No dia em que Hélio não voltou para casa

Milhares de moçambicanos que vivem na "cidade de caniço" levaram o seu protesto à "cidade do cimento"

Já passa das 10 da manhã e a circulação automóvel no interior da cidade de Maputo, à medida que o tempo passa, é cada vez mais reduzida. Faz lembrar os anos de 1993-94, quando a capital moçambicana era percorrida quase exclusivamente por viaturas da ONUMOZ, a força que as Nações Unidas destacaram para Moçambique, logo após a assinatura do Acordo Geral de Paz em 1992.

Ao cimo da luxuosa Avenida Kenneth Kaunda, já depois da Praça da OMM (Organização da Mulher Moçambicana), a nuvem de fumo adensa-se e uma ligeira brisa transporta o odor desagradável da borracha queimada. As fogueiras de pneus traçam a fronteira: da praça para baixo e para a direita, em direcção ao bairro do Polana Caniço, fica a "cidade de caniço" que se desloca diariamente para trabalhar para a outra, para a "cidade de cimento". Mas hoje, contrariamente à rotina de todos os dias, quase ninguém veio trabalhar. Desde as seis de manhã que os chapas - veículos de transporte semicolectivo que todos os dias transportam milhares de moçambicanos para o trabalho - não ousam fazer-se à estrada. A propalada greve, convocada na véspera por SMS, está a ter uma aderência de quase 100%. Os milhares de moçambicanos que protestam contra o desmesurado aumento do custo de vida registado nos últimos dias estão dispostos a levar o seu protesto por diante e chegar à "cidade de cimento", "àqueles que têm poder de decisão", refere um popular que caminha em passo apressado tentando alcançar a praça antes da chegada dos manifestantes.

O bruá da multidão é cada vez mais sonoro e a cadência dos passos intensifica-se, sinal que a turba se aproxima rapidamente da praça. Momentos antes, três veículos carregados de polícias munidos de metralhadoras AK 47 tomam posições ao longo da praça. A multidão chega ao local e a tensão aumenta à medida que crescem as palavras de ordem que clamam por justiça. Os tiros de aviso sucedem-se. O descontrolo entre os polícias é grande, e a turba, cada vez mais vociferante, entra na Avenida Vladimir Lenine, tomando a direcção da Baixa da cidade. Agora as ordens parecem claras: ninguém pode passar para o cimento. Rapidamente tudo se precipita e os disparos, exclusivamente da polícia, tomam as mais variadas direcções, com dois deles a deixar um corpo já cadáver e outro em estado grave que acaba por ser socorrido pela Cruz Vermelha. A turba, essa, recua, voltando à procedência. No alcatrão jazem dezenas de chinelos que o pânico deixou para trás.

Agora, os disparos vêm lá de baixo, da esquina das Avenidas Joaquim Chissano com a Acordos de Lusaca. Aqui já estamos em pleno "caniço" e o fumo e o fogo toldam a visibilidade. Na Acordos de Lusaca há mais disparos e gente a fugir. A notícia de dois jovens atingidos corre célere, tão célere quanto a turba a dispersar. Um polícia não nos confirma a notícia.

Sob agitação e alguns tiros, corremos para o local. "Já levaram uma criança que estava ferida", revela um transeunte. "Isto é fogo real. Vocês têm de escrever que a polícia está a matar o povo inocente e indefeso". Enquanto isso, outro popular puxa-nos para o outro lado da rua, em direcção a uma criança que jaz cadáver, coberta por uma capulana. Do seu lado esquerdo repousa a pasta com os livros da escola. Do lado direito, uma enorme poça de sangue testemunha a brutalidade do disparo. "Atingiram-no aqui na cabeça", berra uma mulher indignada, enquanto levanta o improvisado sudário. "Chamava-se Hélio tinha 11 anos e regressava da escola quando foi atingido", diz-nos Albino Massinga, pedreiro de profissão e activista em várias organizações cívicas. "Estamos contra o aumento do custo de vida, é um protesto legítimo. Eu vivo com menos de 50 meticais (cerca de um euro) por dia. Se a manifestação existe é porque as pessoas não estão contentes. Dói sermos explorados injustamente." E continua: "Nós votámos neles [Frelimo], mas a Frelimo não é aquela pessoa que está hoje na cadeira do poder. A Frelimo sempre quis dar o melhor ao povo desde os tempos de Samora Machel. E os actuais dirigentes não sentem pena desta gente que está cada vez a sofrer mais?"

A polícia volta a investir e o povo que estava junto ao corpo de Hélio procura refúgio entre as pequenas habitações de blocos que a falta de dinheiro não deixou concluir. A indignação cresce. "Queremos justiça! Os assassinos estão fardados! Isto não é bala perdida. Bala perdida não atinge cabeça."