Sophia Loren "desafia" Oliveira a encontrar uma boa história para filmar no Douro

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Sophia Loren recebeu o prémio Casta D’Ouro Carreira Foto: Nelson Garrido

Entrou na sala vestida com um fato branco, lenço verde e olhos grandes, a que os seus habituais óculos largos parecem dar ainda mais brilho. Sem esconder as rugas dos seus 75 anos, Sophia Loren continua a manter o charme com que conquistou sucessivas gerações de cinéfilos, ao longo de uma carreira que conta já quase uma centena de filmes.

A actriz de Um Dia Inesquecível foi a principal convidada do 2.º Festival Douro Film Harvest, que ontem terminou no Teatro Ribeiro da Conceição, em Lamego, com uma homenagem e a atribuição do prémio Casta d"Ouro à carreira da grande diva italiana.

A antecipar a sessão, que incluiu a exibição de um dos seus filmes mais populares, Matrimónio à Italiana, Loren deu uma conferência de imprensa no Hotel Aqua Pura, na margem esquerda do Douro frente à Régua, em que respondeu a (quase) todas as perguntas dos jornalistas. Com a simpatia que sempre a caracterizou, e com o sentido de "protocolo" com que aprendeu a corresponder àquilo que dela se espera.

Esta é a primeira visita da actriz a Portugal. "É um país que sempre quis conhecer, sobretudo a sua gente", disse, acrescentando estar "espantada com a paisagem maravilhosa" do Douro. E quando lhe lembraram que estava no local onde Manoel de Oliveira tinha rodado um dos seus filmes, Vale Abraão, assegurou que conhecia bem e que tinha "grande estima" pelo decano dos realizadores mundiais. "Quem sabe? Talvez Manoel de Oliveira consiga encontrar uma boa história para eu vir filmar cá no Douro, um dia."

Durante meia hora, Sophia Loren partilhou, em respostas curtas, algumas das suas memórias e códigos de vida. Reafirmou a importância que sempre deu à família. "No cinema, pensa-se sempre na carreira, mas o núcleo familiar sempre esteve em primeiro lugar, para mim, desde a infância, no tempo da guerra, quando vivíamos a incerteza do amanhã." Lembrou ter crescido pobre, nos arredores de Nápoles, sem pai. E falou do encontro com o seu produtor, pigmaleão e depois marido para uma vida inteira, Carlo Ponti (1912-2007). "Conheci o Carlo quando tinha 15 anos, trabalhei muito para conquistar o que queria, e nunca dei muita importância àquilo que as pessoas diziam", disse a actriz, notando que a sua atenção à família se desdobra, agora, no papel de avó, que desempenha também com grande dedicação.

Continuar a fazer cinema

"Sempre lidei bem com os papéis que a vida e o cinema me deram." Sobre estes últimos, citou três personagens entre aquelas que fez numa dezena de filmes pelos quais gostava de ser recordada: a Cesira de Duas Mulheres (1962, Vittorio De Sica), que lhe valeu um Óscar inédito em Hollywood, por ser o primeiro conquistado por uma actriz de língua não inglesa; a Filumena de Matrimónio à Italiana (1964, De Sicca); e a Antonietta de Um Dia Inesquecível (1977, Ettore Scola). Em comum nestes filmes tem a contracena com Marcello Mastroianni, com quem trabalhou 14 vezes no ecrã.

A actriz admitiu ainda que prefere trabalhar no seu país do que na América, mesmo se tem uma carreira reconhecida em Hollywood. "Os meus melhores trabalhos, fi-los sempre em Itália. E sempre preferi trabalhar junto dos meus amigos, no meu país."

As perguntas a que Sophia Loren evitou responder foram sobre o estado actual da Itália da era Berlusconi - "Não estou aqui para falar de política" - e sobre que personagem da vida real gostaria de interpretar no ecrã - "Tenho de ter mais tempo para pensar nisso".

Sobre a sua carreira futura citou a última deixa de Rhett Butler/Clark Gable em E Tudo o Vento Levou: "I don"t give a dam." Mas quer continuar sempre a fazer cinema.

Notícia substituída às 11h32 de 12 de Setembro
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