Carne de laboratório é uma das incógnitas do futuro

A carne artificial pode transformar a alimentação nas próximas décadas. O processo está descrito desde 2008 e no ano passado uma equipa holandesa anunciou ter produzido carne de porco. Falta-lhe agora dar a estrutura e densidade do músculo, o que passa por um aperfeiçoamento da técnica.

"A produção de carne in vitro pode, potencialmente, desviar-se de muitas questões de saúde pública que estão correntemente associadas à carne de gado", escreve Philip K. Thornton, cientista do Instituto Internacional de Investigação do Gado, num artigo de revisão dedicado às tendências desta indústria que foi publicado na Philosophical Transactions of the Royal Society B. A revista editou 21 artigos que olham em conjunto para várias áreas de influência na indústria alimentar, a pedido do Governo britânico, para saber como é que a população mundial se vai alimentar em 2050, quando formos nove mil milhões de pessoas.

Na altura que a invenção da carne sintética foi anunciada algumas associações ecologistas não se opuseram a esta alternativa proteica, por não haver nenhum sofrimento dos animais, um pormenor que demonstra a mudança social que esta descoberta pode ter. Mas Thornton alerta para o impacto económico do risco da quebra da produção de gado ou para outro factor mais subtil como a perda do "valor da amenidade das paisagens com gado em alguns lugares".

A pesca foi outro dos temas revistos nesta edição. A diminuição dos stocks e a aquacultura são questões recorrentes, mas um artigo dedicado à importância da pesca em massas de água interiores como os lagos e os rios mostra que esta é fundamental para a sobrevivência de 59 milhões de pessoas, mais nove milhões do que as comunidades dependentes dos recursos costeiros. Anualmente, capturam-se 10 milhões de toneladas de alimento nestes recursos, mas a sobreexploração pode tornar esta actividade insustentável, principalmente na Ásia.

Na agricultura, a alteração da distribuição das chuvas devido às mudanças climáticas pode pôr em causa o rendimento das culturas, mas a competição pelos recursos hídricos devido a outras actividades poderá exacerbar ainda mais este problema. Um dos artigos calcula que as actividades municipais e industriais juntamente com as necessidades de água dos ecossistemas vão causar a redução de 18 por cento da água disponível para a agricultura em 2050.

Um dos factores deste aumento da necessidade de água é o crescimento das cidades. Em 2020, estima-se que 54,9 por cento da população mundial vai viver em grandes urbes, mais 715 milhões de pessoas do que hoje. Ainda não se consegue avaliar os efeitos desta mudança na produção alimentar. Se, por um lado, as metrópoles podem competir com o espaço que antes era para a agricultura, por outro, os espaços urbanos dinamizam a economia e a procura por alimentos. Sabe-se que as cidades estão associadas a mais abundância, mas a pobreza e falta de educação podem levar a uma alimentação baseada em comida transformada, que desencadeia um aumento de doenças alimentares com um custo de saúde associado.

Mas há um lado mais "verde": prevê-se que a agricultura urbana continue a crescer.