Duas mil casas ameaçam acordo de paz

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Em Revava, cerca de 2000 pessoas juntaram-se numa cerimónia para celebrar o fim da moratória Nir Elias/

Primeiro-ministro israelita não prolongou moratória, mas pediu restrição aos colonos judeus com licenças para construir. Mahmoud Abbas ainda mantém "ramo de oliveira" na mão

Pode o processo de paz israelo-palestiniano sobreviver à retoma da construção de colonatos judeus nos territórios ocupados da Cisjordânia, suspensa nos últimos dez meses precisamente para pôr fim ao impasse de quase dois anos nas negociações para uma coabitação pacífica de dois estados soberanos, Israel e Palestina?

O presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, dizia ontem que eram "uma perda de tempo", se a colonização continuasse. Mas o ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, acredita que sim. À BBC, disse acreditar que as conversações, retomadas no início do mês em Washington, "não vão ser bloqueadas por esta questão da moratória". "Vamos poder navegar, com a força de todos os motores, para negociações substanciais e para um acordo definitivo".

Barak falou antes de o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, confirmar que a moratória na construção de novas casas, licenciadas para as regiões de Judeia e Samara, tinha definitivamente expirado e não seria prolongada - como reclamara a Autoridade Palestiniana.

A Liga Árabe, entretanto, vai reunir-se a 4 de Outubro, para apreciar a questão a pedido de Abbas.

Milhares de colonos preparavam-se ontem para assinalar o fim da moratória com uma "cerimónia simbólica" em Revava, lançando 2000 mil balões, tantos quantas as novas casas. Vários membros do Partido Likud de Netanyahu prometeram estar presentes.

Um dos negociadores palestinianos, Nabil Sha"ath, disse à rádio Israel que só Netanyahu podia "neutralizar a situação potencialmente explosiva", detendo ou restringindo os projectos dos colonos. O líder israelita foi incapaz de resistir à pressão dos parceiros de coligação pró-colonatos, que suportam o seu Governo. Mas tentou pôr água na fervura, pedindo àqueles que detêm licenças de construção para "mostrar o mesmo comedimento e responsabilidade" que exibiram durante os dez meses que durou a suspensão.

Abbas está hoje em Paris para reuniões com o Presidente Nicolas Sarkozy e líderes da comunidade judaica que lhe querem pedir para não desistir das negociações. Em Nova Iorque, Abbas usou a metáfora do "ramo de oliveira" no discurso à Assembleia Geral da ONU para reforçar o seu compromisso com o progresso das negociações - e manter em aberto a possibilidade de um acordo na questão dos colonatos.

E, em entrevista ao diário Al-Hayat, Abbas garantiu que os palestinianos não regressariam à violência se porventura o processo falhar. "Já antes tentamos uma Intifada que só nos trouxe prejuízos", recordou.

A posição de Abbas é delicada: se por um lado não pode dar a ideia de cedência na questão dos colonatos, por outro não pode deitar por terra a possibilidade de negociar a criação de um estado da Palestina, como reclamado pelo movimento da Fatah.

Se o processo de paz sobreviver ao fim do prazo da moratória, uma nova data vai ser marcada a vermelho no calendário: Setembro de 2011, a meta estabelecida pelos Estados Unidos para a conclusão das negociações.

Claro que ninguém ficará muito surpreendido se o dia chegar sem compromisso entre israelitas e palestinianos. O acordo de Oslo estabelecia a data de 1999 para o estabelecimento do estado da Palestina. O roadmap de George W. Bush apontava para o cumprimento do mesmo objectivo em 2008. E as negociações directas, iniciadas em 2007 em Annapolis, previam a conclusão do acordo de paz num ano.