Alexandra Lencastre: uma mulher sob influência

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Bruscamente neste Verão, Alexandra Lencastre volta ao teatro, 12 anos, uma vida inteira depois. A partir de dia 9, vamos vê-la em "Um Eléctrico Chamado Desejo", encenação de Diogo Infante no D. Maria, em Lisboa, vamos vê-la em Blanche DuBois, "femme fatale" voraz, retirada de cena, caçadora transformada em presa. Alexandra não está a fazer de si própria, embora descubra sinais em tudo. Como Blanche, é uma mulher em perigo: "Tenho medo de não passar. Isto é tudo um grande sofrimento"

Ela está naquela fase "ai, ai, ai, ai, não me digam nada". É a altura da aflição. "Talvez isto tenha que ver com os 12 anos de afastamento, com bloqueios que posso ter criado, e quanto mais se aproxima a data da mostra, da exposição, mais eles emergem". Não diz "estreia" por superstição? Não. "Estreia até é uma palavra bonita - como 'première'. 'Mostra' é que é violenta. Mostramo-nos."

Mostra-se como quem diz: este é o meu corpo, tomai e vede todos.

Mas a roupa é a mesma, por superstição. Entrevista em dois tempos. Um mês e meio antes da estreia da peça, e dez dias antes. O mesmo blazer preto, as mesmas botas de cano alto. Apesar da brasa do Verão.

No primeiro encontro, tem disponibilidade para pensar no pai que não queria que desperdiçasse a polpa da fruta ao descascá-la. No segundo, a conversa desagua quase exclusivamente nos ritmos da peça, em Blanche Dubois. Da severidade elegante do encenador Diogo Infante. Do encontro em palco com Albano Jerónimo, Pedro Laginha, Lúcia Moniz. "Impressiona-me a intensidade deles. Sinto-me sempre atrasada. Como se não mergulhasse. Ou mergulhasse em seco. Vou atrasada por causa dos meus bloqueios. Porque achei que não era capaz. Enquanto pensei e não pensei e não me entreguei e não me atirei, já tiraram a água, não dei por nada, magoo-me. Eles mergulham muito mais. Mas depois eles dizem-me que eu mergulho tão intensamente... e isso devolve-me a energia de que preciso para continuar".

Bruscamente neste Verão, Alexandra Lencastre volta ao teatro. Doze anos depois. Doze anos é muito tempo. Uma vida se passou entretanto.

Há um público que quer reconhecer na peça e em Blanche Dubois a jovem esperança que encontrou no Teatro da Graça e não só. Um público que reprova as opções de carreira que tomou. Que quer continuar a gostar de Alexandra Lencastre e a poder dizer dela que é uma grande actriz.

Um público diferente daquele que a segue em formato folhetinesco nas revistas cor-de-rosa e na televisão. 

Um público que não a quer confundir com Blanche, retirada de cena.

Este não é o ocaso de Alexandra Lencastre. Não a vamos ver a descer a escada devagar, pronta para o seu último "close-up". Não a vamos ver a depender da bondade de estranhos. O que vamos ver é uma peça que não é mais uma peça. O que vamos ver é uma hipótese de felicidade.

Na peça, fala-se de Blanche Dubois como uma borboleta nocturna. Alguma vez pensou em si como uma borboleta nocturna?

Já, e com o decorrer dos ensaios vou pensando cada vez mais. As borboletas nocturnas têm uma atracção enorme pela luz, mas quando se aproximam de mais morrem. Não são umas borboletas como as outras, com cores sedutoras; são borboletas tristes, acinzentadas. Que é aquilo que vai acontecendo ao branco da Blanche ao longo da peça. Vai-se sujando, amarrotando. Deixa-se afundar numa espiral de desgraças, mas também é responsável por isso. Representa toda uma educação sulista daquela época. Há a noção de pecado e de culpa. Vários tipos de vícios. As pessoas fumam e bebem a uma velocidade estonteante. O sexo. O jogo. A peça acaba de uma maneira horrível: ela vai para um asilo de loucos e eles continuam a jogar póquer.

Póquer aberto.

Sim. Não é por acaso: a vida é um jogo, a vida continua. 

O que é que tem da Blanche Dubois?

Procuro não ter muito porque me assusta. Há uma série de coincidências entre nós. Estar só. A idade. Ela passa a vida a disfarçar e a poupar-se; das luzes, por exemplo.

Diz: "Não quero ser vista debaixo desse clarão impiedoso".

Uma lâmpada sem um "abat-jour", sem um filtro, é um horror. Eu tenho isso. Não é só de agora. Com 20 anos já me sentia incomodada. Adorava ir a uma cervejaria comer uma grande mariscada e beber umas imperiais, mas aquela luz néon, cruel...

Que revela tudo...

Afligia-me. Compreendo tão bem a Blanche. Neste ponto estabeleço um laço imediato. Ainda por cima está tanto calor... Estamos em Nova Orleães, estão 38 graus, é um calor pegajoso, é uma coisa pesada, fabril. Não é propriamente como estar numa sombra refrescante, com uma brisa, a tomar um refresco de uísque. Há características da Blanche que não têm nada a ver comigo, mas as pessoas pensam que têm. Têm mais a ver com a imagem que as pessoas têm de mim.

Que características?

A questão da sedução. A ideia de que tive muitos homens.

Quando Blanche é desmascarada pelo cunhado, ele fala dos incontáveis amantes que ela teve. Descreve-a como sexualmente voraz. Teme que as pessoas, porque lhe colaram o estereótipo da "femme fatale", apontem isso como sendo comum às duas?

Sim. A minha primeira reacção foi: "Nem pensar!". Vão dizer: "Ela está a fazer de ela própria". Mas não. Trata-se de uma louca, vai-se desequilibrando. O Diogo [Infante] só dizia: "Estou-me a borrifar!". Na peça, meninas desta estirpe, de famílias com grandes propriedades, eram desde cedo, tal como as meninas do povo, sem tanta educação e sem preparação, lançadas para a vida com um objectivo: entreter o macho. Foram educadas para serem "la belle de la fête". E sempre com um optimismo sulista. Há uma desgraça, morre alguém, "oh que maçada", mas há sempre uma piada. Álcool à mistura, sedução, sedução. 

"Sex symbol" foi o seu primeiro rótulo.

Foi, e sempre me revoltei contra isso. Tenho de recuar e lembrar que, entre mim e o meu irmão, ele é que era o bonito. O que se comentava na família era: "Que pena não terem nascido ao contrário, ela rapaz e ele rapariga. Ele é tão bonitinho e ela é toda torta". Fui crescendo com grandes complexos. Fui uma adolescente muito impopular. Não tinha namorado, não tinha hordas de rapazolas atrás de mim. Fui-me refugiando no desporto. Fiz dez anos de natação, o que tornou o meu corpo muito pouco feminino e muito pouco gracioso. Com os ombros largos, com um peito largo. E depois um bocado a direito, sem aquela anca feminina que sempre desejei ter. Fui-me protegendo dos outros, camuflando este corpo, sendo muito arrapazada. Vestia blazers, muitas vezes do meu pai, com as mangas enroladas, largueirões. Umas t-shirts fora dos jeans, botas de caneleiras alentejanas com protectores, para fazer barulho como os homens. Tinha graça. 

Agora vou provocá-la e falar com a crueza do Stanley: tinha um peito que fazia com que isso não importasse nada.

Não, não. Fazia por esconder. Tinha um peito exageradamente grande para a minha estatura.

Vimos várias fotografias suas. A não ser que seja um exercício de representação, existe uma exibição orgulhosa do seu peito.

Não foi sempre assim. Quando comecei a fazer teatro, fiz uma série de ingénuas dramáticas, a Maria do "Frei Luís de Sousa". Estreei-me a fazer uma ninfa dos bosques numa peça do Pasolini, com o Mário Feliciano. No Teatro Experimental de Cascais, o Carlos Avillez deu-me a Chantal, uma jovem prostituta em "O Balcão", do Jean Genet. Pela primeira vez fui obrigada a deixar crescer as unhas (estão sempre a partir-se, não há remédio, nunca tive boas unhas) e a pintá-las de vermelho. Muito maquilhada, um grande decote, uma saia com uma abertura de lado. A entrada dela era marcada pela unha num gradeamento a fazer [imita o barulho] ra-ta-ta, e pelos saltos. Eu achava que as minhas pernas eram iguais às que estão nos supermercados, seis coxinhas de frango, todas juntas. Não tinha sequer aquela perna longa... 

Quando é que percebeu que o seu corpo era um trunfo, e que podia ser uma máscara?

Comecei por perceber que era uma máscara. O João Perry dizia, de uma forma muito engraçada, que eu pintava uma carinha em cima da minha num trabalho que fizemos juntos; e que depois aprendi a fazer isso no dia-a-dia, que nunca mais consegui deixar de o fazer. Foi quando fizemos "A Banqueira do Povo".

A sua primeira novela.

Exactamente. Como é que o rótulo se instala? É por um acaso, azarento, e por uma sucessão de papéis. Estava a fazer uma peça terrível, "Terminal Bar", no Teatro da Graça, do Paul Selig, que morreu entretanto com sida. Fazia novamente uma prostituta, que se chamava Martinelle. Ela tinha de vestir-se de Estátua da Liberdade. Uma coroa, um archote, umas luzes tipo feira popular, uma coisa meia ridícula, meia triste, pobre. Já só era aquilo que brilhava, o resto estava a morrer. E, no meio disto, andava de patins e com uma espécie de fato-de-banho de época. Num dos ensaios para a imprensa, ao levantar o archote, descoseu-se qualquer coisa... Apareceu no "7ete" uma fotografia minha com a maminha de fora. Chorei tanto, tanto, não queria sair de casa. As pessoas achavam que era uma falsa pudica. Quem me conhece bem sabe que sou pudica. 

Pudica? Traduza lá isso.

As minhas colegas de piscina nunca me viram nua, não tomava duche com elas. Tive uma educação um bocadinho conservadora.

Como é que depois aparece em poses provocantes?

São personagens. Havia um lado infantil e provocador, mais do que sedutor. Brincar às "pin-ups", mais do que ser a "pin-up". Quando chega a um certo ponto, fujo, nem que seja preciso desaparecer. É um exercício para gostarem de mim? Acho que sim. Todos os actores têm esta necessidade muito premente e manifestam-na de várias maneiras. Há pessoas que até são muito arrogantes porque estão a pedir que as entendam, que se aproximem - "Eu sou uma besta, quem se aproximar virá por amor, quem conseguir passar essa barreira...".

Essa foi a sua forma de dizer, de pedir: olhem para mim, gostem de mim?

Eu tinha uma grande dificuldade em perceber em quem é que me tinha tornado. O que é que as personagens contribuíam para me acrescentar, ou para me retirar, ou para me baralhar? Andava num comboio que não parava. Fiz 38 peças de seguida. Estive oito anos sem férias, sem folgas, nada. E fazia televisão ao mesmo tempo. Entrei num filme do João Canijo, pequenos papéis. Estava no Teatro de Cascais, no Teatro Nacional, tinha aulas de condução. Tinha para aí 22 anos. Tinha muita vontade. Nem sequer tinha consciência do que me estava a acontecer. Cresci no Restelo, eram só brasas à minha volta. De boas famílias, lindas, saídas de filmes. Eram Scarlett O'Haras, eram Marilyns, eram miúdas tiradas do "Easy Rider", com imenso dinheiro, imenso mundo, iam imenso a Londres.

E você, era o quê?

Era filha de uma família da pequena, média burguesia. Não vivia numa casa com jardim, vivia num apartamento. Daqueles muito familiares, com um quarto para os pais, um quarto para cada filho, uma sala, uma cozinha. O meu pai não tinha carro e o meu irmão e eu éramos gozadíssimos. Só tivemos carro quando eu tinha sete e o meu irmão oito anos. Estudámos primeiro na Academia de Música de Santa Cecília. Depois acabou-se o dinheiro, porque os meus avós maternos deixaram de ajudar, começaram a nascer mais netos. Fomos para Algés e Dafundo, liceus públicos. Fui para a Faculdade de Letras estudar Filosofia. E depois Conservatório. Voltando à questão do "sex-appeal": fugiu-me ao controlo, fugiu-me por entre os dedos. Não percebia, achava que tinha colegas muito mais giras, muito mais bem-feitas.

Ao mesmo tempo, gostou de ser olhada, apreciada.

Houve uma altura em que fiquei vaidosíssima. "Está tudo maluco, mas é tão bom". Recebi imensas flores de desconhecidos no teatro. Se me dissessem que isto ia acontecer quando tinha 13 anos, eu diria: "Não, antes disso já cortei os pulsos, já me suicidei". Passei uma adolescência martirizada, com imensas crises existenciais. Achava que nem sequer ia chegar a adulta. 

Já lhe ouvi essa expressão: "Vou ali cortar os pulsos e venho já". Continua a dizer isso?

É uma coisa que agora podia dizer ao Diogo Infante, não fosse ele um encenador tão fantástico. Tenho uma grande admiração por ele. Cumpre as tarefas todas, tão bem cumpridinhas que nem se nota o esforço. Preocupa-se com o subtexto, com o que está por dentro, o que está por baixo, com o passado. Sempre lhe reconheci capacidade de liderança, uma assertividade enorme, que já tinha quando era um jovem de 20 e poucos anos. Enfrentava, questionava. Nós todos, actores mais velhos, mais novos, da mesma geração, começámos a olhá-lo com um imediato respeito. Ele é a pessoa que eu conheço que diz "não" com mais elegância. Diz "não" e parece que está a dizer "sim".

Começaram na mesma altura, a fazer as mesmas coisas, televisão incluída. É interessante que agora se reencontrem neste lugar, nestes lugares.

É. Como encenador, tinha-me feito alguns convites, e as coisas nunca aconteceram. Ele sempre preferiu que eu não conciliasse o teatro e a televisão. Ou estava completamente disponível ou preferia não me dividir com outro projecto qualquer. Esperou. E veio uma oportunidade de ouro. Neste processo o Diogo tem sido crítico, severo. Depois desta grande paragem, é assustador voltar. Seria sempre assustador fazer esta peça, para qualquer actriz. 

No texto, diz-se de Blanche: "É uma flor colhida há alguns dias".

É isso que ela é. Diz isso dela própria: que está a murchar. Por desespero, escolhe as piores soluções, vai pelos piores caminhos. Mete-se com um miúdo de 17 anos, um aluno. Torna-se "persona non grata" na cidade, é proscrita. Vem com um baú, tudo o que ela possui está naquele baú. Pede auxílio a uma irmã. A juventude já se está a ir embora, já não chegam os filtros na luz, a maquilhagem, os vestidos. Já não chegam esses disfarces todos. Cai na sua própria armadilha. Tanto enganou, tanto forjou que acaba caçada. Deixa de ser a caçadora para passar a ser a presa.

Podemos dizer o mesmo quando olhamos para a sua relação com as revistas cor-de-rosa? É como se tivesse caído na armadilha de expor a sua vida e ficasse refém daquela que ali estava exposta.

Sim, isso é um grande problema do qual me apetece falar pouco. Às vezes pergunto a jornalistas com quem converso: "Porque é que não me deixam um bocado em paz?". "Porque você vende, Alexandra". Vendo pelas piores razões.

Transformou-se na ficção Alexandra Lencastre?

Espero que não.

Essa vida a que temos acesso nas revistas, os casamentos, as separações, os novos namorados, as tentativas de reconciliação, as filhas, as férias, as rugas, o aumento de peso, as dietas... é um álbum que todos folheamos.

Sim, como se eu tivesse dado permissão e estivesse muito contente com isso... Quando perguntam: "O que é que faz para contrariar?", já fiz tudo. A única coisa que nunca fiz foi processar ou pôr providências cautelares. Não tenho dinheiro para isso.

As pessoas imaginam que é rica, que é a actriz de telenovela mais bem paga. Que é loura, que toda a vida à sua volta é glamourosa. Como é que depois diz que não tem dinheiro?

Essa é outra fabricação. Não corresponde à verdade. Fabricam uma Alexandra Lencastre que não é a verdadeira, que não ganha o que anunciam que ganho, que não tem aquele tipo de vida. Quando não estou nas festas ficam danados. Muitas vezes, não vou aos lançamentos, às inaugurações, não estou em lado nenhum. Mas aparecem fotografias minhas, com texto. Para dizer que não estive lá porque estou muito em baixo, que não aguento enfrentar a realidade porque terminei uma relação. A quantidade de namorados que me inventam..., de alguns não sei sequer o nome. Já vi "paparazzi" à porta da minha casa, fiquei revoltadíssima, disfarçam carros, estacionam ali dias inteiros.

Porque é que acha que vende tanto?

[pausa] Não sei, já  se tornou quase um hábito. Acho que as pessoas até estão cansadas. Não posso andar com um cartaz a dizer que é tudo mentira. O que é que faço? Já não vou, já não falo, já não atendo o telefone, porque isso já é dizer qualquer coisa, e mesmo assim publicam. Bato-lhes?

Quando se é uma actriz de telenovela, e nos últimos anos é isso que tem sido, faz parte do pacote aparecer nessas revistas.

De certa forma sim. As produtoras têm esses compromissos e essas revistas vão, semanalmente, publicitando o que se passa nos bastidores. 

Porque é que só faz novela? Frequentemente diz-se da Alexandra Lencastre: "É uma bela actriz, mas perdeu-se".

Primeiro, não é  uma opção, tem sido uma obrigação. A partir do momento em que começo a trabalhar na TVI, a oportunidade de trabalho tem sido esta. Para além do "Equador", não tem havido muitos telefilmes, muitas mini-séries. A novela ocupa um tempo total na minha vida. Todos os fins-de-semana tenho 150 páginas de texto para decorar para a semana seguinte. E mais a família, e mais a saúde, e mais não sei o quê. Num ano recusei cinco filmes. Fartei-me de espernear.

Recusou porque tem um contrato com a TVI que não lho permite?

Não é que não possa fazer, mas a prioridade é aquela. Se tenho uma personagem pequena, com pouca incidência, que grava duas ou três vezes por semana, posso conciliar; mas não tenho tido essa sorte. 

Porque é que escolhe isso para a sua vida? Porque é que escolhe assinar contratos?

Não escolhi. É também uma segurança económica, como é evidente. É como estar numa companhia de teatro.

Ganha um ordenado fixo por mês independentemente das novelas que faz. É funcionária.

Sim, é uma exclusividade que me obriga a estar disponível. Com o José Eduardo Moniz foi discutida esta peça, se não teria sido muito difícil fazê-la. Também já recusei várias porque o teatro é tão absorvente que é impossível. Ainda mais com as miúdas, e morando mais longe. Ao fim de duas semanas morria, ia-me abaixo, ia ao tapete. Aí sim, é que a Alexandra Lencastre se perdia. Não me perdi nada a fazer novelas. As pessoas quando dizem isso são cruéis. Tenho aprendido imenso. A novela é uma musculação do actor fortíssima. Tem coisas más, pode criar vícios, muletas, zonas de conforto em que nos encostamos à box, mais do mesmo, cria frustrações, isso é tudo verdade. Mas se se é actor, se se tem alguma coisa para dar, não se perde; aprende-se e dá-se qualquer coisa ao grande público, 

Gosta de fazer novelas?

É com orgulho que faço novela, não é com vergonha. Às vezes é com muito cansaço e com pena de não crescer mais como actriz, trabalhando em cinema e em teatro, com pena de ter perdido a oportunidade de trabalhar com pessoas fascinantes e com quem adoraria experimentar esta troca. Há pessoas que me dizem que é pena não voltar ao teatro, perguntam porque é que não quero, se tenho medo.

Boa pergunta: tinha medo de voltar ao teatro?

Tinha. Parei de fazer teatro quando tive a minha segunda filha, há 12 anos. Tinha uma peça agendada com o João Lourenço, o "Quase", no Teatro Aberto, e não consegui fazê-la. Estava a fazer uma depressão pós-parto e não estava a perceber. Tinha medo que elas morressem a qualquer instante. Compliquei mesmo a minha vida. É como se me tivesse quebrado, me tivesse colado e a cola ainda não estivesse seca. Ia-me partir e depois já não se encontrava um bocado ou outro. Então o melhor era ficar ali até aquilo solidificar. Foi a primeira vez que percebi que podia estar a dar um grande pontapé na sorte. Que podia estar quase a insultar as pessoas que acreditavam em mim. Nunca pensei estar tanto tempo sem fazer teatro. Mas, depois, uma novela são 11 meses, mais um mês de ensaio, e cortes de cabelo e provas de guarda-roupa. Tenho 45 anos, não tenho 25 nem 35. Tenho muito calor, transpiro, doem-me as pernas, doem-me as costas. 

Esta peça é uma prova de fogo?

Tenho medo de não passar. [comove-se] Às vezes penso que as pessoas não vão perdoar certas coisas. Isto é tudo um grande sofrimento, mas, se não fosse assim, não valia a pena. Para mim, isto não é uma situação normal, não é mais uma peça. Embora as peças nunca sejam só mais uma peça. Tennessee Williams fazia parte do meu imaginário de adolescente que já queria ser actriz. Vim a descobrir que participou em imensos guiões de filmes. Até no "Sentimento", de Visconti. As suas personagens femininas permitem trabalhar em quase todos os registos. Blanche é um desafio enorme, um perigo enorme, um presente enorme.

Um presente que lhe permite dizer novamente a um certo público "estou aqui, valho isto"?

"Estou aqui, a dar o meu melhor".

O medo do regresso ao teatro: verdadeiramente era o medo de quê?

De já não saber usar a voz, o corpo. De me ter esquecido das coisas do Conservatório. De ter criado os tais automatismos, as recusas, as defesas. De já não saber oferecer-me de corpo e alma e sangue.

Na peça, o cheiro é a suor, sangue e perfume de jasmim.

Isso sim, tenho em comum com a Blanche: estar sempre a borrifar-me de perfume. À Blanche, toda a animalidade do Stanley, que a percorre com um arrepio, repugna-a simultaneamente. A irmã diz, referindo-se a Stanley: "Ele não é do tipo de apreciar perfume de jasmim, mas talvez seja o tipo ideal para misturar com o nosso sangue". 

É uma frase que fala de sentidos, de carne. E tudo aquilo é crepuscular ao mesmo tempo. Stella, a irmã de Blanche, diz que os homens, a sua força animal, a deixam electrizada.

As metáforas estão lá, e as alusões, e os duplos sentidos. Blanche não é por acaso, Stella também não. Acho que são memórias do Tennessee Williams, da sua infância, um ajuste de contas com o seu passado. Através desta personagem, faz a crítica ao sistema. Esta mulher, que chegou ao ponto de se prostituir, de se entregar a estranhos... Ela foi ganhando uma repugnância a tudo o que é brutal, animal, espontâneo. Por isso é que passa a vida a tomar banhos quentes, com uma necessidade de se purificar. É interessante como é que uma pessoa que já se sujou tanto tem esta arrogância enorme, sulista, este lado quase aristocrático, palhaço, de criticar tudo à volta. 

"Não sei durante quanto tempo conseguirei manter a ilusão", diz Blanche. No seu caso, nunca perde de vista o que é postiço e o que faz parte do seu núcleo inviolável?

Não. Isso é muito importante para qualquer actor, para não perder a sua identidade. É lógico que somos contaminados. Não fazemos as coisas por fora. Até chegar a casa demoro um bocadinho a expulsar a Blanche de dentro de mim. Blanche tomou mais conta de mim do que eu esperava. Encontro coincidências em tudo, descubro sinais. Como se nada fosse por acaso. Dou por mim a dizer frases dela em circunstâncias banais. Um exemplo: "A crueldade intencional não se pode perdoar".

Voltemos à frase do João Perry, à cara pintada sobre a sua. Sabe sempre o que é a mascara e o que é o "eu"?

Sei. Acho que acontece à maior parte dos actores: somos simultaneamente exibicionistas e hiper-críticos connosco. Gostamos pouco de nós próprios. Se calhar por isso temos necessidade de nos transformarmos neste e naquele. De sair de uma coisa que não tem solução. A cara com que acordo é aquela cara, não é outra, mas gosto de a disfarçar.

Os actores não gostam de si próprios?, é um problema de auto-estima?

Sim. Somos sempre nós, mais as circunstâncias que nos rodeiam. Eu vivi entre pólos opostos. O lado da família da minha mãe e o lado da família do meu pai proporcionaram-me um choque - como existe nesta peça -, não só cultural. De um lado tinha uma família onde prevalecia o colo, as 30 e tal pessoas à mesa a almoçar, o apoio permanente, o conforto, a segurança, o optimismo. Do outro lado, o pessimismo, os pés na terra, o trabalho como valor primeiro, o ter cuidado a descascar a fruta para não desperdiçar. De repente, apetece-me mais identificar-me com o lado confortável. Mas depois começamos a crescer e a perceber que a vida é outra coisa, começamos a aproveitar do outro lado também. Há uma confusão: quem é que quero ser? Quero sair a quem? O que é mais importante? Foi uma coisa que nunca consegui resolver. Tentei, como faz parte da minha natureza, harmonizar. 

Mesmo que grite.

Mesmo que grite. Depois peço desculpa. Há coisas que não se explicam. Se fizer análise - nunca fiz -, se for ao fundo dos fundos... Até tenho medo. Não de ir ao fundo. Não quero é arrumar. Só quero ter arrumado aquilo que é suficiente para sobreviver com alguma tranquilidade.

Não quer arrumar porque usa essa matéria para trabalhar?

Exactamente. Essa falta de auto-estima tem-me dado tanto jeito, não a quero resolver. Isso manifesta-se quando tem de se manifestar, de preferência no trabalho.

Vamos à frase famosa: "I have always depended upon the kindness of strangers". Nesta versão, traduz-se "kindness" por bondade. Alguma vez disse essa frase?

Não, não gosto de desconhecidos [riso]. Não confio. E primeiro que um desconhecido passe a ser conhecido, ui. Numa peça que fiz, "O Indesejado", do Jorge de Sena, fazia um pequeníssimo papel, tinha imenso tempo livre. Conheci um fotógrafo americano que era uma brasa, daquelas brasas Marlboro Man que impressionam qualquer jovem com 19 para 20 anos. Ele devia ter 27. E queria levar-me. Só falámos duas vezes e percebi logo que nunca dependeria da bondade de estranhos... 

O que é que lhe desperta desejo? A peça chama-se "Um Eléctrico Chamado Desejo", mas antes de chegar a Desejo passa por um sítio chamado Cemitério.

Um eléctrico chamado desejo? Comecei a pensar: "Que disparate, então nós não temos [em Lisboa] um que vai para os Prazeres?" E outro da Glória. O que ainda me desperta desejo? Nadar. Dormir com as duas miúdas e acordarmos bem dispostas. Ter tempo. Ler. Ter tempo para reler "A Espuma dos Dias", do Boris Vian, que me marcou muito quando era novinha. Às vezes prefiro reler do que abraçar um desconhecido. O desejo de estar em paz, sem angústia.

Existe uma relação entre a Blanche e as outras mulheres que fez no teatro. São quase sempre sedutoras ou marginais ou à beira do abismo.

À beira do abismo, muito.

É escolhida para estes papéis? Escolhe estes papéis?

Não, eu nunca escolhi nenhum papel. Escolhem-me porquê? Posso encaixar nestas mulheres. Outras actrizes encaixam também. Não sou uma actriz cómica por excelência. Nesta peça, o Diogo encontrou mais rapidamente o que pretendia de mim nas cenas mais dramáticas, mais desequilibradas e desequilibrantes do que nas (supostamente) mais triviais. Aqui, nunca nada é trivial. Há sempre uma perturbação latente. Há sempre qualquer coisa, mais qualquer coisa. Qualquer coisa terrivelmente humana.

Alexandra, humana, terrivelmente humana...

[Gargalhada, seguida de riso melancólico] Com tudo o que isso implica. Cheirar a um perfume bom e cheirar demasiado a um perfume barato.

Evoco outra frase famosa que se pode aplicar a essas personagens que interpreta: "Nada do que é humano me é estranho".  

Sinto isso, que nada do que é humano lhes é estranho. Sempre ouvi a Eunice Muñoz dizer que temos de defender a personagem até ao fim. "É uma assassina? Temos de legitimar os actos dela." As pessoas têm de compreender a motivação da personagem. Porque é que ela levantou o copo nesta altura e não na outra. Porque é que não esperou. Porque é que ela se podia ter salvo e não se salvou.

Porque é que não se salvou?

A Blanche já não teve forças.

E você, está a salvar-se?

Espero muito bem que sim. Espero que Deus me ajude porque é exactamente disto que preciso para começar, para recomeçar.

Manuela de Freitas e Mariana Rey Monteiro interpretaram Blanche no passado. Procurou informação sobre essas representações, quis ver fotografias?

O Diogo pediu-nos muito, a todos, para não vermos o filme. Tinha visto o filme há muitos, muitos anos, e eventualmente revi-o na televisão. Tenho o filme em casa, em DVD. Estive três ou quatro vezes com o CD na mão..., foi difícil vencer a tentação. Mas não o vi. Nem vi a Manuela de Freitas [em 1990]. Não sei se já era nascida quando a Mariana a representou [1963]. Os meus pais viram-na. A minha mãe falou-me de uma imagem que nunca esqueceu: a da Mariana, que fazia sempre as meninas pudicas, recatadas, intocadas, a descer uma escada de combinação. Era uma imagem sensual. Não quis saber mais. Quis descolar.

Gena Rowlands, que é uma actriz que admira, interpreta uma mulher preocupada com o envelhecimento em "Rostos" [de John Cassavetes]. O filme ocorreu-lhe durante o processo de construção da Blanche? Mais do que envelhecimento, na peça trata-se de decadência. Muitas vezes coexistem.

Ocorreu. Mas, mais uma vez, procurei não ver. A tentação seria... não é imitar, não é calcar, como num desenho; é ir por ali. Tentar fazer a pausa no mesmo sítio. Gostava de me parecer com ela, mas não me pareço. Sou um tipo de actriz diferente. Talvez eu tenha uma intensidade eléctrica e ela uma intensidade estática. Tão esmagadora. Ocorreu-me a Gena Rowlands, também, por causa da zona de desequilíbrio que leva à loucura, no "Uma Mulher sob Influência". Há uma cena mágica, depois de ela vir da casa de saúde, quando se pensa que está bem, mas ainda não está; senta-se no alpendre e o espectador sente que alguma coisa se passa nas suas costas; sente, mas não vê, o cabelo tapa. Ela diz assim: "Porque é que as vossas mãos pequeninas são aquelas que me sabem melhor?" (Isto dito assim parece um poema foleiro! Ah, não devia dizer foleiro. Um poema de fraca qualidade. Como seria se fosse escrito por mim).

Mãos pequeninas?

Vi o filme antes de ter filhas e depois de ter filhas. Mas eu já sabia que aquelas mãos eram as que sabiam melhor. O toque das minhas filhas... Não quero que elas se assustem, que pensem que eu e Blanche somos a mesma pessoa. Em casa dizem que a mãe anda muito enervada, sem paciência. Gostava que elas percebessem que levo para casa bocadinhos da Blanche, mas que não sou a Blanche. Thank God. Ela sofre muito mais do que eu, coitadinha.

* Com Tiago Bartolomeu Costa