Crónica

Mona Eltahawy: Eu quero banir a burqa - em toda a parte

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Mona Eltahawy

Sou muçulmana. Sou feminista e detesto o véu integral, conhecido como niqab ou burqa. Apoio a interdição deste véu - em toda a parte e não apenas na Europa - porque equipara a piedade ao desaparecimento das mulheres. Porque representa uma ideologia que diz à mulher: quanto mais próxima estás de Deus, cada vez menos Ele te deve ver.

Estou consciente de que aqueles que querem proibir a burqa na Europa são sobretudo partidos e políticos racistas, intolerantes e de extrema-direita que pouco se importam com os direitos das mulheres. Mas também fico horrorizada ao ouvir a defesa do niqab e da burqa na Europa com argumentos de feminismo e liberalismo. Um politicamente correcto bizarro atou as línguas daqueles que normalmente se unem em defesa dos direitos das mulheres mas que agora estão a sacrificar esses mesmos direitos em nome da luta contra essa direita cada vez mais poderosa.

Eu recordo a esses defensores do niqab e da burqa que há duas direitas à volta dos véus integrais e que devem resolutamente confrontar ambas se, efectivamente, se importam com as mulheres e os seus direitos.

Embora eu abomine a xenofobia da direita [política na Europa], também condeno a misoginia da direita muçulmana, cuja ideologia promove o niqab e a burqa. O véu integral não é um símbolo do islão como a direita política e a direita muçulmana alegam. O véu integral é apenas símbolo da direita muçulmana.

Eu digo aos que defendem o "direito de escolha" das mulheres a usar o véu integral que eles estão a apoiar uma ideologia que só atribui um direito às mulheres - o de cobrirem os seus rostos. Conheço bem essa ideologia, designada por salafi smo. É frequentemente associada à Arábia Saudita, onde passei a maior parte da minha adolescência e onde é visível que as mulheres são tratadas perpetuamente como crianças, proibidas de conduzir automóveis, de viajar sozinhas e até de se submeter a cirurgias simples sem a autorização de um "guardião" masculino. Seja na Arábia Saudita ou na França, esta ideologia ensina às mulheres que elas arderão no Inferno se uma ínfima parcela do seu corpo estiver exposta. Não há escolha neste condicionamento. Esta não é uma mensagem que os muçulmanos aprendam no seu livro sagrado, o Corão, e o véu que oculta o rosto nem sequer é recomendado pela maioria dos teólogos muçulmanos.

Sempre que vou de Nova Iorque, onde resido agora, para o Cairo, interrogo-me sobre o que Huda Shaarawi, a pioneira feminista egípcia, diria se visse como tantas das suas irmãs estão a desaparecer por detrás do véu que lhes esconde a face. Ao regressar de uma conferência internacional sobre mulheres na Itália, em 1923 - sim, já tínhamos feministas nessa altura no Egipto -, Shaarawi ficou famosa ao retirar o véu, numa estação de comboios do Cairo. No Egipto, podemos não ter queimado os nossos soutiens, mas alguns descreveram o gesto de Shaarawi como tendo sido muito mais incendiário para a época.

Eu usei lenço na cabeça durante nove anos.

Uma discussão que tive numa estação de metro no Cairo com uma mulher que usava burqa ajudou a selar para sempre a minha recusa em defender o véu. Vestida de negro da cabeça aos pés, a mulher perguntou-me por que não envergava eu a burqa. Apontei para o meu lenço e perguntei-lhe: "Isto não é suficiente?" "Se tu quisesses um rebuçado, escolherias aquele que está embrulhado em papel ou o que não está?" retorquiu ela. "Eu não sou um rebuçado", ripostei. "As mulheres não são rebuçados." Desde então tenho ouvido argumentos a favor da burqa em que a mulher é descrita como um anel de diamantes ou uma pedra preciosa que precisa de ser escondida para provar o seu "valor". Se não contestarmos isto, a burqa - e, subsequentemente, a ocultação da mulher - tornar-se-á o pináculo da piedade. Não permitirei que o meu feminismo e liberalismo sejam usados para defender algo que é a antítese, simultaneamente, do feminismo e do liberalismo.

Como chegámos até aqui? Por que é que, em países onde as mulheres sempre lutaram pelos seus direitos, tem havido este silêncio face ao aparecimento das burqas e dos niqabs? Os liberais - que deveriam ser baluartes contra a direita política e a direita muçulmana - recusam-se desde há muito tempo a discutir com profundidade o que signifi ca ser europeu, o que signifi ca ser muçulmano, o racismo e a imigração. Os liberais que lamentam a proibição das burqas como sendo uma violação dos direitos das mulheres deveriam perceber que a ausência de debate sobre estas questões críticas permitiu à direita política e à direita muçulmana aproveitarem-se da situação.

Também os muçulmanos têm estado silenciosos. A ideologia ultraconservadora salafi sta tem deixado a sua marca no islão, de um modo global, ao persuadir demasiados muçulmanos de que [esta corrente] constitui a forma mais elevada e pura da nossa fé.

Se os liberais da Europa se devem interrogar sobre o seu silêncio, os muçulmanos devem colocar a si próprios a mesma questão: porquê o silêncio à medida que as nossas mulheres se desvanecem em negro, quer na forma de política identitária quer na aquiescência ao salafismo? O racismo e a intolerância que as minorias muçulmanas enfrentam em muitos países - como a França, que tem a maior comunidade muçulmana na Europa, e a Grã-Bretanha, onde dois membros do xenófobo Partido Nacional Britânico foram, vergonhosamente, eleitos para o Parlamento Europeu - são uma realidade.

Mas a melhor maneira de a combater não é com o silêncio da esquerda e dos liberais. A melhor maneira de apoiar as mulheres muçulmanas será dizer que nos opomos tanto à direita racista como aos niqabs e às burqas, que são produtos da direita muçulmana.

Não devemos sacrificar as mulheres a nenhuma destas duas direitas.

Mona Eltahawy

Nasceu em 1 Agosto de 1967 em Port Said, no Egipto. Viveu no Reino Unido, na Arábia Saudita e em Israel. Antes de se mudar para os Estados Unidos, em 2000, foi correspondente da Reuters no Médio Oriente durante vários anos, designadamente no Cairo e em Jerusalém - a primeira jornalista egípcia a viver e a trabalhar para uma agência noticiosa ocidental em Israel. Investigadora e comentadora de questões árabes e muçulmanas, em particular sobre o movimento de blogging e redes sociais no mundo árabe, é também colunista de Al Arab (Qatar), Politiken (Dinamarca), Metro Canada e Jerusalem Report. Os seus artigos são frequentemente publicados no Washington Post e no International Herald Tribune. É convidada regular para debates na BBC e CNN. Em 2005, a American Society for Muslim Advancement reconheceu-a como Muslim Leader of Tomorrow e, em 2009, a União Europeia atribuiu-lhe o Prémio Liberdade de Imprensa Samir Kassir. Este ano, foi galardoada com o Prémio Eliav-Sartawi para o Jornalismo no Médio Oriente.