Marilyn, a intelectual

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Marilyn não acaba. Marilyn é para sempre. Marilyn tinha diamantes como melhores amigos, era a loira que os "gentlemen" preferiam. Agora, novo capítulo Marilyn. Imagens inéditas - já são (quase) todas conhecidas. Radiografias únicas - também já foram vendidas (35 mil euros para levar o peito de Marilyn para casa). Escritos inéditos, por Marilyn a própria - isto sim é novo. Em Outubro (dia 12 em França, e algures em mais dez países), chega Marilyn Monroe autora em "Fragments", livro-compilação em que a actriz revela a sua frustração por ver o seu lado intelectual ignorado, por se ver confundida com os seus papéis.

"Fragments" são páginas de diário, poemas e apontamentos breves, cartas fac-similadas, recortes de jornal e fotografias pessoais que datam de 1943 até às vésperas da morte da actriz, em 1962. Além da perspectiva de Marilyn sobre aspectos da vida sentimental (diz a editora americana que ela fala sobre todos os seus amores), encontramos, "nos seus textos muito pessoais, James Joyce, que ela tinha descoberto aos 26 anos ao interpretar os extractos do mítico monólogo de Molly", explicou Bernard Comment, o editor francês de "Fragments", ao "Le Figaro".

Mais: "Ela também admirava Samuel Beckett desde que começou a frequenter o Actor's Studio. Mais surpreendente ainda, a sua fascinação pelo bardo Walt Whitman, fundador da poesia americana moderna".

A edição, franco-americana (parceria das Editions du Seuil com a Farrar, Straus & Giroux), parte do espólio de Marilyn, agora nas mãos de Anna Strasberg, viúva de Lee Strasberg (fundador do Actor's Studio). No final de 2008, Bernard Comment ouviu falar dos escritos dispersos de Marilyn num jantar. Editor na Seuil, Comment coligiu-os com o produtor Stanley Buchtahl. Estavam apontados em cadernos de argolas, papel de carta de hotel...

No prefácio, escreve Antonio Tabucchi: "No interior deste corpo vivia a alma de uma intelectual e poeta de que ninguém tinha um pingo de suspeita". Não será totalmente verdade. Em 1999, o seu exemplar de "Ulisses", de Joyce, foi vendido por 7100 euros num leilão da Christie's.

"Às vezes eu costumava escrever poesia, mas normalmente quando estava deprimida. Os poucos a quem a mostrei (na verdade, a duas pessoas) disseram que os deprimia - um deles chorou, mas era um amigo que eu conhecia há muito tempo", escreveu Marilyn ao poeta e amigo recente Norman Rosten no Verão de 1955.

Esse bilhete, escrito em papel timbrado do hotel Waldorf-Astoria, é recuperado em "Goddess - The Secret Lives of Marilyn Monroe" (Sphere), que por seu turno cita Rosten no seu "Marilyn: An Untold Story", de 1967. Aí se fala das preferências literárias da actriz, de W.B. Yeats, de quem Marilyn fez uma leitura embriagada, a Walt Whitman. "Ela gostava de poesia. Era um atalho para ela. Percebia, com o instinto de um poeta, que ela conduz directamente ao coração da experiência". Graças às visitas aos Rosten, a estrela que tinha uma gigantesca biblioteca carregada de George Bernard Shaw, Ernest Hemingway, Tennessee Williams, D.H. Lawrence, F. Scott Fitzgerald ou John Steinbeck, voltou a escrever. Participava em leituras de poemas de autores reconhecidos - "Ela pensava que os poetas eram místicos. Tentei tirar-lhe essa ideia", dizia Rosten - e enviava ao novo amigo as suas novas tentativas poéticas.

Agora, finalmente, esta Marilyn mais desconhecida chega num livro organizado cronologicamente e acompanhado por cerca de 30 imagens (de 1951 a 1962). "Há um certo tom melancólico ao longo do livro, e o que é muito belo em algumas das notas é a forma como se vê a associação entre ideias", diz o seu editor ao "Figaro". "Penso que ela não só gostava, como sentia a necessidade [de escrever], de organizar a sua vida e de tentar firmar os sentimentos extremamente agudos que podia ter em reacção a certas situações".

A vingança de Marilyn

Marilyn no divã, introspecção, e aquilo que a imprensa arrisca poder vir a ser uma caução intelectual, literata, culta da "Rapariga da Paragem de Autocarro". Marilyn é até hoje refém da sua aura sensual-inocente, uma espécie de mãe de todas as anedotas de (tínhamos que aqui chegar) loiras burras que não era bem uma actriz aos olhos de um Truman Capote embevecido - ele considerava-a uma luz tão ténue que câmara alguma conseguiria captar. Em "Fragments", Monroe escreve sobre as suas leituras de Samuel Beckett ou James Joyce. "Era uma grande leitora e [tinha] verdadeira classe na escrita. Há fragmentos de poesia que são mesmo bastante belos, que nos param o olhar", disse Courtney Hodell, a editora americana, à Reuters.

O livro terá uma edição alternativa, de luxo. Nele, Marilyn Monroe também escreve sobre o que é ser actriz e manda uma carta a Lee Strasberg. Fala sobre Arthur Miller, o dramaturgo de "Os Inadaptados" e "Morte dum Caixeiro Viajante", o seu terceiro marido, e assina um ensaio sobre o primeiro, James Dougherty.

Marilyn Monroe, nascida Norma Jean Baker, é ao mesmo tempo o toque de Midas e o canto da sereia. Desde a sua morte que se publicam livros, biografias, investigações, álbuns fotográficos - e há 48 anos que romancistas se encantam com ela. Norman Mailer com a biografia "Marilyn" (1973) e as suas "Memórias Imaginárias" (1980); Joyce Carol Oates com "Blonde" (2000), um tributo de mil páginas. Agora, Marilyn por Marilyn, auto-retrato estilhaçado, é a vingança póstuma de que fala o "Figaro": a derradeira prova (será?) de que uma "blonde bombshell" também pensa.