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Simão Sabrosa abandona selecção antes de perder lugar

Simão é o quinto português mais internacional de sempre
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Simão é o quinto português mais internacional de sempre José Manuel Ribeiro/Reuters

Simão Sabrosa é o quinto futebolista com mais jogos pela selecção (85) e o nono melhor goleador (22). Tem 30 anos e enviou há alguns dias uma carta a Gilberto Madaíl, presidente da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), renunciando à selecção. O jogador justificou a saída com razões pessoais, sublinhando que assim também dá "espaço a novos valores".

A renúncia de Simão Sabrosa surge numa altura em que o avançado do Atlético de Madrid estava a perder espaço na selecção. No Mundial 2010, e mesmo com a lesão de Nani, só foi titular em dois dos quatros jogos de Portugal, um cenário que poderia agravar-se agora na fase de qualificação para o Euro 2012, com o regresso de Nani, além dos reaparecimentos de Varela e Quaresma. A Rádio Renascença (RR) avançou mesmo que Simão não seria convocado para os jogos com Chipre e Noruega, apesar de estar no lote dos pré-convocados.

Algumas fontes na FPF contactadas pelo PÚBLICO entendem a despedida de Simão como mais uma, típica dos finais de Mundiais e Europeus, em que alguns futebolistas preferem dedicar-se em exclusivo aos clubes ou terminar mesmo a carreira. Foi assim com Petit (Euro 2008), Figo e Pauleta (Mundial 2006), Rui Costa (Euro 2004) e Jorge Costa, Paulo Bento, Paulo Sousa e Pedro Barbosa (Mundial 2002).

Elogios de Queiroz

Depois de Deco, que anunciou a retirada com antecedência, Simão é o segundo jogador a despedir-se da selecção após o Mundial 2010. O avançado era um dos "trintões" que podiam ter a tentação de pensar numa despedida - o PÚBLICO sabe que Ricardo Carvalho (32 anos) se mantém disponível para a equipa das "quinas".

Mas a decisão de Simão não é vista por todos como um passo natural num jogador que está a perder espaço na selecção e quer dedicar-se ao clube, onde a concorrência aumentou. Alguns críticos de Carlos Queiroz não desligam esta renúncia do alegado mal-estar entre alguns futebolistas e o seleccionador. "Estou convicto que a carta de Simão se prende com divergências com a liderança técnica da selecção. O futuro dirá se tenho razão. E vamos ver se outras renúncias não aparecem", diz ao PÚBLICO António Boronha, ex-vice-presidente da FPF.

O antigo treinador Octávio Machado também faz uma ligação entre a renúncia do jogador e Queiroz. "Conheço o Simão, e quando se toma uma decisão destas, tem a ver com o relacionamento com alguém", acusa Octávio, em declarações à RR.

Na carta enviada a Madaíl, e só ontem revelada pela FPF, Simão não se refere a Queiroz, embora o PÚBLICO saiba que o extremo falou com o treinador antes do anúncio da despedida. O seleccionador suspenso elogiou o atleta, considerando-o um "profissional exemplar, jogador de futebol exímio": "Deixa atrás de si mais uma história fantástica, sendo um modelo de referência", disse Queiroz ao site do seu empresário, por a FPF não ter publicado a declaração no seu site.

Simão deixa a selecção aos 30 anos (completa 31 em Outubro) e numa altura em que é o quinto mais internacional de sempre (85), apenas atrás de Figo (127), Fernando Couto (110), Rui Costa (94) e Pauleta (88). Após a estreia pela selecção principal aos 19 anos, teve uma carreira longa e era o sucessor natural de Figo como capitão (mas foi-o apenas sete vezes), tendo visto a braçadeira ser entregue a Cristiano Ronaldo.

Leia a carta de Simão à FPF

Exmo. Senhor Presidente, Dr. Gilberto Madaíl,

Venho, pelo presente, e formalmente, comunicar junto de V.Exa. que, a partir desta data, e em virtude de motivos de ordem pessoal, não poderei estar disponível para representar oficialmente, e como jogador profissional, a Selecção Nacional de Futebol.

Na verdade, e após uma profunda reflexão, acredito que chegou o momento de colocar um termo à minha presença enquanto jogador profissional a representar a nossa Selecção dentro de campo, dando assim espaço também a que novos valores possam fazer o seu percurso de sucesso, tal como também a mim no passado me foi dada essa oportunidade.

Recordo ainda hoje com muito orgulho o dia em que, com 15 anos, representei Portugal pela primeira vez, e desde essa data outros fantásticos momentos como ter sido Campeão Europeu de Sub16, a minha primeira internacionalização A contra Israel jogo em que marquei também um golo, ter sido Vice-Campeão Europeu em 2004 naquele que foi considerado o melhor Europeu de sempre e organizado pelo nosso País, bem como ainda o Mundial de 2006 em que vivi os melhores momentos que jamais esquecerei.

Foi uma tremenda honra e prazer vestir a camisola da Selecção Nacional e representar e servir Portugal durante todos estes anos, e estou extremamente orgulhoso por ter feito parte de equipas tão extraordinárias que conquistaram tantas vitórias neste mundo do futebol.

Estou igualmente agradecido a todos com quem vivi os meus momentos na Selecção Portuguesa de Futebol, designadamente, colegas, médicos, massagistas, seleccionadores, treinadores, corpo técnico e dirigentes, por todo o apoio, formação, experiência e conduta que me transmitiram e que partilharam comigo ao longo de todos estes anos.

Aproveito esta oportunidade para partilhar que continuarei sempre a apoiar a Selecção de todos nós fora das quatro linhas, e ainda para desejar a todos os maiores sucessos futuros.

Com Amizade,

Simão Sabrosa

Notícia actualizada às 12h30, de 28/08/2010