Presente envenenado

Richard Kelly tem uma panca com o fim do mundo. Lembram-se certamente do sinistro coelho profeta que assombrava Jake Gyllenhaal no filme que os revelou (ao actor e ao realizador), já lá vão quase dez anos, "Donnie Darko" (2001). Não se lembram do apocalipse de "Southland Tales" (2006), o seu controverso segundo filme, porque nunca chegou às salas portuguesas. Agora, "Presente de Morte" (patético título português para o conciso original "The Box") flecte flecte insiste insiste, ao regressar no tempo a 1976 para acompanhar o modo como uma simples caixa de madeira com um botão pode ser uma intimação existencialista do apocalipse anunciado.


Richard Kelly tem também uma panca com os subúrbios. E, depois da "smalltown" perfeitinha de "Donnie Darko", "Presente de Morte" ancora-se em Richmond, cidadezinha da Virginia perto do centro de pesquisas da NASA - e onde Kelly nasceu e cresceu, atribuindo às personagens principais do seu filme a verdadeira profissão do seu pai e a verdadeira deficiência física da sua mãe.

Como convém a um miúdo hiper-imaginativo, o que Kelly faz ao projectar as suas experiências e as suas obsessões no conto original de Richard Matheson (senhor escritor e argumentista do cinema e da literatura fantástica, autor de muitos guiões da "Twilight Zone") é um exercício de materialização metafórica. Que abrange o livre-arbítrio, a fé, a moralidade, a escolha, o fatalismo, a responsabilidade, as consequências, as ambições, e que faz tudo isso através do "presente"/"caixa" do título: uma caixa que pode valer ao seu possuidor temporário um milhão de dólares caso ele decida premir o botão. Há, claro, um senão: premir o botão implica que alguém no mundo morra.

Ao transpôr a premissa do conto de Matheson para a década de 1970 sobre fundo de conquista espacial, Kelly trabalha ao mesmo tempo a memória do "thriller" paranóico e das teorias da conspiração de filmes como "A Última Testemunha" (Alan J. Pakula, 1974) ou "Os Três Dias do Condor" (Sydney Pollack, 1976), a ficção científica distópica e as crises económicas e políticas de uma altura em que os americanos tinham uma verdadeira desconfiança do governo. Filtra-as, em seguida, por um trabalho atmosférico meticulosamente construído, onde há sempre algo que não encaixa na reconstituição de época exacta - é legítimo invocar a subúrbia descentrada do "Veludo Azul" (1986) ou da série "Twin Peaks" (1989-1990) de David Lynch, mas "Presente de Morte" tem mais a ver com uma espécie de James Gray invertido.

O romantismo terminal e grandiloquente do realizador de "Duplo Amor" (2008) e "Nós Controlamos a Noite" (2007) é exactamente o mesmo de Kelly, só que este transporta-o para um território simultaneamente hiper-real e surreal, esquinado, onde tudo é sublinhado e amplificado pela consciência do estilo mais do que do género (enquanto Gray raramente sai fora da codificação de género, Kelly navega entre a ficção científica, o terror e o melodrama como se não fosse nada com ele). Mas não é nada descabido compará-los, até porque ambos fazem figura de aves raras incompreendidas no seu país natal.

Percebe-se porquê: um como outro exploram um reverso da medalha escuro e perturbante que se dá mal com a imagem solar e optimista que Hollywood prefere dar da América. Por muito que "Presente de Morte" se passe em 1976, é também um filme que fala aos nossos tempos, e que o faz de um modo ostensivamente insidioso e genuinamente inquietante - o melhor thriller "de género" que vemos desde o aterrador "Nevoeiro Misterioso" (2007) de Frank Darabont (e, como ele, também um fracasso doloroso nas salas americanas). Faz sentido. Ninguém sai deste filme reconfortado.

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