'Quando entrava no metro, sentia-me em casa'

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Nas livrarias na próxima semana, "Subway Life" reúne uma selecção feita a partir de três mil desenhos feitos em 10 cidades e é a última paragem de um projecto de vários anos. António Jorge Gonçalves quis dar a volta ao mundo assim: sentando-se no metro e desenhando a primeira pessoa que se sentasse à sua frente.

O livro de desenhos do projecto "Subway Life, ou a Vida Subterrânea", não começa verdadeiramente debaixo de terra, mas num ponto bem alto, num cume de uma montanha no Nepal. A toda à volta, só montanhas, ondulando para cima e para baixo.

Eufórico da caminhada até ao topo, eufórico do trajecto de avioneta desde Katmandu dias antes e daquela viagem para fora da Europa, longe e extraordinária, António Jorge Gonçalves teve a ideia de continuar a fazer, pelo mundo fora, o exercício que tinha feito pouco tempo antes quando estava a viver em Londres: desenhar pessoas enquanto andava de metro. Como é que seria sentar-se no metro em Tóquio? Ou em São Paulo? Como é que seria no Cairo?

"Não era acerca dos desenhos", conta António Jorge Gonçalves, desenhador, ilustrador, perfomer de desenho digital. "Eu quis ir ver como é que era ir ao mundo inteiro sentar-me no metro e desenhar a primeira pessoa ao meu lado."

A primeira pessoa podia ser um homem quase gigante, quase violento, que quase lhe destrói o caderno em Moscovo. Ou podia ser, na mesma cidade, uma artista que lhe estende um cartão convidando-o para uma exposição. Podia ser uma estudante de Atenas que se acha feia no desenho ou um homem de bigode em São Paulo que se acha pouco parecido e reclama outro retrato. A pessoa em frente podia ser um executivo que segura um caroço de maçã na mão, desconfortável, sem saber o que fazer com ele, mas a todo o custo mantendo a seriedade sueca. Podia ser um londrino com tubos de esferográfica no cabelo ou, em Tóquio, uma mulher que se desleixa e mostra as cuecas. O desenho - imediato, espontâneo, rápido, da primeira pessoa à sua frente - podia supreendê-lo, deixá-lo boquiaberto, como quando olhou para uma mãe-canguru, a imagem final de uma mulher muçulmana em Nova Iorque que durante a viagem de metro e durante o desenho, cobriu o filho que levava ao colo com as suas vestes.

António Jorge Gonçalves coleccionou os retratos da sua passagem pelas cidades como quem colecciona momentos num diário: recordando-se das cores das roupas que vestiam os passageiros, apontando os dias da semana em que encontrou aquelas pessoas assim como as frases que lhe disseram, lembrando-se de detalhes das linhas, estações, na cabeça ainda e sempre os mapas do metro.

"Isto é um pouco doloroso", diz, enquanto abre um armário - um desenho de Lisboa estampado na porta - descobrindo fileiras e fileiras de cadernos, com etiquetas a identificar data e nome de cidade.

De 1997 a 2003. Cairo, Moscovo, Atenas, Tóquio, São Paulo, Nova Iorque, Estocolmo, Berlim. Eram tudo cidades que não tinha visitado antes. Assim que aterrava no aeroporto, procurava o sinal do metro. "Quando entrava no metro, sentia-me em casa."

Tira cadernos das prateleiras e vai folheando: retratos e mais retratos a caneta preta, cabeças, pernas, corpos incompletos a caneta preta, novos, velhos, homens, mulheres, crianças a caneta preta, centenas e centenas de retratos, milhares de pessoas.

"Será que hei-de encontrar um lugar absoluto?", escreveu no Cairo, última paragem de "Subway Life". "Na viagem o desconforto é superado pela descoberta e pela diferença. Uma vez esgotadas, fica a solidão outra vez."

A ideia inicial tinha sido ampliar alguns esboços à escala humana, colocá-los nos metros de cada cidade representada no projecto, e esperar que as pessoas passassem por ali no dia-a-dia: a irem para o trabalho ou a regressar a casa, reconheceriam um pai, uma irmã, um namorado, uma ex-mulher, a si próprias.

Depois de seis anos a desenhar, foram precisos outros seis para chegar a este livro, publicado pela Assírio & Alvim.

As pessoas têm o tamanho dos esboços, o tamanho daqueles cadernos diários. Quando os revisita é doloroso porque é como abrir um álbum que nos lembra de quem fomos um dia. Um livro - mesmo de desenho, mesmo sobre outras pessoas - é muito pessoal.

Há muitos anos atrás, António Jorge Gonçalves tinha tido um professor que lhe tinha dito que sempre que desenhamos uma pessoa desenhamo-nos a nós próprios, e para acreditar foi preciso António Jorge Gonçalves desenhar 3 mil caras, passar horas e horas no mesmo gesto repetido da caneta no papel até quase não saber quem era.

Lisboa, pela frente e pelas costas

Estamos em Lisboa, no centro de Lisboa, o metro logo ali descendo a Calçada do Lavra. A filha, Miranda, já veio espreitar várias vezes. Já veio mostrar ao pai que também sabe fazer desenhos. A luz de Lisboa foi descendo enquanto víamos tudo escuro, como num túnel, luminosas as folhas dos cadernos e as caras das pessoas que um dia estiveram sentadas numa carruagem de metro.

Será que ainda andam de metro? Para onde iam naquele dia? Como é que se chamam? Quais os seus sonhos? De que é que sofrem? O que é que as faz feliz?

António Jorge Gonçalves nunca fazia essas perguntas, nem sequer para dentro, para ele próprio. A sua função era olhar - com o treino, de cidade para cidade, cada vez se concentrava menos no desenho e mais na pessoa. Tinha, em média, de 5 a 8 minutos.

Não dava tempo de pensar no estilo, mas era tempo suficiente para sentir que tinha, de alguma forma, tido um encontro com aquela pessoa. Não tinha tempo para julgar ninguém, mas tinha tempo - e sem se dar conta, de cidade para cidade, com o treino, foi acontecendo mais frequentemente - de fazer retratos que eram menos caricaturas e mais reais.

"Quando entras tens a cidade pela frente. Depois percebes que a tens pelas costas", lê-se no livro, a abrir o capítulo de Lisboa.

A segunda cidade que desenhou foi Lisboa e terá sido a mais difícil porque era a sua casa.

Esteve quase para desistir, mas Lisboa aparece no livro, por ordem cronológica de desenho, em segundo lugar, logo a seguir a Londres.

A primeira figura no capítulo lisboeta de "Subway Life" é um homem que António Jorge Gonçalves apelidou de "bulldog". António Jorge Gonçalves está convencido que se as pessoas passarem demasiado tempo sisudas, os cantos da boca puxados para baixo, acabam assim: com cara de "bulldog".

Lisboa foi, até mais do que Moscovo, a cidade onde o metro transportou as caras mais tristes.

Para ele, em Lisboa não houve possibilidade de encontros completamente anónimos. Ainda que não o quisesse, em Lisboa estava sempre a ler os códigos. Segundo o que vestiam, como se mexiam, como se comportava, identificava os passageiros pobres, os ricos, os remediados.

Sabia dizer se uma rapariga era estudante e até, pela paragem onde entrou ou saiu, se estudaria letras ou medicina.

Da experiência subterrânea de Lisboa guardou dezenas e dezenas de cadernos. Dos retratos que acabou por seleccionar para o livro, escolhe um para falar. É uma rapariga que veste uma camisa de quadradinhos com pullover por cima, e tem um penteado fora de moda há pelo menos duas décadas, com uma mecha a tapar um olho. "Acho que é uma personagem tão lisboeta. Um lisboeta que já quase não existe." A rapariga beta está sentada com o guarda-chuva entre as pernas, encolhida, tensa. "Parece que podia caber num cubo, que se podia arrumá-la", lembra. "Mas depois olhava-me fixamente." Não era um olhar tipo "braço-de-ferro" como em Berlim. Não era um olhar de esguelha como em Londres ou um olhar pretendendo ignorá-lo como em Estocolmo. Era um olhar curioso. "Apesar da nossa timidez, o português olha. Olha sem mais nenhum. E eu acho isso muito bonito."

Em menos de cinco minutos, António Jorge Gonçalves põe-se na estação de metro dos Restauradores. Continua a andar de metro. Gosta da linha verde, cheias de pessoas novas, vindas de outros pontos do mundo. Se em 2010 desenhasse no metro veríamos, nos retratos dos lisboetas, que a sua cidade mudou.

Tudo chega, tudo parte

Ainda antes de deixar as cidades, mostrava os desenhos a alguns locais. Logo ali, começavam a construir histórias sobre as pessoas nos desenhos. Muitas vezes pensavam reconhecer alguém.

"Numa fotografia podes dizer, por exemplo, esta pessoa é parecida com a minha tia", comenta. "Num desenho podes mesmo dizer, esta pessoa se calhar é a minha tia, porque o desenho não é de carne e osso, tem um espaço vazio para se preencher".

Para os outros, os desenhos são então "como um poema ou um pedaço de prosa". Para ele, como talvez para quem escreve um poema ou um pedaço de prosa, os desenhos são a memória do momento em que os fez.

António Jorge Gonçalves deixa claro que em "Subway Life", os desenhos não eram o mais importante. É um livro "acerca daquilo que se estava a passar, ali, entre mim e aquela pessoa e as pessoas à volta".

Quando em Londres começou a aproveitar as viagens para desenhar pessoas - de casa até à escola de artes, a Slade, ou de casa até aos museus -, estava simplesmente a procurar fazer qualquer coisa que nunca tinha feito antes. Parecia-lhe esse o propósito de mudar de cidade.

Em 1997, tinha saído de Lisboa para quebrar rotinas, desabituar-se de alguns confortos, porque "a partir de certa altura, procuramos mais do mesmo".

Os desenhos de Londres, diz, são talvez os menos profundos, mas são os mais frescos. Ainda não tinha todas as regras nem um método estabelecido.

Procura nos cadernos de Londres - nessa altura ainda usava um formato quadrado, e muitos desenhos não foram por isso seleccionados para o livro - uma mulher de quem nunca mais se esqueceu. Percorre uma fila inteira numa prateleira do seu escritório, páginas e páginas, não encontra. Era uma mulher que nunca olhou para ele, e no entanto, enquanto a desenhava, António Jorge Gonçalves sabia que ela o sentia. "Era como se lhe fizesse cócegas com a minha caneta".

Foi talvez aí que percebeu que o desenho tinha um tempo próprio, em que alguma coisa acontecia, como num espectáculo.

Agora cada vez mais faz desenho digital ao vivo, e a sua vida de desenhador-performer talvez tenha começado em "Subway Life". Por exemplo, no Cairo, com as pessoas a olharem por cima do ombro, a barufastarem em árabe, ou a dar-lhe pancadinhas nas costas, sorrindo, entretidos, divertidos, satisfeitos, prontos a aplaudi-lo, estava já num palco.

Quando desceu à vida subterrânea, desceu ao pior pesadelo de quem desenha: ser observado. As pessoas passavam por ele. Em Atenas, escreveu: "Tudo chega, tudo parte. Como podemos ter fé no meio de tanto trânsito?" As pessoas passavam, mudavam, desapareciam do seu campo de visão, da folha do caderno. Ele ficava. Só podia ter fé em si próprio.

E tudo isso, algo que nunca tinha feito antes, algo que pensava que era novo, é claro que era muito antigo. Muito antes de começar a desenhar no metro, já ele tinha sonhos recorrentes. Ia de metro numa cidade desconhecida, com desconhecidos sentados a seu lado...

 

Londres

"A Fay quis ver o desenho. Eu mostrei-lhe e pedi-lhe para ela pôr o nome dela. Passado uns dias, estou a pagar na caixa do supermercado, e quem é a rapariga que está na caixa? É ela. E eu disse-lhe olá. 'Sou eu, estava a fazer o teu desenho no outro dia, lembras-te?'. E ela ficou aflita e quase não falou comigo. Talvez fosse o primeiro dia de trabalho dela... Ou então pode ser o efeito que Londres tem nas pessoas. Um encontro no metro tudo bem, mas um segundo encontro..."

Moscovo

"Era um fulano grande, grande, que nem cabia na folha. Olhava fixamente, mas era difícil saber se estava a olhar para mim ou através de mim. Quando eu estava a acabar o desenho, pensei assim: vou esperar que o comboio páre para não denunciar a minha saída, e depois, levanto-me e saio, uma fuga em acção. Quando o comboio está a começar a parar na estação, ele levanta-se. E eu penso: ele vai embora, óptimo. Só que ele chega ao pé de mim, arranca-me o livro da mão, olha para o desenho, dá um berro - aaahhhh! - e atira com o livro. Eu fiquei quieto. Ele saiu. As pessoas ficaram todas paradas. Quando as portas fecharam, eu lá fui buscar o caderno."

São Paulo

"Este não está no livro. Este fulano quando viu o desenho dele, obrigou-me a fazer outro. Disse: 'Não tem nada a ver comigo.' E eu fiz outro desenho com o qual ele quis ficar e com o qual ele ficou. Era muito pior. Ele achou que estava mais parecido. Mas como desenho estava pior. Este desenho fala muito mais dele. Uma coisa que para mim é muito libertadora é que eu não sou nada retratista. Não sou nada o género de fazer desenhos das pessoas. Justamente porque uma coisa que me incomoda é a pressão do reconhecimento."

Atenas

"Eram duas estudantes e eu estava a desenhar uma delas. Curiosamente, aquela que eu estava a desenhar estava completamente absorta, nem deu por isso, mas a outra, deu. E levantou-se e veio ter comigo e perguntou-me o que é que eu estava a fazer. E eu disse que estava a desenhar. Ela chamou a amiga para vir ver. Quando a retratada viu ficou absolutamente fula:

- Porque é que tu me estás a desenhar assim desta maneira?

- Mas qual maneira?

- Assim, tão feia!

- Eu não te estou a desenhar feia ou bonita, estou-te a desenhar.

E comecei a mostrar-lhe o resto do livro:

- Olha, ando a desenhar pessoas no metro.

- Mas porque é que estás a desenhar as pessoas tão feias?"

Berlim

"Desenhei este senhor e quando saí da carruagem, ele saiu também. Quando estávamos já quase a sair da estação, ele meteu conversa comigo, muito simpático, muito amável, muito delicado, o que até contrastava um bocadinho, porque ele estava todo vestido de preto, de cabedal ou napa, com um lenço vermelho com cornucópias brancas. Perguntou-me se eu não queria ir a casa dele. Eu fiquei um bocado encavacado. E ele disse: 'Não, não, para me desenhar, para me desenhar'. E eu disse: 'Mas eu já te desenhei.' 'Não, para me desenhar, mas sem roupa!' 'Desculpe, eu só desenho pessoas com roupa no metro ou sem roupa se estiverem no metro.'"

Cairo

"Estou de pé, porque quando entrei a carruagem estava cheia. Estava a desenhar as pessoas logo na primeira fiada, e desenho o primeiro fulano da fiada, vou desenhar o segundo e ele não, não, não, a carruagem toda a olhar, e ele a dizer que não, que não, que não, e há uma senhora que está ali sentada, tipo 'mama', que começa a falar com ele em árabe, e depois aponta para ela própria: então desenha-me a mim. Ela era uma 'mama' egípcia, não era uma rapariguita. Fez-se silêncio na carruagem. Eu começo a desenhar. Ninguém diz nada. Porque eu estou a desenhar a matriarca. A suar, um calor desgraçado, e eu só me lembrava da história do Astérix e da Cleópatra. Havia um problema qualquer, uma sabotagem na construcção das pirâmides, e se ele conseguisse resolver o problema e descobrir quem é que era o culpado, ela dava-lhe o peso dele em ouro. Se ele não conseguisse, mandava-o aos crocodilos. E era basicamente aquilo que eu sentia naquele momento... Então, com aquele suor todo, acabei o desenho, passo-lhe o caderno, ela olha para o livro, olha para mim, e acena que sim com a cabeça. Eeeehhh! Começa tudo a bater palmas. Tudo a comentar e a passar o livro de uns para os outros. E há um gajo, um homem de negócios, daqueles de mala e fato, que vem ter comigo, dá-me o cartão dele e diz assim: 'Please, call me. I have work for you.'"

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