Portugal está a ganhar com exportações da Alemanha

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Além da subida das vendas à Alemanha, Portugal tem diminuído as importações deste país MAURIZIO GAMBARINI/AFP

Empresas de sectores como maquinaria, borracha, plástico e moldes estão a abastecer e a aproveitar o bom momento alemão

Nos primeiros cinco meses do ano, as exportações para a Alemanha, a partir de empresas sediadas em Portugal, atingiram os 1878 milhões de euros, ou seja, mais 7,9 por cento do que em idêntico período de 2009. E as importações desceram.

Isto numa altura em que a Alemanha tem sido acusada de crescer à custa da sua máquina exportadora, sem implementar medidas para aumentar o consumo interno e não ajudando os outros países da zona euro. Apesar destas críticas, proferidas por personalidades como a ministra da Economia da França, Christine Lagarde, o certo é que, de acordo com os dados divulgados esta semana, no caso português, o modelo de crescimento alemão acaba por trazer alguns benefícios.

As vendas da Alemanha ao estrangeiro subiram 8,2 por cento entre Abril e Junho face ao trimestre anterior, mas ao mesmo tempo as importações cresceram sete por cento nesse mesmo espaço temporal.

No caso de Portugal, Cristina Casalinho, economista-chefe do departamento de estudos do BPI, diz que o crescimento das exportações para a Alemanha não tem a ver com uma subida das vendas ao consumidor final, mas sim com a necessidade de abastecimento das empresas exportadoras alemãs. E esse facto tem sido aproveitado por diversas fábricas portuguesas.

Vender a bons clientes

Olhando para os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) referentes aos primeiros cinco meses do ano (e que são os dados mais recentes), o que se verifica é que indústrias ligadas a sectores como veículos automóveis e acessórios, máquinas e aparelhos mecânicos ou eléctricos, borracha, plástico e produtos químicos têm beneficiado com a força da máquina exportadora alemã (já o calçado, por exemplo, caiu para 94,9 milhões de euros no período em análise, contra os 112,4 milhões de 2009 e os 124,6 milhões de 2008).

Em alguns destes sectores, ainda não se voltou aos níveis que se verificavam antes de a crise eclodir, em 2008, mas há casos, como na borracha e nos plásticos, que até já os superaram.

O secretário-geral da Associação Nacional da Indústria de Moldes, Manuel de Oliveira, não tem dúvidas de que, actualmente, a Alemanha é o principal comprador dos produtos nacionais. Este responsável explica que o sector exporta bens intermédios (máquinas e equipamentos) "que são depois utilizados na indústria alemã, em variadíssimos sectores".

Para Cristina Casalinho, verifica-se aqui uma conjugação de dois grandes factores. Por um lado, há o crescimento das exportações, motor da economia alemã (com a produção de riqueza a subir 2,2 por cento, incluindo aqui uma subida suave do consumo interno de 0,6 por cento). Por outro, verifica-se um bom momento de alguns sectores industriais nacionais, que souberam "conter os custos e manter a competitividade", beneficiando da deslocalização de alguma produção da Alemanha, que importa os materiais que necessita para o seu ritmo de exportações.

No caso português, este dado tem uma maior relevância quando se verifica que as importações de bens alemães desceram. Nos primeiros cinco meses de 2009 as exportações alemãs para Portugal valiam 2850 milhóes de euros, valor que desceu para 2532 milhões de euros no mesmo período deste ano. Ou seja, o défice comercial com a maior economia europeia desceu (apesar de, em termos globais, a balança comercial se ter agravado até Maio).

Fazendo uma análise mais geral, o presidente da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, Basílio Horta, destaca que a subida das exportações para a Alemanha "enquadra-se no aumento geral das exportações portuguesas, que, de Janeiro a Maio, subiram 15,4 por cento". Aqui, destacam-se os mercados tradicionais, como os da Europa ou os EUA, em detrimento de emergentes como Angola (que caiu 22,1 por cento face aos primeiros cinco meses de 2009). No caso concreto da Alemanha, diz, "é o segundo país destinatário das nossas exportações e o primeiro em termos de qualidade do investimento estrangeiro". Daí que, segundo Basílio Horta, se considere este mercado "como estratégico para a internacionalização da economia portuguesa". com Rosa Soares