Alguns inimigos de estimação
Jaime Pacheco, Manuel José, Octávio Machado, Rafael Benítez, Claudio Ranieri e Johan Cruyff não estão, certamente, na lista de admiradores de José Mourinho. Os primeiros, porque se envolveram em picardias com o “Special One”. Manuel José porque não gostou de ser trocado por Mourinho em Leiria, Jaime Pacheco também por trocas de palavras logo nos primeiros tempos e Octávio por ter sido despedido para “Mou” entrar no FC Porto. Benítez, em Inglaterra, e Ranieiri, em Itália, foram ódios de estimação de Mourinho, enquanto Cruyff nunca apreciou o estilo de jogo adoptado pelo técnico português. Jorge Valdano, director desportivo do Real Madrid, esteve entre os críticos, mas rendeu-se (ou foi obrigado a render-se) aos encantos do português. A personalidade de Mourinho atrai sentimentos fortes, de ódio ou paixão, mas em quase dez anos de carreira é difícil encontrar jogadores que critiquem o treinador português, mesmo no caso daqueles que mantiveram relações mais conturbadas com o técnico. “Tive uma relação de amor-ódio com Mourinho”, confessou recentemente Balotelli, ex-avançado do Inter. E, mesmo tendo Mourinho saído quase sempre a “mal” dos clubes por onde passou (FC Porto, Chelsea e Inter, em certa medida), a relação com os presidentes não é tão má como seria de esperar. Um exemplo? “Vi-o como um homem que trai a sua mulher, mas que, no fundo, ainda a ama, e por isso sai pela janela porque não tem coragem de lhe dizer que foi uma aventura”, afirmou, ontem, Massimo Moratti, presidente do Inter ao canal televisivo 7Gold. “[Mas] Não vejo a saída dele como uma traição, nem me sinto traído”, acrescentou o dirigente, defendendo que o treinador “desenvolveu laços afectivos com o Inter”.

Dez anos de carreira

O homem que não se cansa de ganhar

Mourinho já conquistou 17 troféus
Aplicou como ninguém metologia de treino
Inovador na forma como motiva jogadores

"Em alguns aspectos, há, seguramente, um antes e um depois de ", não hesita em dizer Mourinho
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"Em alguns aspectos, há, seguramente, um antes e um depois de ", não hesita em dizer Mourinho Susana Vera/Reuters (arquivo)

A carreira de José Mourinho como treinador principal começou há exactamente dez anos e, ironicamente, da maneira menos ajustada para ilustrar o seu trajecto vencedor. Foi com uma derrota (1-0) no Estádio do Bessa, frente ao Boavista, que o então técnico do Benfica iniciou, a 23 de Setembro de 2000, um percurso que uma década depois inclui 17 troféus e uma marca indelével no futebol mundial. As palavras proferidas nas chegadas ao FC Porto (“Para o ano seremos campeões) e ao Chelsea (“Sou especial”) são bem mais indicadas para descrever “a mais poderosa mentalidade que o futebol gerou”, como lhe chama Manuel Sérgio, um dos seus professores.

“Defino-me como um grande treinador, com qualidade nas diferentes vertentes que constituem o trabalho de um treinador nos dias de hoje. Desde a gestão, a planificação, a metodologia e a liderança”, disse Mourinho à Lusa, a propósito desta efeméride.

Mas afinal o que é que Mourinho tem que os outros não têm? Manuel Sérgio defende que em José Mourinho “confluem todas as qualidades necessárias para se ser treinador de futebol”: “Para ser treinador não basta estudar e saber muito. É preciso ter determinadas qualidades humanas”, afirma este professor de Filosofia, resumindo as características essenciais. “Tem uma leitura do jogo incomum, sabe motivar jogadores e comunicar com eles. É um líder”, resume.

Mourinho recusa explicar em que é que inovou. “Mas, em alguns aspectos, há, seguramente, um antes e um depois de mim. O estilo de liderança, o modo de comunicar, a metodologia de treino”, afirma.

Mas está-se realmente perante um treinador inovador? Jorge Castelo, professor da Faculdade de Motricidade Humana, não tem dúvidas. “É inovador, porque tem sucesso regularmente, o que não é habitual”, aponta, não hesitando em afirmar que Mourinho é o treinador “com maior impacto no futebol mundial desde [o holandês] Rinus Michels”. Não por ter desenvolvido um sistema táctico nunca antes visto ou por ter criado uma nova forma de jogar, mas por reunir qualidades únicas e conseguir coisas que “ninguém imaginaria possíveis”.

Uma delas foi ser campeão europeu com um clube português, depois da chamada lei Bosman, que liberalizou a utilização de jogadores comunitários, dificultando a tarefa a clubes médios. Aí mesmo Jorge Castelo vê outro dos méritos de Mourinho, o de encontrar jogadores desconhecidos e transformá-los em futebolistas de primeiras linhas – a lista de exemplos é longa, de Derlei a Milito, passando por Deco.

A metodologia de Mourinho (“treinar a matriz de jogo”) consiste em elaborar exercícios que reproduzam o jogo. Não separa o treino físico, do táctico, técnico e psicológico. Tudo é trabalhado ao mesmo tempo. O método não foi inventado por ele, mas para Manuel Sérgio foi ele quem “concretizou bem essas teorias”.

Estes métodos permitiram-lhe ganhar a admiração dos jogadores, um dos grandes segredos. E a inovação passa também pela forma como consegue motivar os seus futebolistas. A lista de truques é longa: recortes nas paredes do balneário, pontapés em caixotes de roupa ao intervalo para espicaçar os jogadores, discursos inflamados, bilhetes com recados durante o jogo. E até dar indicações para o banco por SMS (como aconteceu na meia-final da Taça UEFA 2003), quando estava castigado e vigiado por um responsável da UEFA.

“Um dos jogadores de Mourinho disse-me que o melhor de trabalhar com ele é não ter pressão, porque todos os focos se concentram no treinador”, diz Jorge Castelo. Famosa é também a capacidade de antecipação de Mourinho, capaz de acertar na equipa do adversário. “Às vezes, adivinhava o resultado do jogo. Noutras contava-nos o que ia acontecer”, conta Drogba, na sua biografia.

Por tudo isto, Manuel Sérgio considera Mourinho “um génio, o maior treinador da história do futebol”. Jorge Castelo não quer endeusá-lo, mas coloca-o entre os melhores. E antevê um futuro brilhante, porque este homem “nunca se cansa de ganhar”.