Candidatos presidenciais do PCP pertenceram sempre à primeira linha do partido, tendo dois deles ascendido a secretário-geral dos comunistas

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Zenha na campanha de 1986

Desde as primeiras eleições para a Presidência da República após o 25 de Abril, em 1976, o PCP nunca falhou a apresentação de uma candidatura a Belém, embora tenha desistido de ir a votos por três vezes. Em todos estes actos eleitorais os candidatos escolhidos para disputar a Presidência pertenciam à primeira linha do partido, sendo figuras com um passado de resistência ao Estado Novo e um currículo partidário bastante relevante.

De 1976 a 2006 formalizaram as suas candidaturas, por esta ordem, Octávio Pato, Carlos Brito, Ângelo Veloso, Carlos Carvalhas, Jerónimo de Sousa, António Abreu e de novo Jerónimo de Sousa. A lista de nomes revela, por si só, que a selecção recaiu sempre em dirigentes muito próximos do secretário-geral, membros do núcleo duro da liderança comunista. Isto mesmo é sobretudo verificável em 1991 e em 1996: no primeiro ano, Carvalhas foi o candidato escolhido por Álvaro Cunhal e o seu peso partidário foi notório logo no ano seguinte quando o economista e deputado foi eleito sucessor do líder histórico; em 1996, a história repetiu-se, pois o então secretário-geral, Carvalhas, decidiu apresentar um candidato, Jerónimo de Sousa, que, oito anos depois, viria a ocupar o seu lugar na liderança do partido.

Nos restantes anos os candidatos a Presidente da República usufruíam igualmente de prestígio dentro e fora do partido: em 76, nas primeiras eleições presidenciais livres, Octávio Pato, líder parlamentar da bancada comunista na Assembleia Constituinte, candidatou-se contra Ramalho Eanes, Pinheiro de Azevedo e Otelo Saraiva de Carvalho; quatro anos depois, o PCP escolheu Carlos Brito, um histórico do partido, deputado na Constituinte, presidente do grupo parlamentar durante 15 anos e membro da direcção política desde 1967; em 1986, numa corrida a Belém que provocou uma enorme mobilização eleitoral em todo o país (Mário Soares acabou por derrotar Freitas do Amaral na segunda volta, por uma estreita vantagem), os comunistas optaram por Ângelo Veloso, um ex-deputado eleito pelo Porto, antigo preso político e membro do Comité Central (CC), que, apesar de ser um dirigente discreto, era tido como o número dois da direcção partidária; em 1991, um ano antes de Cunhal abandonar a liderança, Carvalhas candidatou-se à Presidência, tendo obtido o melhor resultado de sempre dos comunistas nas presidenciais (12,92 por cento); cinco anos depois, Carvalhas, então já secretário-geral do PCP, apresentou a candidatura de Jerónimo de Sousa, um deputado da Constituinte que, alguns anos mais tarde, viria a liderar os comunistas; para as eleições de 2001 (ainda evocadas pelos comunistas porque foi no dia das eleições, a 14 de Janeiro, que Cunhal reapareceu em público, para votar, depois de muitos meses de reclusão), Carvalhas escolheu um dirigente que fazia parte do seu núcleo duro, António Abreu, que, ainda em Outubro desse ano, integrou o lote de candidatos à Câmara de Lisboa pela coligação Amar Lisboa, composta por comunistas e socialistas e liderada por João Soares; finalmente, em 2006, ano em que toda a esquerda teve os seus candidatos presidenciais, Jerónimo, secretário-geral desde 2004, bisou a sua candidatura, tendo ficado em quarto lugar, com 8,64 por cento dos votos.

Apesar de os comunistas não terem falhado qualquer uma das sete eleições para Belém, decidiram, por três vezes, desistir a favor de outro candidato. Em dois desses momentos, o apoio recaiu em dois candidatos apoiados pelo PS: Carlos Brito, nas eleições de 1980, desistiu a favor de Eanes, que o PCP não apoiara quatro anos antes; e em 1996, perante o duelo Jorge Sampaio/Cavaco Silva, Jerónimo absteve-se de prosseguir a sua candidatura, anunciando apoiar Sampaio (o mesmo não aconteceu na recandidatura do socialista, em 2001, tendo António Abreu recolhido o pior resultado do partido em presidenciais).

A outra desistência aconteceu em 1986, quando Ângelo Veloso não foi a votos para favorecer Salgado Zenha, candidato do PRD e antigo dirigente do PS que entrara em ruptura com Mário Soares e com os socialistas. Zenha obteve 20,88 por cento dos votos, mas estas eleições exigiram uma segunda volta e, perante Freitas e Soares, o PCP não teve outra escolha: no final de um congresso extraordinário, convocado exclusivamente para debater o assunto, os comunistas resolveram apoiar o socialista, sabendo de antemão que a decisão produziria um duradouro amargo de boca. Ao fazê-lo, o PCP determinou a vitória de Soares, eleito Presidente com 51,18 por cento dos votos, contra os 48,82 por cento de Freitas.