Desfazer o afro-pessimismo

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Os fotógrafos africanos humanizam, enquanto europeus e americanos tendem a inscrever as imagens de África numa narrativa de desespero e miséria, recuando para a percepção, predominante na época colonial, de que a pessoa é objecto - e não sujeito - da fotografia. Entrevista com Okwui Enwezor, decano dos Assuntos Académicos no Instituto de Arte de São Francisco

O pensamento de Okwui Enwezor sobre a fotografia de África começa no ponto em que diz que "a fotografia não é exclusiva de nenhuma cultura". Para nos convencer, este professor nigeriano a viver nos EUA, um estudioso das representações de África por africanos e não-africanos, dá vários exemplos. De artistas de um mesmo país que produzem imagens opostas de um mesmo mundo. De fotógrafos europeus e africanos que coincidem no mesmo tipo de linguagem visual. Porém, Enwezor, decano dos Assuntos Académicos no Instituto de Arte de São Francisco, director artístico de vários eventos como a Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Sevilha e curador de várias exposições de fotografia de todo o mundo, reconhece que uma linha ainda separa os africanos de europeus e americanos.

Faz sentido falar de uma fotografia africana?

Podemos falar de fotografia africana, mas é importante sublinhar que a fotografia não pertence a nenhuma cultura. É uma mera tecnologia através da qual são feitas imagens. Quando reflectimos sobre fotografia africana, é importante examinar os códigos visuais que os fotógrafos estão a inscrever no seu trabalho para chegarmos a uma forma de pensar o significado das imagens. A tendência é pensar em fotografia africana como algo novo, separado da história da fotografia, o que contesto. É importante colocar o trabalho dos fotógrafos africanos dentro dos cânones completos da história da fotografia.

Não é então distinta de outras?

A fotografia africana é indissociável da história da fotografia, da mesma maneira que a fotografia japonesa ou asiática também o são. Mas existem obviamente muitas diferenças naquilo que os fotógrafos fotografam. Quando olhamos para um objecto fotográfico, estamos a olhar para algo específico. E o objecto fotográfico não é necessariamente diferente quer tenha a imagem de um africano ou de um europeu. Qualquer cultura possui linguagens estéticas através das quais produz as suas imagens.

Mas deve haver algo de especial e comum na fotografia africana para ser tema de uma grande exposição como "Africa: See You, See Me" em Lisboa e noutras de que foi curador?

Podemos aplicar a mesma lógica à fotografia europeia. A fotografia é uma disciplina. E as fotografias escolhidas estão nesta, como noutras exposições, porque são imagens muito boas que podem contribuir para uma compreensão mais alargada da história da fotografia. Se olharmos para o trabalho de Seydou Keïta [Mali, 1921-2001] em relação ao de August Sander [Alemanha, 1876-1964] vemos como estes dois fotógrafos vindos de contextos diferentes olham para as suas sociedades de maneira cuidadosa, detalhada e sensível. Quando se comparam estas duas pessoas, de países e continentes diferentes, percebe-se melhor como os fotógrafos trabalham. Sander tem um trabalho específico na forma como examina a sua cultura. Keïta também.

A diversidade, a energia, a luz de África não contribuem de uma maneira singular para a fotografia universal? Criando com esses elementos uma identidade própria?

É algo para ver caso a caso. Existem diferenças óbvias que podemos identificar, mas são aspectos específicos. Os africanos foram influenciados pelos europeus que, por sua vez, foram mais tarde influenciados pelos africanos. Uns e outros usam essa influência, transformam-na e trazem-na para a sua linguagem. Mas há mais vias de intercâmbio de influências do que essas. Temos de olhar para a diversidade e não para a singularidade da fotografia africana. Quando olhamos para a singularidade, começamos a construir mitos sobre a fotografia que simplesmente não existem ou não são sustentados pela realidade.

Como se reflecte essa diversidade na fotografia contemporânea?

Se olharmos o trabalho de David Golblatt (n. 1930) [um branco judeu na África do Sul], em relação ao trabalho de Peter Magubane (n. 1932) [um negro na África do Sul], há diferenças óbvias na abordagem. Magubane é essencialmente um fotojornalista, ao contrário de Golblatt. Os dois são da mesma geração, fotografam os mesmos temas, o seu país, e a imagem que produzem do seu país tem cânones diferentes. Este é o tipo de especificidades que é importante ter em conta quando falamos de fotografia africana. Um outro exemplo: se olharmos para o trabalho de Youssef Nabil, em relação às fotomontagens de Jane Alexander ou à grande escala do trabalho da indo-ugandesa Zarina Bhimji, vemos três abordagens diferentes de fotografia africana. É a complexidade e a diversidade dessas abordagens que é muito interessante. E é isso que torna a fotografia africana especial.

Podemos falar de uma tendência ao longo do tempo? O professor Awam Amkpa, curador da exposição "Africa: SeeYou, See Me", fala de um corte entre a época colonial e pós-colonial. Antes das independências, as pessoas eram fotografadas como objectos e só depois passaram a ser sujeitos das imagens em que eles próprios começaram a querer ser representados?

Se existe algum contributo trazido pelos fotógrafos africanos, em relação à forma como a África tem sido representada na fotografia, é o de desfazer o afro-pessimismo. Perante uma fotografia que tende a desvalorizar a humanidade dos africanos, os fotógrafos do continente insistem na humanidade dos africanos. A tendência é essa. A representação que os fotógrafos africanos fazem do sujeito em África é fundamentalmente diferente da tendência geral da fotografia para documentar as pessoas em África enquanto objectos. E isso faz-nos voltar ao que diz Awam Amkpa no seu trabalho: a noção de humanização do sujeito africano e da representação da complexidade do mundo social africano que os fotógrafos africanos constantemente inscrevem no seu mundo.

Isso significa que, se olharmos para o trabalho dos fotógrafos ocidentais, as pessoas em África continuam a ser fotografadas como objectos e não como sujeitos, mantendo-se aquilo que era a representação dos africanos na era colonial?

Absolutamente. Os africanos não olham para as suas vidas como sendo desesperadas, ou seja, como o Ocidente tende a representá-las. Além disso, não há um único africano que eu conheça que seja um indivíduo definitivo, sem subjectividade. E o facto de esse tipo de representação [afro-pessimista] continuar no Ocidente significa que ou existe uma extrema má fé ou uma ignorância monumental. Essas imagens deviam simplesmente ser banidas. É importante que as instituições continuem a enriquecer a nossa percepção e conhecimento da produção visual em todo o mundo. E esta exposição insere-se nisso.