Se um Vincent Gallo incomoda muita gente...

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Terá sido uma das projecções de imprensa mais concorridas de Veneza 2010 até agora: as maiores filas que vimos até agora para as entradas da sala Darsena (1300 lugares), os responsáveis da sala a terem de deixar gente de fora, o povo a irritar-se com o atraso do início da sessão...

Não era para menos. Segunda-feira, 6 de Setembro, 13h30 em Veneza (12h30 em Lisboa): em estreia mundial, o novo filme de Vincent Gallo, o sucessor do infame “Brown Bunny” que fez escândalo em Cannes 2003, mantido em absoluto sigilo até à projecção. A pedido expresso de Gallo, o catálogo do festival nada diz sobre “Promises Written in Water” (competição) - nada de sinopse, nada de fotografia, nada para lá da ficha técnica e de uma curta biografia do actor/realizador/argumentista/compositor. Não há cartaz, fotos de promoção, dossier de imprensa – nada de nada.

A electricidade no ar nos minutos antes das luzes se apagarem é indesmentível.

Ao cartão inicial “Vincent Gallo Films copyright 2010”, seguir-se-ão “um filme de Vincent Gallo”, “Vincent Gallo”, “música de Vincent Gallo”, “montagem de Vincent Gallo”, “argumento, produção e realização de Vincent Gallo”. Há gargalhadas e aplausos.

É verdade, ele dá completamente o flanco.

E percebemos que, se há fãs na sala (um jornalista holandês passeou-se alguns dias com uma T-shirt amarela de “Brown Bunny”), também há muita gente que já entrou com as garras de fora. Num longuíssimo plano pouco depois do genérico, onde a câmara segue Gallo durante alguns minutos enquanto ele entra, acende a luz, tira uma câmara fotográfica da gaveta, acende um cigarro, anda de um lado para o outro, despe o casaco, veste o casaco, senta-se etc., etc., há alguém na sala que lança, irónico: “ma che bello!”. E, durante outro longuíssimo plano onde Gallo repete por três vezes consecutivas um mesmo diálogo, sempre de modos diferentes, a audiência desata a rir com o absurdo da situação.

Ao fim de 15 minutos, já há gente a sair e a debandada não terminará até ao final da (curta) projecção (o filme dura apenas 72 minutos bem cronometrados). Às tantas, há filas inteiras que saem. Um dos jornalistas desistentes dirá à saída a quem o quiser ouvir “va fa 'n culo” (e ninguém fica “lost in translation”).

Quase dá vontade de gostar do filme. Mas a verdade é que Vincent Gallo não nos dá sequer essa possibilidade.

“Promises Written in Water” parece ser uma variação sobre as pancas de “Brown Bunny” (uma loura, aqui a manequim belga Delfine Bafort, por quem Vincent, aqui chamado Kevin, está apaixonado e que ele perde; Vincent, aqui chamado Kevin, fuma, sofre, passeia, discute, arranja emprego numa funerária, fotografa cadáveres). É um romance tão frágil que quase não existe, sufocado pelo narcisismo, desesperado, patético e tocante ao mesmo tempo, de um artista a querer convencer-se que sabe o que está a fazer.

Mas se sabe não o mostra. O pouco de narrativa que aqui há cabia perfeitamente numa curta (e Gallo também tem uma curta na secção paralela Orizzonti, “The Agent”), o resto é enchimento sem rei nem roque que haverá de ter algum significado para o próprio mas dificilmente o terá para os outros.

O problema é que ele não ajuda a que os outros percebam – a conferência de imprensa de “Promises Written in Water” foi cancelada e não esteve presente na de “Essential Killing” (competição), dirigido pelo polaco Jerzy Skolimowski (saído da aclamação de “Quatro Noites com Anna” em Cannes 2008), onde é o actor principal (e, durante a maior parte da duração do filme, o único actor em câmara). O produtor Jeremy Thomas explicou que convidou Gallo a juntar-se-lhes no pódio, mas que o actor se terá desculpado graciosamente alegando que “não faço conferências de imprensa”. Que o mesmo é dizer, os filmes falam por si próprios.

A ironia inescapável é que, se não fosse tão impecavelmente construído, “Essential Killing” podia ser um filme de Gallo. A sua personagem, um muçulmano capturado pelo exército americano no Afeganistão e transferido para uma base secreta na Europa de Leste mas que consegue fugir, não fala uma única vez, tornando o papel numa odisseia física para o actor, cujo empenho é indesmentível; o filme, que acompanha a sua fuga enquanto é acossado pelos soldados, repousa inteiramente nos seus ombros (embora não se sinta aqui pingo de egocentrismo).

Se “Promises Written on Water” é tão vago que se desintegra sem permitir sequer a Gallo criar uma personagem, em “Essential Killing” Skolimowski não lhe dá mais nada que lhe permita ir para lá da fisicalidade. A opacidade minimalista do filme, abertamente desejada pelo realizador polaco como um modo de explorar o lado animal, primitivo, a que o ser humano reverte quando a sobrevivência é a questão primordial, joga de tal modo contro o filme que o transforma num objecto puramente abstracto, tão conseguido formalmente como vago narrativamente.

E, sobretudo, nem num nem noutro vislumbramos o talento que Gallo já deu a entender que tem – sugerindo que o actor/realizador/etc. precisaria de rédea menos solta para desenvolver o seu talento.

O problema não é ele ter talento ou não – é o que ele tem escolhido fazer dele. E se é verdade que é óptimo vermos alguém que segue a sua musa e se borrifa no que os outros acham que ele deve fazer, não deixa de ser pena que a sua musa o tenha levado para territórios tão rarefeitos.

Muito se tem falado sobre o documentário de Casey Affleck sobre Joaquin Phoenix, “I'm Still Here”, ser uma fraude, um embuste. E se o verdadeiro embuste fosse o cinema de Vincent Gallo?

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