Múmias do Museu de Arqueologia vistas ao raio X

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Vai demorar alguns meses a analisar a informação obtida ontem MIGUEL MANSO

Estudo inédito em Portugal vai permitir imagens de grande qualidade e inúmera informação sobre as múmias

Vamos ficar a conhecer os rostos das três múmias egípcias da colecção do Museu Nacional de Arqueologia (MNA). E, mais do que isso, vamos ficar a saber tudo - ou pelo menos muito - sobre a sua condição física na altura da morte, as técnicas usadas para o embalsamamento, o estado de conservação dos corpos e outros segredos que possam ter guardado durante mais de dois mil anos.

Pabasa, filho de Hor e sacerdote Semati, encarregue durante a vida de vestir a estátua do deus Min, foi a segunda múmia a entrar, ontem, nas salas do IMI (Imagens Médicas Integradas) para ser radiografada, primeiro, e em seguida submetida a uma TAC (tomografia axial computorizada).

Antes dela estivera nas mesmas salas uma múmia ptolemaica sem sarcófago e sem nome, e a seguir a Pabasa entrou, para os exames médicos, o sarcófago de Irtieru, a múmia mais antiga da colecção do MNA, e da qual se sabe apenas o nome.

Este estudo - inédito em Portugal -, baptizado como Lisbon Mummy Project, é resultado de uma parceria entre o IMI, que disponibiliza as instalações e a equipa de investigação coordenada por Carlos Prates, a Siemens, que patrocina o projecto e disponibiliza uma estação de trabalho de pós-processamento avançado da informação digital, o MNA, cujo director, Luís Raposo, coordena uma equipa que integra o egiptólogo Luís Araújo, do Instituto Oriental da Faculdade de Letras de Lisboa, e o arqueólogo Álvaro Figueiredo, do University College de Londres.

"Na última década tem-se feito muito este tipo de exames, mas em Portugal é a primeira vez. O que é inovador é a qualidade com que se vai obter os dados - e isso confere ao projecto um interesse internacional", sublinha Luís Raposo.

As três múmias chegaram às instalações do IMI na Avenida da República logo de manhã, num camião de transporte especial, com todos os cuidados para a conservação dos dois sarcófagos e do corpo sem sarcófago. Luís Araújo não escondia o entusiasmo com a possibilidade de os exames virem a revelar a existência de amuletos colocados entre as faixas que envolvem as múmias - algo bastante comum no Antigo Egipto. Mas ao princípio da tarde as imagens recolhidas no raio X e na TAC indicavam que nestas três múmias não existem amuletos.

Uma "frustração" para o egiptólogo, mas que não retira interesse ao projecto. As primeiras imagens da múmia ptolemaica rodavam já no computador - instalado na sala de trabalho do piso de baixo do IMI, baptizada "per-ankh" (casa da vida) - e permitiam já ver claramente que a dentição é perfeita. Ainda é cedo para tirar conclusões, e Carlos Prates mantém-se cauteloso, avisando que demorará alguns meses a analisar as "centenas de milhares" de imagens que se vão obter agora - "três meses para as primeiras impressões", arrisca.

Sabe-se que a múmia de Pabasa é proveniente da Colecção Palmela e foi doada ao museu em meados do século XX. A origem das outras é desconhecida, embora Luís Araújo admita que possa ser a mesma.

Reportagem no P2 de amanhã