dar um.

- Queres mais um pão? - pergunta-lhe Carla.

- Quero.

Ela dá-lhe o pão dela. A única coisa que tem para comer hoje.

- Então? - pergunta António a um rapaz que ali vem trocar seringas.

- Não deixas um gajo em paz!

- Não estás aqui para vender, tu? Há bocado fui levar um chavalo e não estavas lá.

- Não tenho nada.

O rapaz desaparece, no espaço relvado, arborizado. E ninguém diz uma palavra. É como se ninguém tivesse percebido que António está tão desesperado que aborda "clientes" e encaminha-os para aquele traficante-consumidor que dispensa os seus serviços.

- Estão a meter picos no arame! - alerta Carla.

- É melhor porem alarme - retorque o namorado.

- A nossa vida estava ali, naquela fábrica...

- Estão a sair, os filhos da puta.

- A patrulha fica aí.

- Vamos ter de entrar por trás para tirar algumas coisas. Roupa de cama, fogão, louça.

- Os filhos da puta partiram um móvel! Dei uma base e um pacote por aquela estantezinha com prateleiras de vidro. Tinha cá fora para fazer uma salinha. Tinha comprado a um gajo que tinha apanhado aquilo do lixo.

- O vidro havia de lhe cortar a mão toda.

- Aquilo foi para não me bater.

- Foi, foi.

- Eu perguntei: "Você tem filhos? Espero que não lhe aconteça o que me está a acontecer!" Ele disse: "Está calada!"

Levantam-se. Sobem a Rua das Palmeiras, cortam pelo Bairro de Lordelo, viram para a Travessa das Condominhas, rumo ao Aleixo. O Pinheiro Torres, hoje, não rola.

Abastecimento

Estava-se mesmo a ver que iam fechar aquilo! Aquilo estava a ficar do pior. Já não consumiam só lá atrás, já vendiam.

A polícia esteve aí o dia todo, eles piraram-se para o Aleixo. Quando a polícia está lá, piram-se para cá. Fica tudo com medo que a droga acabe. [Os consumidores] não se conseguem controlar. Passam à frente uns dos outros. A bicha cresce. Os traficantes passam-se. Para controlar as coisas, podem forçar os consumidores a formar uma fila, encostadinhos à parede.

No PT, normalmente, quem vende também consome. Quando é "caço", diz que só trafica para consumir e sempre é mais tolerado. Se for consumidor, por cada dez doses recebe duas e já não chateia. Quando [o produto] está a acabar, tem de se mandar vir ou de se ir buscar. E quando se vai buscar, é preciso esperar. E para quem está à espera isso pode ser muito tempo. Às vezes, é. A pessoa que coze não está em casa. Falta quem faz as doses...
Sem lugar
17 de Agosto

Carla e António não aparecem nem na hora em que a carrinha da Norte Vida estaciona na Rua das Palmeiras com metadona. Estarão no que já foi uma fábrica e hoje é uma ruína, no cruzamento da Rua do Dr. Nuno Pinheiro Torres com a Travessa da Mouteira, ao lado da ribeira da Granja?

Quando Carla e António nasceram, na década de 70, a cidade ainda vivia em comunhão com a indústria. Num artigo publicado nos Cadernos de Geografia, em 1998, José António V. Rio Fernandes menciona a dispersão de pequenas unidades e a "permanência de fábricas de maior dimensão num aro particularmente denso junto à linha de caminhos-de-ferro, na freguesia de Campanhã, ou junto à ribeira da Granja, em Lordelo do Ouro". Umas fábricas saíram do Porto - para a periferia e para além dela. Outras entraram em decadência, fecharam, espalhando desemprego, como uma praga impossível de controlar. Quantas se terão convertido em ruínas, como a que aqui se vê ou as que se vêem em terrenos apetecíveis próximos do Aleixo?

Um vidro e um bocado de madeira servem de porta da antiga fábrica de lacticínios. A bicicleta de António está ali, caída, sobre as ervas daninhas.

- António! António!

Silêncio.

Como num teatro de sombras, atrás do vidro baço movem-se silhuetas de toxicodependentes concentrados a fumar ou a injectar drogas ou a "curtir a broa".

- Está aí o António?

- Ei!

Duas mãos afastam o vidro. Um homem de cabelo curto, de pele suja, sai do misterioso buraco.

Há sempre alguém no buraco. O "pica", por exemplo, mal abandona o seu "local de trabalho". Gasta os dias a preparar doses, a ajudar quem as comprou a injectá-las. Recebe, por tais serviços, cigarros ou pequenas porções do "caldo". Pode recolher seringas usadas, trocá-las. Nisso concorre com os vendedores de "prata", limão e outros materiais.

- Ele levou uma coça ontem à noite. A Carla meteu-se e sobrou para ela. Não sei onde estão.

- Onde estão a morar?

- Não sei. Por aí. Eles pediram-me para ver se os deixava ficar comigo.

- Onde estás?

- Estou numa bouça, ali em cima, atrás da igreja da Pasteleira. Há mais gente lá, em tendas.

É como se não houvesse lugar para eles. Os tectos das fábricas desactivadas próximas do Aleixo foram arrasados só para os enxotar. Apesar do mau trato a que os moradores os sujeitam, alguns pernoitam nas caves das cinco torres ou no ocioso terreno situado em frente à primeira torre. Muitos dos que usavam a escola primária, encerrada em 2008 e demolida em 2010, mudaram-se para a Pasteleira. O pároco da Pasteleira já mandou colocar um gradeamento branco em volta do perímetro da Igreja de Nossa Senhora da Ajuda e do Centro Social.

"A cidade química é dinâmica", como há muito avisou Luís Fernandes. Há perto de 20 anos, quando aqui andou a fazer a etnografia que haveria de originar o livro Sítio das Drogas, o Bairro do Dr. Nuno Pinheiro Torres dava "a impressão de um sítio recolhido sobre si próprio". A rua não era "nele local de interacção tão densa" nem nele se percebia "venda pública de drogas como no Aleixo". Ou na Pasteleira.

O investigador debruçou-se sobre um "largo", local de venda de haxixe, heroína e cocaína, numa das saídas da Pasteleira. E o que então escreveu sobre a vida nesse "largo" quase podia agora escrever sobre a vida no largo da capela do Dr. Nuno Pinheiro Torres: "No "largo" convive-se de pé. Um ou outro senta-se nos beirais que supostamente desenhariam os canteiros, transformados em chão de terra batida. [...] Conviver, aqui, é resistir à chacota, saber ripostar com rapidez, mostrar-se hábil no jogo das agressões verbais." O tráfico reposiciona-se. Está a voltar atrás? Como aconteceu na zona oriental, quando o São João de Deus foi abaixo e o Cerco do Porto recuperou protagonismo? Sobram desempregados sem expectativas...

Equipa num "bairro de uso"

Uma rede de tráfico de drogas envolve muita gente. Há o patrão. Há a pessoa que lhe dá o produto à consignação. Bom: não são todas iguais. Na nossa equipa, uma pessoa cozia; outra distribuía os plásticos; duas faziam os pacotes, uma as bases [é um trabalho minucioso, que requer paciência]. Todos os dias, um de nós levava o dinheiro à pessoa que dava o produto à consignação.

Num "bairro de uso", há muita gente a viver daquilo. Tínhamos uma pessoa que guardava a droga [uma casa de recuo]. E uma que [a] ia buscar ao sítio - para aquilo não parar na capela. Tínhamos várias a vender. E várias a controlar, a "capear".
Abrir caminho
21 de Setembro

Carla e António não revelam onde dormem. Relacionam o encerramento da fábrica com as visitas de uma equipa do Instituto da Droga e da Toxicodependência, encarregada de avaliar os projectos que aqui financia. Talvez saltem o muro, com discrição, como outros toxicodependentes. Desapareceu a rede colocada no dia em que tijolos taparam portas e janelas.

Francisco está indisponível. Já não lava a louça só para se entreter. Andava a "bater mal", porque a assistente social que lhe cabe prometera ajudá-lo a "pôr os dentes, a arranjar um trabalho, a endireitar a vida, e nada, nada, nada". Entretanto, ela colocou-o num programa ocupacional. E ele está, pela primeira vez na vida, a fazer um trabalho lícito, a cumprir um horário.

A vida prossegue no Dr. Nuno Pinheiro Torres. Há três dias, a polícia passou mais de duas dezenas de apartamentos a pente fino no Aleixo - o processo de transferência de moradores já arrancou e com ele novas estratégias se desenham: alguns traficantes ocuparam as casas vazias para guardar e vender droga. Ontem e hoje, a polícia virou-se para o Dr. Nuno Pinheiro Torres. Em dias assim, o tráfico minga e migra para espaços que só os iniciados conhecem. Um antigo ferroviário que produz "canecos", cachimbos para fumar base de cocaína, trouxe 33 seringas e podia ter trazido 100. Recolhe todas as que encontra abandonadas e vem à carrinha trocá-las por material asséptico que usa ou vende. Encontrou o seu nicho. E, para já, a sua clientela aflui. a

Nota: Os nomes dos protagonistas foram alterados.

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