O cinema impuro do artista Gabriel Abrantes

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Ganhou um prémio no Festival de Cinema Locarno, inaugurou sábado em Guimarães uma retrospectiva dos seus filmes e vídeos. Está na altura de um reencontro com este artista que também é cineasta

Em Abril de 2009 escrevíamos que Gabriel Abrantes saltava de categorias. Com um à-vontade contemporâneo. Da pintura para o filme, do filme para a pop. Mais de um ano depois, somos tentados a escrever que Gabriel Abrantes "sossegou". Encontrou o seu meio privilegiado de criação: o cinema. Os factos sustentam a "boutade": participou no Queer 2008, no Indie, venceu, com "History of a Mutual Respect", o Leopardo de Ouro para a melhor curta no Festival de Locarno, e vai levar este filme ao circuito comercial de salas.

Gabriel, cineasta ou artista? "Quero fazer cinema, mas vejo-me como um artista", responde. "Não como pintor, escultor, fotógrafo ou cineasta. Sou um artista que está a trabalhar em diversos meios. Quero continuar a pintura como quero continuar a fazer cinema, de forma consciente".

Acabado de regressar de Trás-os-Montes, onde preparava um dos seus filmes, aborrece-se com fronteiras: "Não me interessam e não as entendo e gostava que as pessoas olhassem para a minha obra como um todo e não apenas a partir de uma perspectiva. Mas também não me chateio se não o fizerem".

Contra a fragmentação

A exposição que inaugura em Guimarães pode alargar o olhar do público perante o universo deste autor. Calando o banzé dos prémios e de classificações "excitantes" (o "artista-estrela", o "jovem artista"). Mostrando as obras. "É uma recapitulação de quatros anos de cinema e vídeo, com todos os filmes, incluindo aqueles mostrados em galerias e alguns do meu tempo de estudante [na Cooper Union for the Advancement of Science and Art, em Nova Iorque]. Será um corte transversal da minha obra, como a exposição do Manoel Oliveira em Serralves".

O catálogo, concebido em forma de arquivo pronto a ser consultado, reproduz os planos dos filmes, acompanhados de legendas, e na sala restam projecções e televisões onde os filmes e as narrativas correm sós. Voltamos à carga. Involuntariamente o cinema de Abrantes destapa ou não a crispação educada que se pressente entre os mundos das artes plásticas e o cinema? Falamos de uma relação que continua ambígua, cautelosa?

"Nem sempre. A Kathryn Bigelow faz cinema e trabalhou com a Art & Language [colectivo com raízes na Inglaterra e nos EUA de artistas conceptuais]. E adoro os filmes dela e adoro o Art and Language. Já o que fazem o Douglas Gordon e Philippe Parreno não me interessa. Não me interessa o conceito de estrela, como se pode ver no 'Zidane' (2006) [de Douglas Gordon] ou o ecrã gigante. O que me interessa no cinema é uma coisa simples: contar uma história, do princípio ao fim."

E nas curtas de Abrantes contam-se histórias. Em "Visionary Iraque" dois irmãos (um português e uma angolana) partem para guerra no Iraque preocupados com a democracia; em "Too Many Daddies, Mommies and Babies", dois homossexuais, incapazes de salvar o mundo do aquecimento global, decidem ser pais; em "A History of Mutual Respect", dois brancos embrenham-se na selva amazónica, tendo por cenário as Cataratas de Iguaçu, em busca da pureza de uma rapariga mestiça; em "Liberdade", um angolano descobre-se impotente quando tenta materializar a sua relação amorosa com uma rapariga chinesa. O fim, nestas históricas, é quase sempre irónico (de uma ironia tocante) mas é um "the end".

Para Abrantes, o pós-modernismo já lá vai. "Surgiu a possibilidade de se fazer tudo, a partir de todos os interesses e gostos e temos hoje um bazar de coisas que não há maneira de utilizar ou regrar. Eu acredito na utilidade da arte. Antes de ir a Locarno vi 'Le Mura di Sana' (1964), do Pasolini [um filme-petição dirigido à Unesco para a defesa da arquitectura medieval da capital do Iémen]. É um filme fenomenal que ilustra essa ideia de utilidade. Por outro lado, prefiro a narrativa e não a sua fragmentação, ou a do tempo ou da história de arte".

Marionetas

E a narrativa é construída na maioria dos casos recorrendo a Hollywood, à forma como a sua indústria moldou a visão da História. Aos seus géneros: o melodrama, o filme de guerra, o filme-catástrofe, de aventura, romântico, de acção; todos cobertos por um artificialismo que escorre langoroso e colorido sobre os diálogos e corpos. O efeito é cómico, sufocante, surreal mas as imagens e os sons ficam; e com eles, os temas abordados, seja a guerra no Iraque, a família, o aquecimento colonial, o colonialismo, os mitos da mestiçagem.

Regressemos a Abril de 2009. Nessa altura, o artista evocava Alana Vega [vocalista dos Suicide] como alguém que tinha inventado uma música para poder estar no palco. Inventou agora Gabriel Abrantes um novo cinema para estar ele próprio no ecrã? "Não. O que me interessava no Alan Vega era a música que ele inventou com meios não convencionas e não tanto a vontade chegar ao palco. Nesse sentido podemos fazer um paralelismo com os meus filmes porque também uso meios não convencionais". Mas se na música de Abrantes os meios convencionais significam uma limitação técnica transformada em força expressiva (assim nos diz o pós-punk), no seu cinema ganham um valor conceptual. "Quando os reconheço enquanto propósitos conceptuais, integram-se na produção da obra. Isso aconteceu primeiro em 'Olympia II', onde entrei como actor. Não sabia representar e essa limitação construiu uma forma de representar que é um dos eixos estruturais dos filmes: aquele tom afectado e artificial. Como se estivéssemos num teatro de marionetas. Nos meus filmes somos todos marionetas das próprias histórias, nenhum de nós representa verdadeiramente". E o efeito serve à ficção: "Por exemplo, em 'Visionary Iraque' as personagens que interpreto, o pai, a rapariga, o galerista, também lidam com as suas incapacidades. A ideia de máscara, de emoção ou exagero de emoção interessam-me mais do que estar num palco ou num ecrã".

Autoria partilhada

A autoria partilhada é outro elemento que singulariza as curtas de Gabriel. Não se trata de uma parelha de irmãos, mas um trabalho feito repetidamente a meias com os outros autores. Foi assim com Katie Widloski ("Olympia I & II"), Benjamin Crotty ("Visionary Iraq" e "Liberdade") Daniel Schmidt ("2002, 2003, 2004... 2002" e "A History of Mutual Respect"). Porquê? "Comecei a fazer cinema porque estava interessado numa arte impura e porque é uma máquina que precisa de imensas pessoas para funcionar. A colaboração tem sido uma questão moral para mim, de alguma forma inspirada pelos grupos de arte, como o Group Material [colectivo que nos anos 80 do século XX agitou a cena nova-iorquina com exposições que lidavam com temas políticos e sociais]. Contrariavam a ideia do autor singular ou da expressão pura. A arte deve fazer sentido em discussão, com as outras pessoas".

E eis-nos de volta ao mundo da arte. E, sublinhe-se, não são apenas as obras ou os autores que invadem mundos "estrangeiros", colhendo pelo caminho elementos ou ideias. São também as instituições que "ousam" ultrapassar as suas competências. Isto a propósito do papel da Galeria Zé dos Bois na aventura de Gabriel: "Já me tinham ajudado no 'A History of a Mutual Respect', mas no 'Liberdade' foram responsáveis por toda a produção. Não foi um produtor de cinema que me fez chegar lá, mas o Natxo Checa que, embora tenha realizado filmagens e trabalho de campo com outros artistas [João Tabarra, João Maria Gusmão e Pedro Paiva ou Alexandre Estrela], não tem essa experiência.

Um dos filmes mais recentes é "Liberdade", filmado em Luanda. Conta um romance impossível entre um negro e uma chinesa sobre as ruínas do comunismo. É a obra mais próxima dos códigos do cinema comercial. Mas o tom irónico, perverso, ambíguo (escutem Paul Simon sobre Luanda) continua lá. Sobre o filme, Abrantes diz que lhe interessou filmar em países que vão fugindo ao imperialismo cultural e económico dos EUA. Talvez para criarem uma nova cultural global. Algo que ainda não conhecemos, ou que só podemos imaginar. Como os futuros trabalhos deste artista. Filmes ou pinturas, arte ou cinema, Gabriel?