A vida dupla de um pr? odutor de cinema

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Paulo Branco, 60 anos, produtor de cinema de sucesso, tem uma segunda identidade que não é secreta, mas é menos conhecida, a de cavaleiro de resistência. Que resiste à idade, às hérnias, à rotina do "hoje estou em Paris, amanhã tomo o pequeno-almoço em San Sebastian e vou dormir a Toronto".

Paulo Branco tem quase a certeza de que vai ser o cavaleiro mais velho em competição na prova de resistência dos Jogos Equestres Mundiais que se iniciam hoje em Kentucky, no estado norte-americano do Luisiana. "Com 60 anos, normalmente já não se anda a este nível. Na minha idade já ninguém pensava que voltasse a competir. Eu sou um dinossauro", observava o produtor de cinema. Mas Paulo Branco está enganado. Os seus 60 anos são batidos em larga margem pelos 70 anos de Janice Worthington, cavaleira norte-americana, um dos quatro elementos da equipa de resistência dos Estados Unidos da América, mãe de três e avó de quatro. Fica a promessa de Jan: "Experiência, idade avançada... Traiçoeira, estão a ver?"

Ambos estarão entre os mais de 100 cavaleiros, entre sheiks árabes e avós americanas, que participam na prova de 160 quilómetros, o equivalente a uma maratona nos desportos equestres. Paulo Branco é um dos três portugueses - os outros são João Raposo e Ana Margarida Costa - numa prova onde só costuma terminar cerca de metade do pelotão. Deviam ser quatro, mas são apenas três, o que limita muito as ambições da equipa portuguesa na classificação colectiva.

"É muito difícil que terminemos os três. Se tivéssemos quatro equipas, poderíamos ficar nos cinco primeiros. Para uma classificação por equipas, é preciso arriscar, e pode sempre acontecer alguma coisa a um cavalo. Vamos ter de jogar pela equipa. Os outros dois podem ficar entre os 15 primeiros. Eu? Vou fazer o melhor que posso, depende do cavalo, de mim. Tenho cavalo para acompanhá-los, mas, a certa altura, a idade já... Nunca se sabe..."

Não é por acaso que Paulo Branco, cuja marca no mundo é, essencialmente, como produtor de filmes - produziu, por exemplo, grande parte dos filmes de Manoel de Oliveira - gosta de cavalos. Vem da infância passada em Alcochete, em que os cavalos ainda eram um meio de transporte importante. "Vivia no campo, numa quinta, tive a sorte ainda de viver como se fosse num western. Para nós, o cavalo era um meio de deslocação, íamos para o campo, caçar. A primeira vez que andei a cavalo tinha seis anos, puseram-me em cima de um cavalo e fiz logo seis quilómetros, sempre a andar. Era um cavalo velho e manso."

Foi uma paixão quase de nascença e uma paixão reencontrada. Paulo foi novo para o estrangeiro, primeiro para Londres, depois para Paris, para uma nova vida. "Comecei a competir com 17, 18 anos. Passei 20 anos sem montar a cavalo, quando fui para o estrangeiro, entre os 20 e os 40 anos, cortei completamente. Quando voltei, por uma questão de equilíbrio de vida, voltei a montar e decidi mesmo lançar-me na competição, quando já normalmente ninguém começa", diz Paulo Branco

Foi aos 40, portanto, em período de afirmação como produtor, que Paulo Branco se redescobriu como cavaleiro. E com resultados significativos. Depois, nova interrupção, na forma de um cargo na direcção da Federação Equestre Portuguesa (FEP). Foi vice-presidente e seleccionador nacional, tendo conduzido a equipa portuguesa a um terceiro lugar nos anteriores Jogos Equestres Mundiais. Do período como dirigente, em que não podia competir, Paulo Branco prefere nem falar. "Sou cavaleiro, nenhumas saudades. Vou tentar divertir-me no pouco tempo que me resta. Provas destas, mais três ou quatro anos, e duas por ano. Já fiz bastantes. Quantas? Não faço ideia."

As hérnias

As provas de resistência equestre têm 160 quilómetros que são feitos em percursos por vezes acidentados e com controlos veterinários pelo meio, com o propósito de avaliar a condição física dos cavalos. Se têm um batimento cardíaco acima de determinado valor ou se apresentam alguma mazela, o cavalo é desclassificado. Por isso, refere Paulo Branco, não se pode puxar demasiado pelo cavalo, nem sequer nos quilómetros finais após o último controlo. "Como há um enorme rigor nas inspecções veterinárias, qualquer sinal de cansaço, mesmo que seja mínimo, pode dar desqualificação, o que, por vezes, provoca grandes injustiças. Há também um bocadinho de sorte, porque a análise é subjectiva, depende do veterinário. A mim já me aconteceu ser eliminado depois de ter terminado uma prova, o que é muito frustrante", refere.

Paulo Branco perspectiva que os que vão andar na frente façam o percurso à volta dos 19km/hora. "Os nossos cavalos estão habituados a andar 17/18km por hora, o que é praticamente galope o tempo todo." Daí a prudência em não arriscar, ou, pelo menos, saber interpretar o comportamento do cavalo ao longo do percurso, o que é, segundo Paulo Branco, a maior virtude que um cavaleiro de resistência pode ter. "Os cavaleiros têm de conhecer bem o cavalo para sentirem os sinais de cansaço e poderem dosear o esforço", alerta.

Quais são os primeiros sinais? "Os cavalos não respondem da mesma forma, comem e bebem menos durante as pausas, estão menos alegres", diz. Mas, por vezes, a percepção do cavaleiro pode não ser suficiente. "Por vezes, os cavalos escondem o esforço e nós ficamos iludidos. Mesmo depois de cortarmos a meta, nunca sabemos a nossa classificação."

E ao cavaleiro Paulo Branco, de 60 anos, 1,85m de altura e 83kg de peso? O que começa a doer-lhe primeiro? "Na minha idade, são as artroses. Os braços, os joelhos, coisas assim, as articulações já estão um bocadinho gastas. Ao andar de avião, por exemplo, desloca-se uma vértebra e são dores horríveis. Elas estão um bocadinho avariadas, mas tenho-me sentido bem ao montar, penso que estão no sítio."

É verdade que, numa prova de resistência equestre, é o cavalo que faz o trabalho mais duro, mas o cavaleiro não pode ir em cima do cavalo como se fosse uma saca de batatas, estático e pouco reactivo. "O mais importante é o equilíbrio no cavalo. Se eu estiver muito magro, mas estiver cansado, peso mais ao cavalo do que se estiver em forma, porque ajudo o cavalo. Um cavaleiro cansado dá cabo do cavalo, porque ele rapidamente desmoraliza. Tem de se estar mais em pé do que apenas sentado a fazer peso", avisa.

Naquele dia, estava com um quilo de peso a mais do que pretendia - o objectivo era perdê-lo até ao dia de prova -, mas estará, de qualquer forma, longe do mínimo de peso exigido pelos regulamentos, 75 kg, com sela. "Já fiz provas com 79 kg, mas isso era há 15 anos. E há uns meses tinha 88. Levo uns dez quilos a mais do que os mais leves, mas isso pode não fazer a diferença." Fala a experiência.

Uma prova como esta não se cumprirá em menos de 12 horas. O que custa, diz Paulo Branco, não é o fim, é o início. "Nos primeiros 30 km, ainda me doem um bocado os músculos e os ossos, está tudo um bocado frio ainda. As artroses, sinto-as todas ao início. Depois, com o aquecimento e quando nos vamos aproximando do final, a adrenalina monta-se e esquecemos o cansaço. Quando acaba bem, fico perfeito no dia seguinte."

Paulo, o peão

O cavalo que vai utilizar em competição, Ken du Moulin, de 11 anos (que lhe foi oferecido por um outro cavaleiro), já tinha partido para outro continente, enquanto Paulo Branco ainda tinha muita coisa para fazer. No dia em que conversou com a Pública, o produtor/cavaleiro tinha acabado de estar na apresentação do festival de cinema do Estoril - tinha regressado na noite anterior do festival de Toronto - e, no dia seguinte, já estaria em San Sebastian para acompanhar um filme por si produzido, Mistérios de Lisboa, do chileno Raúl Ruiz. Depois, um regresso a Toronto para trabalhar com David Cronenberg (em Cosmopolis, baseado num livro de Don DeLillo, que terá Colin Farrell e Marion Cotilard). Só depois disto é que iria para o Kentucky.

Naquele dia, um raro momento em que podia treinar-se. Ponto de partida, a barragem do Rio da Mula, na serra de Sintra, com um cavalo que não será o que vai utilizar em competição. Foram apenas algumas dezenas de quilómetros entre a paisagem verde e acidentada da serra, para tentar minimizar os efeitos da falta de treino sistemático. "O meu terra-a-terra é isto. Isto põe-me os pés na terra, aqui não há desculpas, não há passadeiras vermelhas, não há aquele lado virtual que o cinema traz. Aqui, quando se faz uma prova de 160 km, obriga-nos a perceber o que é o esforço físico e sobretudo compreender um animal como o cavalo."

Paulo Branco tem nove cavalos em Alcochete, apenas três que utiliza para competição, mais alguns que estão reformados das grandes andanças e potros que nasceram das éguas. Não é um criador, refere, o que gosta é de treinar os cavalos, de fazer como nos filmes, domar um cavalo que parece demasiado selvagem. "Muitos dos cavalos que montei e monto eram considerados impossíveis, mas que acabaram por se tornar mansos. Com paciência, consegui dar-lhes a volta. O cavalo que montei quando recomecei, por exemplo, partia os freios todos e fugia para todo o lado. E acabei por fazer provas com ele."

Conclusão: Paulo Branco tem uma vida dupla. É o próprio que o admite. "Procuro ter uma vida paralela que não tenha nada a ver com o cinema", refere. É verdade que está atento aos cavalos nos filmes. A sua grande referência cinematográfica equestre são os westerns, em especial um, A Desaparecida (The Searchers), um clássico de 1956 realizado por John Ford, com John Wayne - "é um dos melhores filmes da história do cinema" -, mas a presença de cavalos nos seus filmes é residual, com a excepção de Non, ou A Vâ Glória de Mandar (1990), de Manoel de Oliveira.

O produtor/cavaleiro não discute cavalos com ninguém do cinema, não procura entre actores e realizadores almas gémeas na paixão equestre, prefere falar com especialistas. Em Paris, onde passa metade de cada uma das 52 semanas do ano por causa do cinema, nem sequer anda a cavalo. "Em Paris, ando muito a pé, sou o mais citadino possível." a

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