Entrevista: José Vítor Malheiros

“O jornalismo piorou com o aparecimento da Internet”

José Vítor Malheiros começou as primeiras experiências de publicação online ainda em 1994
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José Vítor Malheiros começou as primeiras experiências de publicação online ainda em 1994 Pedro Martinho

Em 1995, a edição impressa do PÚBLICO começou a ser posta todos os dias na Internet. Três anos depois, foram contratadas pessoas para assegurarem um site de actualização noticiosa, arrancando assim o serviço de última hora. Na altura, o jornalismo online dava os primeiros passos e a maioria de pessoas não sabia o que era a Internet.

José Vítor Malheiros lançou o projecto do site do PÚBLICO quando ainda era editor da secção de Ciência e Tecnologia do jornal e dirigiu a página durante mais de uma década. Já fora do jornalismo, não tem dúvidas de que a Internet é uma verdadeira revolução. E argumenta que estamos próximos de um ponto em que, se os jornalistas desaparecessem, ninguém dava por isso.

A história O que aconteceu em 1995 que levou à criação do site? Qual foi o clique que lançou o projecto?

Não foi em 1995. Isto tem uma pré-história. A 22 Setembro de 1995 lançámos a primeira edição diária integral na Internet. Fomos o primeiro jornal a fazê-lo. O JN fez algumas coisas antes, costuma apresentar-se como um pioneiro nesta área. Eles foram pioneiros em algumas coisas, nós fomos noutras, não vale a pena entrar nesta discussão.


Em Maio de 95 anunciei, para impor a mim próprio uma data, que antes do fim do Verão iríamos ter esse serviço [a edição impressa reproduzida online]. Foi preciso trabalhar bastante para conseguir isto, sobretudo do ponto de vista técnico. Tivemos o apoio da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

No entanto, começámos a fazer algumas brincadeiras logo em 1994. Tínhamos um site, que não era visitado praticamente por ninguém. Fizemos apenas experiências. Publicávamos notícias, fazíamos coberturas online, a partir da redacção, de alguns eventos, mas foram só experiências.

A compreensão de que a Internet ia ser muito importante para os jornais surgiu em 1994.

Essa ideia surge como? Por causa de jornais estrangeiros?

Não. Começámos a ouvir falar da Web na secção de Ciências – eu era na altura editor da secção de Ciências e Tecnologia – e é no ambiente da ciência, no ambiente académico, que se começa a ouvir falar da Internet. A Internet já era uma coisa conhecida, já usávamos um pouco o email, mesmo que raramente, mas começámos a ler muitas notícias sobre a Internet nas publicações científicas.


Houve resistência, ou envolvimento, do resto do jornal?

Ninguém fazia a mínima ideia do que era a Internet. Apesar das nossas tentativas de doutrinação, diria que durante anos as pessoas continuaram sem saber o que era. Lançámos o site com o conhecimento da direcção editorial. Sem envolvimento, mas com um voto de confiança. Acho que nessa altura, na direcção editorial, ninguém tinha ideia do que era isto [a Internet].


Quantas pessoas acediam a esse primeiro site?

Há 15 anos, a quantidade de gente que acedia era mínima. Centenas de visitantes por dia no site. Mas eram pessoas muito militantes. Basicamente, eram estudantes e pessoas ligadas às universidades, que apontavam erros e gralhas. Havia um enorme espírito de pioneirismo e um enorme espírito de colaboração por parte dos leitores.


Como se dá o salto de reproduzir a edição impressa para um serviço de última hora?

Não correspondeu a uma decisão estratégica por parte do PÚBLICO. Desde 1995, até 1998/1999, tudo isto se passa no âmbito da secção de Ciências, é um projecto da secção. Tenho de me congratular pelo facto de as pessoas que não sabiam bem o que estava a acontecer terem confiado no meu julgamento.


Eu tinha uma folga orçamental na secção de Ciências e contratei jornalistas jovens, pagando-lhes muito pouco (mas não as coisas miseráveis que se pagam hoje, não era trabalho escravo, era apenas muito pouco). Conseguimos contratar três jornalistas para fazerem notícias, dedicados exclusivamente ao [serviço de] última hora.

Quando é que a maioria das pessoas começaram a perceber o que estava a acontecer?

Diria que em 1999. Já no fim da bolha [tecnológica]. É quando começa a haver uma multiplicidade gigantesca de notícias [sobre a Internet] e quando há empresas que fazem ofertas públicas de venda e ganham imenso dinheiro que as pessoas começaram a perceber que era importante. Começam a aparecer notícias sobre a Internet na televisão e em todos os jornais e os políticos começam a falar da Internet.



Havia receios por parte do resto do jornal?

Havia um receio de canibalização, mas o receio era pequeno, porque não havia muitas pessoas [a visitar o site]. O número de pessoas que acediam a este serviço era diminuto. Era para umas centenas de investigadores, pessoas que estavam nas universidades.


Quando, de repente, começamos a falar de um mercado de massas, há pessoas que ficam muito assustadas, porque isto vai canibalizar o negócio. Outras, de vistas um bocadinho mais largas, pensam que, se há um mercado de massas, então há um negócio.

Como era a concorrência nessa altura?

Eu diria que não havia – como não há hoje – praticamente nenhum órgão de comunicação social em Portugal a fazer uma grande aposta na Internet. O PÚBLICO foi o que mais se aproximou disso nessa altura.


A revoluçãoQue obstáculos existem a uma aposta maior na Internet?

Há imensos obstáculos. Com a Internet estamos – e eu uso esta palavra com grande prudência – no meio de uma revolução. Uma revolução que é também no jornalismo.


O jornalismo está a ser lento a embarcar na Internet?

Não. O jornalismo não tem que embarcar. Muitas vezes na tecnologia usa-se a imagem do comboio, que eu acho que é uma má imagem. Dá a ideia de que o comboio está ali e só temos de entrar no comboio. Mas na maior parte das tecnologias, e este é o caso, nós não sabemos onde está o comboio. O que é apostar na Internet?


Os jornais não estão a apostar porque não sabem o que hão-de fazer. O modelo de negócio dos jornais em papel tem sofrido um grande ataque. É um ataque que tem a ver com a Internet e com o facto de a informação estar disponível em grande quantidade e em grande qualidade, gratuitamente. Isto não era assim há 20 anos.

As pessoas às vezes dizem: “Há muita informação, mas não é boa.” Isso não é verdade: há muita informação e é boa. Acedo todos os dias ao site da BBC e tem informação de grande qualidade, em quantidade e é gratuita. E vai continuar a ser.

Há 20 anos, o modelo de negócio dos jornais em papel era muito claro: faço um jornal, consigo ganhar dinheiro com receitas de vendas, de anúncios e de classificados. Isto foi válido durante um século. Já não é.

A necessidade que as pessoas tinham há 20 anos de um bom jornal já não existe. Se a imprensa fizesse uma greve geral há 20 anos, isso seria dramático. O mundo pararia. Neste momento, se a imprensa fizesse uma greve geral, o mundo não parava.

Porquê?

Porque toda a gente é produtor e difusor de informação. As eleições no Irão são um exemplo muito forte. Havia jornalistas que estavam lá, mas estavam impedidos de enviar informações para fora. E a BBC e o New York Times faziam notícias com base no Twitter. Eu – e muita gente – começámos a ir ao Twitter ver as notícias.


Mas é a mesma coisa ir ao Twitter?

Não, é uma coisa diferente. Por isso é que digo que é uma revolução.


Teria sido melhor seguir as eleições no Irão contadas por jornalistas?

Claro. Mas a questão é que antes havia um monopólio da imprensa (jornais, televisões, rádios, sites), que hoje não existe. E a imprensa continua sem perceber isso. É espantoso.


Antes, a única maneira que havia para chegar ao público era passar pela imprensa. Quem lançasse um partido tinha de passar pelos media. Para lançar uma nova marca de refrigerantes, era preciso passar pelos media. Hoje é possível fazer tudo isso sem passar pelos media.


O que se está então a estreitar é o papel do intermediário...

Este papel de intermediação era protegido. Os jornalistas tinham o monopólio da mediação. Nos últimos 20 anos, deixaram de o ter. E estão a viver muito mal com isso.



E é possível viverem, e sobreviverem, com isso?

O jornalismo não deixou de ser necessário. É como a loja do bairro, que é a única loja desse bairro. Pode vender a manteiga ao triplo do preço do supermercado, quando o supermercado está a 30 quilómetros de distância. Quando há lojas por todo o lado, se quero manter a loja de bairro, tenho de fazer escolhas - que não podem ser vender o mesmo produto, mas pior e mais caro. Ou vender o mesmo produto, com a mesma qualidade e o mesmo preço, mas disponibilizá-lo mais tarde. O que a Internet vem introduzir é um mercado muito mais fluido. Os jornais continuam a ser muito parecidos. Não vale a pena continuar a fazer jornais tão parecidos.


E vale a pena continuar a fazer jornais em papel?

Claro que sim.


Então o que podem fazer para evitar a queda?

Há 20 anos havia um modelo de negócio e 90 por cento dos jornais do mundo seguiam esse modelo. O modelo de negócio único morreu. Não vamos encontrar o ovo de Colombo. Um jornal tem de encontrar um modelo de negócio. Da mesma maneira que não há só um modelo de negócio para lojas: há lojas baratas, caras, outras que são rentáveis porque estão na moda, ou porque vendem um produto que os outros não vendem. O mercado é muito mais competitivo do que antes.


E há espaço para o bom jornalismo nesse mercado?

O jornalismo é essencial ao funcionamento da sociedade. E toda a gente está de acordo com isso. Há um pequeno problema: fazer jornalismo é caro. Se um jornal custar três euros a produzir e for posto na banca a três euros, ninguém o compra, apesar de toda a gente estar de acordo em que o jornalismo é fundamental. Por isso, são precisos anúncios. Mas a partir do momento em que se deixa de ter o monopólio da intermediação, deixa-se de ter o monopólio dos anúncios. O jornalismo já não é único suporte dos anúncios. Há os


outdoors

, há campanhas directas na Internet. Não são precisos jornais. A publicidade está a sair para a Internet, mas não está a sair para os sites dos jornais.

O problema de negócio não é então um problema dos jornais em papel, é um problema do jornalismo em geral?

Sim. E eu não sei como é que se pode fazer para funcionar. Mas sei o que não se pode fazer.


O que é que não se pode fazer?

Continuar a fazer as mesmas notícias que todos os outros jornais e sites têm. Há eventos absolutamente ridículos onde estão 10 ou 20 jornalistas a servir de pé de microfone, ou de pé de câmara. Não vale a pena fazer isto.


Não vale a pena estar a refazer as coisas que as agências noticiosas já fazem. O que mostra que ainda há um total desconhecimento em relação a este mundo é que há jornalistas que ainda acham mal publicar uma notícia de agência. Se o texto da agência estiver mau, vou à agência, que é o fornecedor de serviço, e digo-lhe que está a fazer um mau trabalho. Mas não vou estar a fazer o mesmo trabalho da agência.

A importância do linkA solução é fazer original?

Há um conselho do [crítico de media, blogger e professor universitário americano] Jeff Jarvis: “Do what you do best, and link to the rest.” Isto é um bom conselho, mas é uma coisa a que as pessoas reagem muito [negativamente]. Mas mesmo que eu não faça um link, os leitores fazem. E, quando não o faço, eles sabem que não lhes estou a fornecer esse serviço e ainda pensam que estou a esconder algo.


Quando comecei a fazer jornalismo, há 30 anos, disseram-me que fazer notícias era a parte mais nobre do trabalho do jornalista. Hoje, isto é mentira. Notícias toda a gente faz. Há quem diga que toda a gente faz, mas só os jornalistas fazem bem – mentira. As pessoas que gostam de desporto, por exemplo, vão aos sites das federações, dos clubes, aos blogues dos académicos, dos amigos e também às secções de desporto dos sites. Toda esta gente faz notícias. Mas os jornalistas continuam a querer pôr-se em bicos de pés: “Se não fui eu que fiz, não lhes chamo notícias. É outra coisa. É propaganda.”


O que é preciso é mais uma atitude de crítico de notícias, de agregador e de apontador. Como um crítico de livros – não os escreve, indica as coisas boas.

Nós achamos que um jornalista tem de escrever. Hoje, os jornalistas usam um texto de agência que já está relativamente bem feito, vão a um ou dois sites e põem o nome deles por baixo. É desonesto.

Se um jornalista chegar ao fim do dia e disser ao editor: “Escrevi dois parágrafos e fiz 50 links”, o editor acha que o jornalista não trabalhou. É toda a profissão que tem de ser redefinida. É necessária uma função de agregação. Uma boa agregação não é como faz o Google. É feita por uma pessoa. Porque é que as pessoas lêem tanto os blogues? Porque os blogues fazem isto.

Isto não quer dizer que o jornalista não ande à procura das cachas. Isso é outra história. Estou a falar das notícias que aparecem mil iguais e às quais dois terços dos jornalistas estão dedicados. É um disparate.

Qual é o futuro para os jornais num mundo de informação redundante? Encolher?

Não. Há imensas funções necessárias.


Antes, fazíamos broadcasting. Agora, o [autor e ex-jornalista americano] Dan Gillmor explica muito bem que fazer jornalismo é fazer diálogo. O jornalista nunca é melhor do que os seus leitores todos. Os leitores sabem mais. Hoje, a qualidade dos leitores aumentou drasticamente.

Há uma coisa que ninguém faz e que os jornalistas quase deixaram de fazer. São os trabalhos de fundo. Muitos jornalistas estão é dedicados a sacar a notícia que todos os outros vão ter. A ter a notícia cinco minutos antes da concorrência. Um jornalista de investigação é um jornalista que agarra numa história e que a segue. Uma investigação é algo que esclarece sobre o que se passa. Pode ser uma grande entrevista.

A função de watchdog sempre foi do jornalismo. Mas hoje é mais claro que é do jornalismo, porque mais ninguém a faz.

O problema é transformar isso em negócio.

O jornalismo está a aproximar-se cada vez mais do momento em que, se desaparecer, ninguém nota. Continuávamos a ter notícias, a saber o que se passa, a ter opinião e debate. O que não íamos ter era o


ethos

do jornalista, a independência e o seu dever de explicar às pessoas o que está a acontecer e de fiscalizar os poderes.

Este estado de coisas foi causado pela Internet?

Sim. O modo de produção jornalística transformou-se num modo de produção industrial. Eu nunca disse aos jornalistas que o mais importante era terem os trabalhos prontos na hora.


Nem na Internet a questão da rapidez é o mais importante?

Disparate. Disparate.


Os jornalistas gostam de dar todas as notícias antes da concorrência, nem que seja por minutos.

Isso é infantil. E é pernicioso. É melhor dar a notícia depois, se ela contar a história toda. É melhor isso do que reproduzir um artigo da agência, só porque os outros estão a fazer igual. É preciso é fazer diferente.


A Internet teve como efeito colateral piorar o jornalismo?

Sim. O jornalismo sim, mas não a informação. Teve como efeito promover a cidadania. As pessoas podem espreitar para qualquer sítio do mundo e exprimir-se para o mundo inteiro. Isso é maravilhoso. Mas o jornalismo, em geral, piorou com o aparecimento da Internet, porque há elementos industriais que se tornaram mais fortes. Cada vez mais o jornalista é um operário e a Internet veio dar força a essa ideologia tecnocrática.


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