Graça Morais

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Graça Morais, luís ramos

A mulher e o homem são seres complexos e misteriosos. Estou casada há 20 anos com o Pedro [Caldeira Cabral]. É uma relação monogâmica que vive de um grande companheirismo e respeito pelo espaço do outro. Apesar de ser autónoma, auto-suficiente sob o ponto de vista económico - considero-me uma pessoa livre -, só me completo como mulher porque partilho os meus dias com um homem. Há dias difíceis, há dias muito bons. Mas da minha parte luto sempre contra a solidão e contra a infelicidade.

Estudei sempre em escolas mistas, excepto nos primeiros anos do liceu de Bragança, e depois nas Belas-Artes foi a grande liberdade. Tinha quatro irmãos e uma irmã. Em casa convivia com eles, mas na rua foi-me sempre proibido brincar com rapazes, a educação nas aldeias tinha esses interditos. Nunca me diziam porquê, mas não podia. Na adolescência, quando o meu irmão Zeca - que eu adorava e que morreu em 1987 de cancro - ia no Verão aos bailaricos, eu não podia ir mas ele podia. E não me queria levar porque ficava mais à vontade.

Os homens da minha geração foram educados por mães que não os ensinaram a fazer as lides domésticas, e eles tiveram de aprender que, com mulheres autónomas, eles tinham de fazer isso. Alguns partilham, mas outros fazem-no como uma ajuda, o que não é a mesma coisa.

As mulheres da nova geração valorizaram-se, ganharam autonomia e confiança. Só partilham a vida com um homem se ele merecer. Podem querer uma noite bem passada mas depois não querem partilhar o espaço. Há cada vez mais mulheres a viver sozinhas, porque são exigentes, não aceitam um companheiro inculto, que lhes pese nas responsabilidades económicas. Não estão a viver à custa dele mas também não aceitam que ele viva à sua custa. Tenho constatado isso nas jovens de 40 anos, raparigas bonitas, bem sucedidas, mas que não arranjam um companheiro. As mulheres evoluíram muito e os homens não. Só ainda não entraram em força na política, porque não suportam aquela falsidade.

As mulheres têm o poder da maternidade, um poder fortíssimo. Quando querem controlar o homem, mesmo quando já não estão juntos, continuam a controlá-lo. Há uma manha e uma manipulação maior das mulheres com os homens. E os homens gostam de ser controlados, é mais cómodo. Um homem que se afasta da mãe dos filhos carrega uma grande culpabilidade, muitas vezes acentuada pela atitude da mulher. Os homens com o intelecto muito ocupado são pessoas muito desprotegidas, abafam completamente a intuição. São uns galos com uma crista muito grande, mas qualquer bicada de uma galinha os afecta, e eles não dão conta.

Preocupam-me os crimes contra as mulheres, no nosso país. São cenas de uma violência enorme, de velhos e de jovens, homens que não evoluíram e não aceitam a emancipação das mulheres. Perseguem-nas, violentam-nas e acabam por matá-las. Não gostam delas mas não aguentam ser abandonados. Psicologicamente, são seres fracos, medíocres. Isso está a acentuar-se porque as mulheres, se estão mal, saem de casa, deixam tudo, ficam pobres, têm de ir para lugares de acolhimento. A mulher é capaz de decidir. O mundo mexe-se porque as mulheres são pessoas decididas. Os homens demoram mais a decidir. Por isso é que decidem tão mal na política.

Na arte em geral havia muito menos mulheres do que homens, mas isso está a mudar muito. Vi recentemente uma exposição só de mulheres no Centro Pompidou, em Paris, e é curioso porque, até meados do séc. XX, poucas mulheres se afirmaram. Para se ser artista, tem de se ter espaço, e não tinham um canto em casa onde pudessem criar, sozinhas. Mesmo nos surrealistas, as mulheres normalmente não opinavam.

Depois dos anos 60, do Maio de 68 em França, de 74 por cá, deram saltos na luta por afirmar que sabem criar. Há uma geração de mulheres que saem das Belas-Artes e que fazem tudo, instalações, vídeos, afirmam-se. Mas há mais homens a expor em museus, as mulheres são sempre empurradas.

A arte não tem sexo. As experiências de cada pessoa são diferentes, falam de uma maneira diferente, têm perguntas e sentimentos diferentes. A grande arte tem a ver com ideias, não é com sentimentos nem com intuições. Na exposição do Pompidou, percebemos que era uma arte sofrida, autobiográfica, confessional, que toca profundamente as pessoas.

Ao longo da vida, tive grandes amigas mas tive sempre grandes amigos, normalmente da minha idade ou mais velhos, relações que não passavam pelo sexo mas por empatia humana.

Num amigo ou num companheiro, a lealdade para mim é fundamental. Ter alguém que me mente é insuportável. Talvez porque o meu pai era muito mulherengo e isso criou-me muitos medos.

Atraem-me a inteligência e a generosidade, também. O divórcio do meu primeiro marido começou quando perdi o meu filho, porque foi um momento tão duro para mim e não me senti tão acompanhada como devia. Se a pessoa ao nosso lado não nos ajuda, então para que serve? a

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A partir de uma entrevista

com a pintora

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