Segundo dia de tumultos com menos violência e sem pão

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As barricadas voltaram a cortar o acesso ao centro de Maputo Sergio Costa/AFP

Autoridades confirmam a morte de sete pessoas nos protestos dos últimos dois dias. Maioria das lojas continua encerrada por receio de novas pilhagens. Presidente Armando Guebuza pediu "calma" aos moçambicanos

A Cruz Vermelha Internacional falava ontem em três mortos, mas oficialmente morreu apenas mais uma pessoa nos protestos que se iniciaram na véspera e que se reacenderam pelas 8h00, depois de a polícia ter conseguido limpar as barricadas dentro e em redor de Maputo na noite de quarta para quinta-feira. O Governo recusou baixar os preços - o aumento de bens básicos como a luz, água, arroz e, a partir da próxima segunda-feira, também do pão, é o motivo por trás dos protestos.

"Hoje [ontem] só foi noticiada a morte de um jovem que terá sido perseguido pela polícia na zona do Malola Rio. Foi para dentro de água a fugir, as pessoas ouviram seis tiros e ele foi alvejado. Depois deixaram lá o corpo", disse ao PÚBLICO por telefone Ciro Pereira, moçambicano, animador cultural que trabalha no Instituto Camões em Maputo.

Os tumultos "causaram duras perdas humanas e materiais, incluindo seis mortos [quarta-feira] e um hoje [ontem] e 288 feridos", disse à imprensa o porta-voz do Governo, Alberto Nkutumula. Várias fontes garantem, no entanto, que a violência da véspera fez dez mortos, incluindo duas crianças.

Aumentos vão manter-se

Reunido de emergência durante três horas, o Conselho de Ministros limitou-se a apelar a "todos os cidadãos para se absterem de participar em motins, actos de vandalismo, pilhagem e violência, a fim de permitir um regresso rápido à normalidade e à calma". Na véspera, 23 lojas foram pilhadas, dois vagões de comboio e 12 autocarros foram vandalizados, incluindo um totalmente destruído.

O Presidente, Armando Guebuza, disse pouco mais, apelando "à calma" e pedindo aos moçambicanos para manterem "a vigilância" e avisarem as autoridades para qualquer manifestação de violência. Lamentou também a "perda de vidas". "Os actos de vandalismo são um retrocesso para a sociedade moçambicana, bem como para a estrutura do país."

Esta intervenção, ainda na quarta-feira à noite, não convenceu as dezenas de milhares de moçambicanos que saíram à rua nos bairros e municípios da periferia de Maputo, levando o seu protesto até bem dentro da capital. Mas o Governo insiste que a subida dos preços "é irreversível", mesmo quando isso significa que o pão ficará 25 por cento mais caro.

Lojas fechadas

A violência terá sido ontem menor do que na véspera, mas os habitantes de Maputo continuaram sem ir trabalhar, ao mesmo tempo que da periferia ninguém conseguia chegar ao centro.

Emanuel Gomes da Silva, moçambicano gerente de um supermercado, foi uma das poucas excepções. Mora no centro e foi trabalhar, abrindo o supermercado Woolworths na zona da Coop, perto de uma das saídas da cidade. A aposta do patrão não podia ter sido mais recompensada: "Está tudo fechado, mas nós tivemos ordens do dono da empresa para abrir. Vieram trabalhar 40 por cento dos funcionários. Os que vivem mais perto vieram a pé, os que vivem fora não conseguiram sair de casa. Nunca tivemos um dia tão cheio. Tem sido uma procura louca... Está tudo esgotado. Principalmente pão, leite, arroz, farinha, vendemos tudo. Somos os únicos abertos e as pessoas estão com medo de que isto continue".

À hora a que o PÚBLICO telefonou a Emanuel Gomes da Silva, pelas 16h00 em Maputo, o supermercado estava mesmo a fechar. "Vamos fechar agora porque o pessoal tem de ir para casa. Há gente que mora longe e temos de ir todos a pé", explicou. Ontem, houve gente a percorrer a pé quilómetros em Maputo. Os transportes públicos não funcionaram - nem um só "chapa", os miniautocarros de nove lugares que levam 20 pessoas - e poucas pessoas se atreveram a conduzir as suas viaturas pessoais.

Ciro Pereira não caminhou quilómetros mas andou pela cidade a pé. Podia tê-lo feito de carro, mas optou por caminhar. "Não havia transportes e eram muito poucos os carros na rua", disse. O que não havia na sua zona, a Costa do Sol, era pão.

"Quando uma situação destas está a decorrer o que acontece é que as instituições fecham porque não têm funcionários. As lojas, mesmo algumas que estiveram fechadas logo na quarta-feira, foram saqueadas. Os comerciantes têm esta dúvida: por um lado, deviam abrir porque faziam imenso negócio, mas, por outro, têm medo dos saques. Aqui na zona nem pão havia. A maior parte das padarias está fechada. As que estão abertas têm filas imensas e só há padarias abertas mesmo no centro. O pão não chegou aos subúrbios. Aqui abriu o Café Estoril e mais um cafezinho pequeno. De resto, todos os restaurantes e mercearias estão encerrados", descreveu Ciro Pe