"O meu rosto é o reflexo do que vivem todos os sarauís"

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A activista Carmen Roger, ontem, na chegada a Tenerife DESIREE MARTIN/AFP

Catorze activistas juntaram--se num protesto na capital do Sara. Onze foram presos e espancados pela polícia marroquina. Ontem, regressaram às Canárias

Chegaram, como previsto, às dez da manhã a Las Palmas. Pela hora de almoço aterravam em Tenerife e eram recebidos por activistas e jornalistas: os 14 membros da Associação Canária de Amigos do Povo Sarauí que organizaram sábado um protesto em El Aaiún, no Sara Ocidental, estavam ontem contentes com a repercussão da sua iniciativa. Onze foram agredidos e detidos pela polícia marroquina.

"O meu rosto é o reflexo do que vivem as mulheres e os homens sarauís. Logo depois da nossa manifestação, houve sarauís a saírem à rua nos seus bairros. Foram reprimidos. Quando eu estava no hospital tinha uma mulher com a cara desfeita na cama ao lado", disse ao PÚBLICO, por telefone, Carmen Roger, 59 anos, professora na reforma e defensora há 35 anos do direito dos sarauís a decidirem sobre o seu futuro. Foi em 1975 que Marrocos se apoderou da ex-colónia espanhola.

A acção dos 14 canários, 13 de Tenerife, foi a primeira de uma série de iniciativas baptizadas SaraAcção, espera Carmen Roger. "Eu creio que uma acção como a nossa tem de ter continuidade. Estrangeiros, não sarauís, têm de ir ao Sara e sujeitar-se a isto, para que fique claro como agem os marroquinos. O que nós queremos é que se realize o referendo e que os sarauís decidam livremente se querem ser independentes ou parte de Marrocos", explicou a activista.

As Nações Unidas decidiram há muito a realização desse referendo, mas Marrocos nunca permitiu que se reunissem as condições para a consulta. À hipótese de os sarauís decidirem sobre o seu futuro, Rabat contrapõe a oferta de propostas de autonomia.

Mais de cem polícias

Os activistas decidiram em Tenerife o que iam fazer. Depois, partiram sozinhos ou em pequenos grupos, para não chamarem a atenção das autoridades marroquinas. Carmen Roger voou directamente de Las Palmas para El Aaiún. Roberto Mesa, de 20 anos, passou antes por Marrocos.

Pelas 18h30 de sábado, descreveu Mesa ao PÚBLICO, reuniram-se numa rua de El Aaiún e tiraram das malas cartazes e bandeiras. "Mais de cem polícias à paisana lançaram-se sobre nós. Deitaram-nos ao chão, deram-nos pontapés, bateram-nos com paus e cassetetes. A mim deram-me golpes no pescoço, nas costas. Tive de ir ao hospital com a Carmen, nós éramos os dois mais magoados." Três conseguiram fugir, onze foram detidos.

Foi no hospital civil da cidade que os médicos os viram mas que os polícias que os acompanhavam lhes confiscaram as receitas. Os dois não puderam medicar-se até chegarem a Tenerife, ontem, onde voltaram a ser vistos por médicos. "Não tenho contusões internas. Fisicamente, o impacto é aquele que se vê", disse Carmen Roger.

Os activistas passaram horas numa esquadra, onde alguns foram interrogados; outros não. Roberto Mesa esteve aí oito horas: "Fui o último a sair." Estiveram o resto do domingo na Casa de Espanha da cidade, onde estava um funcionário que, dizem, não lhes deu quaisquer garantias de protecção. "Estávamos com medo. Tivemos de ser nós a contactar os nossos familiares para os tranquilizar. De Madrid, não recebemos nada."