Margaret Atwood, a senhora-oráculo

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A História é uma distopia, diz Margaret Atwood ao Ípsilon numa das suas raras entrevistas, a propósito da reedição em Portugal de ""rix e Crex - O Último Homem". Começou por ser um romance com princípio, meio e fim, mas transformou-se na primeira parte de uma trilogia sobre o fim do mundo.

A reedição em Portugal, pela Bertrand, do romance ""rix e Crex", da muito aclamada Margaret Atwood, é o pretexto para uma extensa e rara entrevista na qual a autora de " Crónica de Uma Serva", "A Impostora", "A Mulher Comestível", "O Assassino Cego" (Prémio Booker, 2000) e "Desforra. A Dívida e o Lado Sombrio da Riqueza" comenta, com a franqueza e o humor ácido que a caracterizam, a escrita, a imaginação, a História e as sociedades contemporâneas. Atwood que nasceu há 71 anos em Ottawa, no Canadá, estudou Inglês, Filosofia e Francês na Universidade de Toronto, onde lecciona, e é autora de uma vasta e importante obra que inclui poemas, romances, contos, histórias infantis e ensaios. Vegetariana, feminista e ecologista convicta, colabora com a Amnistia Internacional e com outras organizações não-governamentais, fazendo-se ouvir a favor das populações carenciadas e dos direitos dos animais. Nos seus romances, que ecoam a influência de autores como H.G. Wells, George Orwell, Ray Bradbury e J.C. Ballard, entre outros, cria universos complexos e sociedades distópicas, onde a brutalidade dos totalitarismos leva inevitavelmente à destruição ambiental, à desumanização e ao caos social e político.

A acção do seu mais recente romance, "The Year of the Flood" (2009), uma sequela de ""rix e Crex", passa-se num tempo em que as espécies estão a transformar-se a uma enorme velocidade, um sinal inequívoco da iminência de uma catástrofe. Adam One, o chefe da seita "Os Jardineiros de Deus", devotada à fusão da ciência com a religião e à preservação de toda a vida animal e vegetal, é o herói e, de certa forma, o porta-voz das preocupações da autora.

Será ""rix e Crex" um livro "especial", no contexto da sua obra, uma vez que sentiu a necessidade de criar uma sequela em "The Year of the Flood"?

Sim, é um livro diferente. Em ""rix e Crex" observamos o universo de um dos lados da barreira, o que é protegido e privilegiado. Em "The Year of the Flood" trata-se da vida do outro lado do muro - o lado mais baixo da sociedade, aquele onde o espaço público foi abandonado e tudo é permitido, mediante um preço. Haverá, ainda, uma terceira parte da história, na qual estou a trabalhar, neste momento.

Em ""rix e Crex", existe Crake, personagem arrogante que faz o papel de Deus. Será que existem vários Crakes nas nossas sociedades? 

Exactamente. Mas Crake não é o único a fazer o papel de Deus. Não estará todo o segmento da sociedade a que ele pertence a fazer o mesmo? Talvez ele seja apenas mais eficaz...

No romance, imagina um processo - uma espécie de "potlatch", uma "purificação" - por que passa toda uma sociedade. Será uma referência às "limpezas" - étnica, política, social, económica - que se têm tornado cada vez mais comuns, na História recente?

Digamos que os "grandes re-ajustadores dos assuntos humanos" - os maiores substitutos da divindade - não têm sido as guerras, embora estas tenham causado uma grande destruição e enormes alterações na balança do poder, mas sim as doenças. Basta lermos sobre a vida como ela era nas Américas antes da chegada de Colombo para perceber o alcance da catástrofe. Foram também as doenças que derrubaram o império Mogul, por exemplo. Agora temos a capacidade, através das alterações e até das construções genéticas, para criar novas doenças para as quais ninguém possui imunidade. Como Saramago mostrou tão graficamente em "Ensaio sobre a Cegueira", basta uma doença incapacitante para criar o caos e a anarquia. 

Nessa nova ordem que descreve em ""rix e Crex", o que é, para si, o bem mais precioso irremediavelmente perdido? O amor? A liberdade? A memória?

Não é o amor, as pessoas ainda amam. A liberdade é diminuída, mas não eliminada. A memória é distorcida - mas isso acontece, de qualquer forma, estamos sempre a reescrever a História. Por isso, diria que a coisa mais preciosa que se perde é o equilíbrio entre os seres humanos e o resto da Natureza. Temos conseguido manter a balança a pender para o nosso lado, já há bastante tempo. Em ""rix e Crex", acontece o contrário - a Natureza torna-se mais poderosa do que o Homem

É inevitável, ao ler este romance, fazer referência a "Frankenstein". No entanto, Mary Shelley dotou o seu famoso personagem de uma consciência: ele sente culpa e remorso, e sofre com a devastação provocada pelo monstro que criou. O conto de Shelley tem uma base moral. Acha que acontece o mesmo com o "seu" Crake?

É óbvio que sim. De contrário, ele não teria pesadelos. No entanto, a sua consciência funciona num registo diferente. Repare-se que o jogo dos rapazes - "Sangue e Rosas" - é outra indicação desse tipo de consciência.

Em "Frankenstein" as vítimas são "boas pessoas", mas essa distinção não acontece nos seus livros. Porquê?

Em "Frankenstein", o monstro começa por ser, também ele, "boa pessoa". É inocente porque não possui experiência e deseja ser amado. A personagem egoísta é realmente o Doutor Frankenstein. O Dr. Frankenstein sacrifica a noiva e os amigos por causa da sua obsessão e, na realidade, estas personagens não têm uma existência muito forte, só lá estão para enfatizar a dita obsessão. Em ""rix e Crex", Jimmy/O Homem das Neves não é "bom" nem "inocente" dessa forma. Ele tem a noção precisa das suas imperfeições, falhanços e desejos. Apesar de tudo, é um romântico, o que não faz dele "bom" ou inocente". No entanto, uma vez que nunca penetramos no interior da sua cabeça, tão-pouco ficamos a saber qual a extensão da sua falta de bondade.

Será possível afirmar que o seu interesse como escritora está mais dirigido para a sociedade do que para o indivíduo?

Não. Este romance é sobre indivíduos - o romance como género é assim, por natureza própria - e não trata de estatísticas ou de gráficos. Mas os indivíduos existem dentro das sociedades. Até mesmo Robinson Crusoé, sozinho na sua ilha, carrega consigo, na sua cabeça, a sua "sociedade", aquela a que pertence. O mesmo acontece com Jimmy. Não é coincidência o facto de o último capítulo ter como título "Pegada". Quando Jimmy encontra uma pegada na praia, fica a saber que não está sozinho. E o leitor compreende que a questão que se coloca a Jimmy é a mesma de Crusoé: o autor desta pegada será amigo ou inimigo?

Faz uso da ironia nas situações mais terríveis e dramáticas. A ironia é um dos traços mais humanos da existência?

Mais do que ironia, utilizo piadas de mau gosto, como as de Jimmy. Creio que muita gente o faria, nas mesmas circunstâncias. Certamente no caso de homens jovens.

Neste livro insinua que a pior arma de autodestruição é a estupidez: o ser humano é capaz de criar, mas não tem capacidade para fazer bom uso do que inventa. É sua intenção explorar este paradoxo: quanto melhores somos - em ciência, em tecnologia -, pior fazemos?

Ponho a questão nestes termos: os governos têm medo de tomar as decisões correctas porque não querem ser derrotados nas eleições seguintes, e sem dúvida apreciam mais o poder do que o bem-estar daqueles que por eles são governados. Não lhe chamaria estupidez mas sim egoísmo.

"O Assassino Cego" parece-se com um romance tradicional, mas as histórias dentro da história vão-se sucedendo e existe uma tensão entre a ficção extrema - a história fantástica contada por Alex Thomas - e uma espécie de "realidade" factual, como ela é descrita nos jornais. Qual foi a sua intenção ao criar estes níveis narrativos?

Ficamos sempre num território inseguro quando se pergunta a um autor acerca das suas intenções. Mas posso dizer que a história é sobre diferentes níveis de verdade - o que inevitavelmente leva a níveis diferentes da narrativa.

Em "O Assassino Cego" descreve também o fim de um mundo (tal como em ""rix e Crex"), neste caso o mundo como as pessoas o conheciam antes da Segunda Guerra Mundial. Sente-se compelida a escrever sobre estas múltiplas "mortes"?

Os romances são sempre sobre tempo e mudança (um acontecimento a seguir ao outro), tal como na vida das pessoas, tal como na História. Os mundos estão sempre em colapso, a acabar. A não ser que consigamos parar o tempo, como em "A Bela Adormecida", mudança e tempo são naturalmente parte do destino de todos nós.

Em "O Assassino Cego", foi certamente inspirada por "Histórias", de Heródoto: por exemplo, o episódio de Sackiel-Norn poderá ser comparado ao do cerco a Babilónia. Será que, tal como Heródoto, pretende "fazer História" com ficções que funcionam como realidade ou se confundem com ela?

Há muitas fontes para a história de Zyrcon e Heródoto é apenas uma delas. Outras incluem episódios bíblicos e da história recente da Pérsia. Sem dúvida que, mesmo nos detalhes inventados mais improváveis, é possível muitas vezes encontrar um contraponto na vida real.

Em vários livros seus, existe o gosto pela criação de sociedades cheias de regras, de hierarquias, de sistemas rígidos. Será uma ilustração das distopias que partiram de utopias mas deram mau resultado?

Na realidade, todas as utopias são distopias. A "República" de Platão é um bom exemplo. Quem gostaria de viver numa sociedade daquelas? O perfeccionismo nos sistemas políticos, quando levado ao extremo, leva à crueldade e redunda sempre em "leitos procrusteanos"  - como os campos de morte do Camboja, as purgas, etc.

Estaremos a perder a liberdade, a tornar-nos servos" da tecnologia e dos média?

Essa pergunta merece uma resposta demasiado longa para este espaço. Liberdade? Mas liberdade para fazer o quê? Liberdade de quê? Nunca houve liberdade perfeita. Tentem saltar de um prédio. Temos a liberdade de voar, ninguém nos impede, mas seremos capazes de o fazer? 

Não gosta que os seus livros sejam classificados como ficção-científica. Será porque o que lhe interessa é situar a acção dos seus romances não no futuro mas sim numa zona nebulosa e paralela que coexiste e interage com o presente?

Ah! Estou precisamente a escrever sobre esse tema para uma série de três conferências Ellman. Mais tarde, serão publicadas em livro: "In Other Worlds: SF and the Human Imagination". Espero que as respostas a essa questão se encontrem aí.

As mulheres ocupam um lugar especial na sua obra. É sua intenção fazê-las sobressair?

Deixo aos leitores o diagnóstico. Escrevo sobre mulheres porque elas são interessantes. Também escrevo sobre homens, mas é mais fácil faze-lo quando se trata de mulheres e eu sou preguiçosa.

Acha que, em "Crónica de Uma Serva", criou uma projecção de um sonho masculino, misógino?

Criei um mundo totalitário onde os homens jovens que se encontram no mais baixo escalão do sistema são tão servos quanto as mulheres. Não é um cenário de homens versus mulheres. Um homem que sonhasse viver numa sociedade destas seria louco, a não ser que estivesse mesmo no topo da hierarquia.

Tem travado lutas em várias frentes. A defesa de uma ética nas ciências e na economia é uma das suas batalhas. Tem alguma ideia de como a crise mundial poderá ser ultrapassada?

Não sou uma activista profissional, não é o meu trabalho e ninguém me paga para tal. Tomo essas atitudes de vez em quando, não para marcar uma posição mas porque representam o que é correcto. Não sou economista, só escrevo sobre o comportamento humano. Como é que se "ultrapassa" uma crise? Não sei. Haverá água e produtos frescos para todo o mundo? A produção aumentará e, portanto, haverá mais emissões de carbono? 

Acha que os artistas - os criadores - têm algo a fazer ou a dizer no que diz respeito a estes problemas?

Não. Beethoven teria dado um péssimo rei. Alguém imagina James Joyce como presidente da Câmara? Não me parece. Flaubert para ministro das Finanças? Extremamente duvidoso. Van Gogh para...? Não, são talentos e competências diferentes. Maquiavel era capaz de dar um óptimo primeiro ministro mas ele não era bem um artista, não neste sentido. Seria mais um teórico político, um politólogo, como se diz agora. "Mantenham os amigos por perto e os inimigos ainda mais perto", dizia ele: palavras sensatas para tempos de punhaladas nas costas. Quanto à possibilidade de os artistas serem lideres, nos nossos tempos, eles são muitas vezes empurrados para o papel de "oradores" porque os outros - os que deviam estar a falar - têm bons empregos e não querem ser despedidos.

"Desforra", o seu livro de não ficção sobre a dívida, parece não ter tido um acolhimento tão bom como os seus romances. Será porque tocou com o dedo na ferida numa altura de grande confusão social, económica e política?

Na realidade, aqui [no Canadá] foi muito bem recebido, uma vez que foi o único livro dedicado a esse tema que saiu no momento exacto da crise financeira de 2008. As pessoas olhavam para mim com ar estranho e pediam-me indicações sobre o mercado bolsista. Mas não tenho nenhuma bola de cristal... Neste preciso momento. está a ser feito um documentário sobre os temas abrangidos por "Desforra".

Acha que os grandes cérebros da banca fizeram um trabalho tão mal feito por estupidez, por ganância ou por ambas as razões?

Não, eles não eram estúpidos nem incompetentes, simplesmente funcionaram dentro de um sistema que lhes permitiu um acesso não regulado ao "grande bolo". Acharam que não havia razão para não se servirem à vontade, tirando partido da situação, com uma legislação totalmente fluida. É sempre assim: demasiadas regras paralisam; a falta delas liberta os impulsos de ganância. 

O que é que nos resta? Há razões para sermos optimistas?

Sem optimismo, isto é, sem a capacidade para trabalhar no sentido de alcançarmos resultados positivos, estamos condenados. Felizmente que essa capacidade, tal como a imaginação, parecem ser características inerentes ao ser humano.

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