João Chagas, o jornalista panfletário

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João Chagas na sua casa, tomando o pequeno-almoço (1910) JOSHUA BENOLIEL/ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA

Dirigiu e escreveu para vários jornais, lutando pelo ideal republicano e contra a censura monárquica. Os seus textos levaram-no ao degredo em Angola, ao exílio em Paris e à prisão no seu próprio país. Optando pela via revolucionária, Chagas nunca abandonou a crítica acutilante. Nem mesmo quando Portugal já era uma república. Por Conceição Meireles Pereira

Nasce no Rio de Janeiro, a 1 de Setembro de 1863, descendente de liberais das Beiras que nas guerras civis se exilaram no Brasil. Da mãe, ameríndia, João Chagas recebe traços da miscigenação, do pai a capacidade de resistência e a infrene defesa da causa da liberdade que aos seus antepassados custara o confisco dos bens, o cárcere, o exílio e até a vida. Vem em criança para Lisboa, onde inicia a sua educação num colégio austero, e a orfandade que conhece ainda menino dita-lhe uma mocidade de trabalho. Aos 16 anos ruma ao Porto, cidade que representou a sua "primeira hora de Liberdade". Com ternura, recordará mais tarde a hospitalidade portuense, a camaradagem da juventude boémia, o contacto com vultos como Basílio Teles e Sampaio Bruno.

Dois anos depois, sem posses para ingressar no ensino superior, João Chagas completa a sua formação com viagens a França, a pátria do "grande Victor Hugo", cuja cultura admirava sobre qualquer outra, e à Bélgica, mas a sua grande escola será o jornalismo. Com 20 anos inicia-se no jornal que logo lhe reconhece génio e talento e ao qual, ao longo dos anos, não negará colaboração - O Primeiro de Janeiro -, onde inova no noticiário e na reportagem. Retorna a Lisboa para trabalhar no Tempo, que logo se afirma como um dos melhores diários da capital, colaborando ainda nos periódicos Correio da Manhã e O Dia. Trava então conhecimento com os Vencidos da Vida, tornando-se amigo de alguns dos seus membros como Carlos Lobo d"Ávila, dirigente progressista que em vão o convida para deputado e, sobretudo, Bernardo Pindela, futuro conde de Arnoso e secretário de D. Carlos. Também alguns familiares estão confortavelmente instalados em cargos da monarquia como o primo Manuel Pinheiro Chagas e seu filho Mário, que lhe devotavam respeito e admiração, algum amparo até em horas difíceis, apesar de militarem em campos opostos.

Mas o seu temperamento e ardor pela intervenção reclamam novos entusiasmos, arrebatados ideais. E estes surgem denodadamente na crise do Ultimato (11/01/1890), momento que marca o início da sua luta republicana - adere então ao Partido Republicano Português - num combate estrénuo que até ao 5 de Outubro se confunde com a sua própria existência. Chagas recusa, desde então, a via reformista, postulando a revolucionária.

Na altura da sua morte, Carlos Olavo expressou no Diário de Notícias (1 de Junho de 1925) a devoção inteira a essa causa: "A figura de João Chagas implica uma página das mais sugestivas da história da República. Direi melhor da pré-história porque a sua acção começa vinte anos antes da implantação do regime. (...) Traçar o perfil político de João Chagas é escrever a história desse período imediatamente anterior à implantação da República no que ela tem de mais emocionante de mais agitado e de mais febril. Em todos os acontecimentos que nele se desenrolaram João Chagas teve sempre um papel dominante."

Propaganda republicana

Logo idealiza fundar um jornal de propaganda republicana, um verdadeiro meio de acção política, mas a mobilização em Lisboa seria reduzida; por outro lado, no Porto, a Liga Patriótica simbolicamente presidida por Antero acusava fracturas entre republicanos conservadores e revolucionários, além dos socialistas. Era lá que Chagas devia iniciar o seu projecto jornalístico de proselitismo republicano.

Em Abril já está no Porto, mês em que sai o jornal República, coadjuvado por Bruno e Manuel Emídio Garcia, professor de Direito em Coimbra e pioneiro da difusão do positivismo em Portugal. Mas este periódico não corresponde aos seus objectivos, pelo que a 1 de Setembro de 1890 sai A República Portuguesa, esse sim conforme aos seus desígnios, ostentando no editorial do primeiro número a inequívoca afirmação: "A obra deste jornal será inteiramente e desassombradamente revolucionária."

É, pois, no Porto, "o único centro de população portuguesa susceptível de soltar o primeiro grito de liberdade de que nos propúnhamos ser os intérpretes" (História da Revolta no Porto), que A República Portuguesa cumpre a sua missão já que, como explica Fernando Catroga, com ele "o republicanismo ganhou uma voz em que à contundência do anátema se acasalou a elegância do estilo na denúncia de situações ignominiosas e opressoras". É notório o êxito editorial deste diário matutino que conta com a colaboração de grandes intelectuais republicanos. O primeiro número, às oito da manhã, tinha já vendido dez mil exemplares, mas as tiragens aumentam sucessivamente, chegam a fazer-se duas edições diárias, sendo uma delas de seis milhares só para Lisboa, enquanto os agentes da província reclamam diariamente remessas maiores; todavia, os prelos não chegam para as encomendas.

A primeira página d"A República Portuguesa assemelha-se a um panfleto - com grafismos sugestivos e títulos contundentes -, os seus textos a libelos acusatórios contra a monarquia, o rei e os políticos, a sua mensagem é provocatória e o seu fito subversivo. Simultaneamente, A República Portuguesa constitui, como Chagas diria mais tarde, um clube, pois congrega o movimento revolucionário do Norte que conspira o assalto ao poder e vai desembocar no 31 de Janeiro. Compreende-se que Trindade Coelho tenha reconhecido em José Falcão, Basílio Teles e Sampaio Bruno "os expoentes mentais da escola cívica e filosófica do 31 de Janeiro; mas foi João Chagas quem traduziu, para a avidez da grande massa agitada, através das colunas dos jornais, o espírito desta escola".

Protesto e esperança

Apesar da sua inequívoca cumplicidade no pronunciamento republicano do Porto, quando este se manifesta Chagas está na cadeia cumprindo o quarto dia de prisão dos dez a que havia sido condenado pelo artigo Basta. A revolta fracassa, na sua opinião por falta de envolvimento popular, mas atribui-lhe uma importância extraordinária pois consagrara a ideia republicana em Portugal.

É no contexto repressivo que se segue ao 31 de Janeiro que A República Portuguesa desaparece e João Chagas é julgado nos célebres tribunais militares de Leixões e condenado ao degredo para Angola de onde consegue evadir-se, chegando a França em Janeiro de 1892. No mês seguinte, ei-lo de volta ao Porto, mas a situação de clandestinidade torna-se insuportável pelo que decide regressar a Paris. Todavia, para Chagas o exílio não é sinónimo de inacção. Ainda em Fevereiro surge na invicta o diário da tarde A Portuguesa, concebido e escrito por um grupo ilustre de republicanos no qual ele se integra. A partir de inícios de Maio assume a sua direcção e a dimensão combativa recrudesce, desde logo visível no grafismo do título, que passa a ser A Portuguesa, ostentando um provocatório espaço que representava a palavra "República", agora proibida pelas novas e mais restritivas leis da imprensa. Esse espaço em branco era, segundo o periódico, "um protesto e uma esperança".

João Chagas chega ao Porto a 6 de Setembro, mas uma semana depois é preso e novamente degredado para África, passando a enviar de Luanda os seus artigos políticos. Também os seus Panfletos (1893-1894) foram logo objecto de querela judicial.

Após uma viagem de alguns meses ao Brasil, iniciada no Outono de 1895, regressa à ribalta do jornalismo em Agosto de 1896 e volta a esgrimi-lo como uma arma, desta feita em Lisboa, fundando A Marselhesa, uma vez mais na linha do republicanismo revolucionário, "guerreiro" como o título sugere. Em Novembro do ano seguinte, este jornal publica um suplemento com caricaturas de Leal da Câmara que, a partir de 1 de Janeiro de 1898, se passa a designar Semanário de Caricaturas mas que termina a publicação em 25 de Dezembro desse ano devido ao cerceamento da liberdade da imprensa, tónica da política monárquica na última década de Oitocentos. A Marselhesa não lhe sobrevive por muito mais tempo pois apesar de ter começado com tiragens na ordem dos 25 mil exemplares e de conseguir razoável penetração na província, os tempos eram outros e os novos mecanismos censórios legitimam perseguições policiais e assaltos que asfixiam a empresa e ditam o seu encerramento a 12 de Janeiro de 1898. Com efeito, A Marselhesa é apreendida e impedida de circular em várias ocasiões, sujeitando-se a uma rigorosa censura diária.

João Chagas é novamente julgado e preso no Limoeiro, dirigindo o jornal do cárcere, desde Novembro de 1896 até à amnistia decretada pelo Partido Progressista em Fevereiro seguinte. Mas, desgastado pelos vários processos de querela e pelo aumento dos casos de repressão, o jornalista suspende a sua escrita para A Marselhesa, pouco antes do termo do periódico, e emigra para Madrid. Desta cidade colabora n"O País, cuja direcção assume logo a seguir ao desaparecimento d"A Marselhesa. Mas a censura continuava a não dar tréguas e este diário é suprimido a 19 de Julho de 1898. Chagas só escapa porque permanece em Espanha. Mesmo assim, o jornal renasce menos de uma semana depois, sob o nome A Lanterna, conseguindo um recorde de 17 querelas em três meses, vindo a terminar a 1 de Março de 1899. Como explica Chagas no editorial que enviara dalém fronteira, "esse jornal não é novo é apenas o título". Nesta guerra insana contra a censura monárquica o jornalista resiste: em Maio regressa do exílio e substitui Heliodoro Salgado na direcção do jornal Batalha, imprimindo-lhe a sua marca até ao fecho, a 6 de Dezembro de 1900. A sua última detenção deveu-se ao envolvimento na conspiração de 28 de Janeiro de 1908: quando se dá o regicídio e a queda de João Franco, Chagas está novamente preso. Aproxima-se a revolução vitoriosa do 5 de Outubro em cuja preparação também se envolve.

Muito mais haveria a dizer sobre o jornalista e conspirador, o crítico literário e escritor que foi um dos fundadores da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto e, na I República, diplomata e chefe do I Governo Constitucional. Lembremos apenas que após a implantação do regime por que se havia tão ardentemente batido, não deixou de exercer a sua crítica acutilante, sempre que necessário e com a mesma coragem, para verberar os desacertos da República e dos republicanos.

Professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto?

Segunda-feiraQue República? Por Gaspar Martins Pereira?

Esta série tem o apoio da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República