O livro que nunca existiu

O Livro do Desassossego continua a ser um Fernando Pessoa profundamente múltiplo
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O Livro do Desassossego continua a ser um Fernando Pessoa profundamente múltiplo Enric Vives-Rubio

Quase 30 anos após a primeira publicação do "Livro do Desassossego", em 1982, acaba de sair a respectiva edição crítica, editada por Jeronimo Pizarro. Se Fernando Pessoa é hoje considerado uma figura crucial da modernidade, talvez o deva menos à sua poesia do que às centenas de trechos em prosa que escreveu para este livro que nunca chegou a sê-lo

O colombiano Jeronimo Pizarro, que se tornou nos últimos anos um nome incontornável dos estudos pessoanos e é hoje a face mais visível da chamada "equipa Pessoa", acaba de oferecer-nos uma edição crítica do "Livro do Desasocego", título que respeita a grafia que Pessoa parece ter acabado por preferir, após ter usado várias alternativas, como "desassocego" ou "desasossego". Décimo segundo volume da "série maior" da edição crítica de Fernando Pessoa, em curso de publicação pela Imprensa Nacional/Casa da Moeda, o trabalho de Pizarro surge quase 30 anos após a primeira publicação da obra - organizada por Jacinto Prado Coelho em 1982, a partir de transcrições de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha -, e numa altura em que o "Livro do Desassossego" se tornou já num best-seller europeu, com centenas de milhares de exemplares vendidos em países como a França, a Inglaterra e, antes de todos, a Alemanha, onde a primeira edição, traduzida e organizada por Georg Rudolf Lind, saiu já em 1985.

Dividida em dois volumosos tomos, que perfazem mais de um milhar de páginas, a extensão desta edição crítica encobre, paradoxalmente, uma tentativa de depuração da obra, já que Pizarro dispensou vários trechos que têm sido aceites por outros organizadores. O texto de Pessoa ocupa aqui pouco mais de 400 páginas, sendo boa parte das restantes preenchidas pela secção destinada ao aparato genético, na qual o investigador descreve fisicamente todos os documentos, indicando tipos de papel, marcas de água e tintas, distinguindo dactiloscritos e manuscritos, e inventariando correcções, alternativas, acrescentos, dubitações e outras intervenções do autor.

Além de uma breve apresentação, a edição de Pizarro inclui ainda vários apêndices e um extenso estudo, no qual o autor incluiu uma tábua cronológica dos 445 textos que considera fazerem parte do livro, indicando os argumentos que ditaram cada uma das datações que propõe. O investigador inventaria ainda as diferentes leituras que foram sendo feitas dos mesmos trechos e acrescenta-lhes uma "tábua de concordâncias" que permite rastrear facilmente a respectiva posição (quando nelas aparecem) em cinco anteriores edições da obra: a já referida edição de 1982, da Ática, a que Teresa Sobral Cunha publicou em 1990-1991 na Presença, a que a mesma investigadora editou na Relógio d'Água em 1997 - de que saiu apenas o primeiro volume -, a que o norte-americano Richard Zenith, há muito radicado em Portugal, organizou para a Assírio & Alvim, em 1998, e, finalmente, a que Sobral Cunha publicou, também na Relógio d'Água, em 2008.

Das oito edições preparadas por Zenith para a Assírio & Alvim, entre 1998 e 2009, Pizarro, embora as cite a todas, centra-se apenas na primeira, uma opção que Zenith censura, já que, afirma, muitas das leituras erradas que Pizarro asssinala, quer nas suas, quer noutras edições, tinham já entretanto sido corrigidas. Pizarro reconhece que Zenith introduziu muitas alterações nas edições mais recentes, e diz mesmo que a de 1998 e a de 2009 "são quase dois livros diferentes", mas defende que, na impossibilidade prática de rastrear as oito edições, lhe pareceu fazer sentido usar a primeira como referência, tanto mais que lhe interessava fornecer "uma perspectiva histórica" do modo como estes papéis de Pessoa foram sendo lidos. Zenith não nega os méritos desta edição crítica, atribuindo particular utilidade à cronologia dos documentos, que considera "muito mais fiável do que as que existiam até agora". E está geralmente de acordo com as novas leituras que Pizarro propõe para diversos trechos, embora também discorde de algumas. Por exemplo, na frase onde Pizarro lê "marelante deste barco", acha que Pessoa escreveu mesmo "mareante". Mas aceita, entre outras, a sua correcção de uma expressão que vinha sendo treslida em sucessivas edições: "O Grande Livro como dizem os francezes". Este é, aliás, um bom exemplo das dificuldades  de leitura que se colocam aos que trabalham com o espólio pessoano. A expressão integra um parágrafo que o poeta escreveu à mão no final de  um texto dactiloscrito. A edição de 1982 ignora todo o parágrafo. Em 1990, Teresa Sobral Cunha lê: "O Grande Livro que diz quem fomos". Em 2008, a mesma investigadora propõe: "O Grande Livro que diz que somos". Em 2009, Zenith opta por "O Grande Livro que diz que fomos".

Rivalidades pessoanas

Pizarro não pretende ter chegado a leituras definitivas de todos os textos e sublinha que o "Livro do Desassossego" é "uma obra que continua a ser construída, num trabalho colectivo". Tem decerto razão, ainda que o termo "colectivo" não seja aqui propriamente sinónimo de uma saudável camaradagem.

O próprio Pizarro diz que as primeiras edições de Zenith "são muito fracas" e que, na sua última edição, este "deslocou, fundiu e excluiu" textos para conseguir manter o mesmo total de 481 trechos que vinha das anteriores, e que estava já também consagrado na edição inglesa que o mesmo Zenith traduziu e organizou. O visado assegura que se tratou de mera coincidência.

Teresa Sobral Cunha, que, tal como Pizarro - e ao contrário de Zenith -, ordena os textos por ordem cronológica, não concede especial mérito à datação que esta edição crítica avança, argumentando que as suas próprias edições já apresentavam uma cronologia fiável, que, sublinha, foi sendo corrigida em "quase 30 anos de trabalho com o espólio" de Pessoa. Pizarro afirma que esta "não usou as ferramentas necessárias" e que "funciona mais com a intuição". E acrescenta que "é uma pena" que Sobral Cunha não tenha consultado as edições mais recentes de Zenith quando preparou a sua edição de 2008, o que, afirma, lhe teria permitido evitar "erros de leitura que este já corrigira desde 2005".

Mas as acusações mais graves são as que Sobral Cunha dirige a Zenith. Numa nota à sua edição de 2008, diz que a tradução inglesa que este publicou do livro em 1991, numa edição conjunta da editora Carcanet e da Gulbenkian, incorpora, sem o assumir, "a selecção documental alargada" e "as transcrições" da edição que ela própria publicara meses antes na Presença. E quando Zenith publica a sua primeira edição na Assírio & Alvim, em 1998, Sobral Cunha acusa-o de ter utilizado, "novamente desconsiderando direitos intelectuais", as correcções que esta fizera para a edição da Relógio d'Agua de 1997.

Zenith contrataca na introdução à sua última edição, sublinhando as diferenças entre ambas as edições em termos de selecção, organização e transcrição de textos e afirmando que Teresa Sobral Cunha "abriu as portas a um volumoso lote de material duvidoso", incluindo "variadíssimos aforismos" que ele próprio publicara em "Aforismos e Afins" (Assírio & Alvim, 2003), e ainda textos de índole autobiográfica, "muitos deles", afirma, publicados em "Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal" (Assírio & Alvim, 2003). Zenith admite que Pessoa, caso tivesse publicado o livro em vida, até poderia ter seleccionado algum destes trechos, mas, argumenta, "provavelmente não muitos, e certamente não todos". Censura, por isso, o facto de estes surgirem na edição da Relógio d'Água sem indicação de que a sua pertença à obra é apenas "conjectural".

A polémica entre Sobral Cunha e Zenith percebe-se melhor se se recordar que, em 1997, esta última se preparava para fazer sair o segundo volume da edição que preparara para a Relógio d'Água quando, por via da adopção de normas comunitárias, a obra de Pessoa foi subitamente retirada do domínio público. A Assírio & Alvim, como se sabe, comprou os direitos aos herdeiros do autor e impediu a publicação do referido segundo tomo. Pouco depois, em 1998, saía a primeira edição na Assírio do "Livro do Desassossego", organizada por Richard Zenith.

Sobral Cunha conta, aliás, que Hermínio Monteiro começou por convidá-la a ela para organizar o livro e outras edições de Pessoa, convite que afirma ter recusado porque o falecido editor da Assírio & Alvim lhe terá dito que se comprometera com a família do poeta a fazer sair dois volumes de inéditos por ano. Manuel Rosa, sócio de Hermínio e actual responsável da editora, garante que a obrigação a que Sobral Cunha alude não está prevista em nenhuma das cláusulas do contrato assinado com a família do poeta. 

A respeito destas intermináveis rivalidades entre pessoanos, talvez valha a pena lembrar um texto de Eduardo Lourenço, de 1984, no qual este saudava o aparecimento do "Livro do Desassossego" - publicado dois anos antes - por vir trazer de novo à primeira linha o próprio texto de Pessoa, num momento em que, afirmava, "parecia ter chegado o tempo de aprender mais (e sobre) quem se ocupa de Pessoa do que sobre o próprio Pessoa". O tempo, como se constata, encarregou-se de tornar esta sua ironia duplamente irónica, já que, por contraste com as polémicas em torno dos critérios de edição do "Livro do Desassossego", as tentativas de análise crítica destes textos de Pessoa têm sido singularmente escassas e pobres.

Um livro a dois tempos

A verdade, no entanto, é que, em termos mais ou menos amigáveis, estas polémicas acompanharam o livro desde o seu aparecimento, sendo célebre a que opôs o organizador da primeira edição, Jacinto Prado Coelho, ao pessoano alemão Georg Rudolf Lind. Em causa estava uma questão ainda hoje não dirimida. Prado Coelho optou por organizar o livro de acordo com o que chamou "sectores temáticos", recusando quer a ordem pela qual os documentos estavam catalogados na Biblioteca Nacional, quer a ordem cronológica, alegando que grande parte dos fragmentos não estava datada. O seu objectivo, explica na resposta às críticas de Lind, foi "conservar no L. D. até onde fosse possível o seu carácter vagabundo e reiterativo de diário, doseando a ordem e a desordem, a sequência e a desconexão, e preservando o prazer da leitura".

O que principalmente fazia impressão a Lind era o facto de Prado Coelho ter misturado trechos da fase pós-simbolista, anteriores ao aparecimento de Bernardo Soares, com os textos que Pessoa escreveu para o livro a partir do final dos anos 20. Numa pitoresca formulação, Lind sublinhava a distância entre "o moralista dos anos 30" e o seu predecessor, "o sonhador amaneirado da 'Floresta do Alheamento'" - referência ao texto que Pessoa publicou na revista "Águia", em 1913, com a indicação: "Do 'Livro do Desassossego', em preparação".

O pessoano alemão considerava duvidoso que Pessoa, caso tivesse tido tempo de publicar o livro, "aproveitasse mais do que vestígios" dessa primeira fase.

No entanto, 30 anos depois, tanto o critério de ordenação como o modo de lidar com as duas fases do livro continuam a dividir os especialistas. Pessoa, como se depreende do já citado texto publicado na "Águia", terá começado a pensar no (ou, talvez melhor, a pensar "num") "Livro do Desassossego" em 1913. Até 1921, escreveu mais de 200 trechos com esse destino e, na sua correspondência com amigos, alude várias vezes ao projecto. Numa carta a Armando Côrtes-Rodrigues, de 1914, afirma: "Estou, há dias, ao nível do 'Livro do Desassosego'. E alguma coisa dessa obra tenho escrito. Ainda hoje escrevi quase um capítulo todo.". É provável que "capítulo" seja aqui uma força de expressão; se o não for, parece indicar que Pessoa, nesta fase inicial, não parecia inclinado a optar por uma organização estritamente cronológica.

Os primeiros textos escritos para o livro - incluindo o que a "Águia" publicou - foram assinados com o próprio nome do poeta. É só mais tarde que Pessoa escreve uma série de possíveis prefácios nos quais atribui retrospectivamente ao heterónimo Vicente Guedes, que já existia como contista, a autoria do livro.

Ao longo de quase uma década, o livro parece ter entrado numa espécie de dormência, tendo sido recuperado a partir de 1928-29, mas agora atribuído a Bernardo Soares, a quem Pessoa chamou semi-heterónimo e que já aparecia, desde os anos 20, como autor de contos e outros textos. Se a fase Vicente Guedes parece especialmente marcada pelo escritor suíço Henri-Frédéric Amiel (1821-1881), autor de um extensíssimo "Diário Íntimo" publicado após a sua morte, já o segundo período, o de Bernardo Soares, acusa uma forte presença de Cesário Verde, "cuja lição", escreve Teresa Sobral Cunha, "inspirou atmosferas e quadros de muitos destes (...) trechos". Confirmando este interesse de Pessoa pelo autor de "O Sentimento dum Ocidental", acabou curiosamente de ser descoberto um horóscopo de Cesário traçado pelo poeta, cuja digitalização Jeronimo Pizarro cedeu ao  Ípsilon, e que aqui se reproduz pela primeira vez. 

Aparentemente, Bernardo Soares simplesmente substituiu Vicente Guedes, que por sua vez substituíra o "próprio" Pessoa, primeiro autor do livro, e provavelmente também o último, já que tudo indica que continuou a alimentá-lo nos seus derradeiros meses de vida, sendo que os últimos fragmentos datados atribuídos a Soares são de 1934.

Quando, no final dos anos 20, Pessoa volta a entusiasmar-se com o projecto, parece ter percebido que não seria fácil harmonizar os seus trechos da fase mais vanguardista - a época da explosão heteronímica e do lançamento de "Orpheu" - com os textos que estava a escrever nos anos 30. Há um apontamento do poeta em que este assume a provável necessidade, caso venha a publicar a obra, de submeter os fragmentos mais antigos a uma revisão estilística.

O facto é que nunca o fez, e esse é um argumento decisivo para Teresa Rita Lopes, nas suas edições, manter a dupla autoria do livro, atribuindo-o simultaneamente a Vicente Guedes e Bernardo Soares.

No entanto, e independentemente das razões atendíveis que possa haver para manter o nome de Guedes nas edições do livro, o certo é que as preocupações de Pessoa tinham razão de ser, já que, como Lind sublinhara nos anos 80, os textos da primeira fase raramente atingem a qualidade, e a lancinante actualidade, dos do período de Bernardo Soares. Zenith vê mesmo uma circunstância benévola no facto de o livro só ter sido editado em 1982, quase 50 anos após a morte do autor, já que, argumenta num brevete que redigiu para o "Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português", "esta obra literária, como poucas ou talvez como nenhuma outra, consegue retratar a alma ocidental não apenas do período modernista, mas também, e mais pungentemente, da segunda metade do século [XX]".

O investigador norte-americano também acha, de resto, que foi "uma sorte" Pessoa não ter deixado o livro pronto a publicar, já que, argumenta, "eliminado o que tem de fragmentário e lacunar, o livro ia ganhar força, sem dúvida, mas correria o risco de se tornar 'mais um' livro, em vez da obra única que é".

Impor uma ordem ao caos

Resumindo o problema, aquilo a que chamamos "Livro do Desassossego" não é, de facto, em sentido estrito, um livro de Pessoa. Ilustrando pelo absurdo, imagine-se que se editava o "Guerra e Paz" de Tolstoi trocando o lugar de vários capítulos, ou sem capítulos nenhuns, ou com a ordem dos parágrafos alterada num mesmo capítulo, ou aumentando o romance com trechos de outras obras do autor, ou, pelo contrário, amputando-lhe diversas passagens. O texto continuaria a ser de Tolstoi, mas o resultado não seria o "Guerra e Paz". Acresce que, no caso de Pessoa, não existe nenhuma versão canónica prévia em relação à qual possamos rastrear alterações. Não existe "o" "Livro do Desassossego". Paradoxalmente, pode dizer-se que Pessoa o escreveu, mas, como sublinhou Eduardo Lourenço, nunca o leu.

O que, todavia, torna o referido exemplo de Tolstoi de aplicação duvidosa, e que faz com que o "Livro do Desassossego" não seja apenas mais uma de inúmeras obras deixadas inacabadas, é que a própria natureza dos textos, no seu estilo de notas de rodapé da alma, se adequa exemplarmente bem ao corpo fragmentado, instável e inconcluso que os investigadores foram encontrar no espólio.

A grande virtude da edição crítica agora publicada não é, pois, aproximar-nos do "verdadeiro" livro, mas dar-nos um retrato tanto quanto possível fiável do modo como este "livro a haver" foi sendo construído. Daí que se justifique o facto de Pizarro, por exemplo, ter inserido os prefácios em que se atribui a autoria do livro a Vicente Guedes no momento em que terão sido escritos, e não no início do livro, como a sua condição prefacial recomendaria.

No fim de contas, talvez a edição mais honesta da obra fosse aquela que, simplesmente, publicasse em folhas soltas o que Pessoa deixou escrito para o livro, dando a cada leitor a possibilidade de montar o "puzzle" como lhe parecesse melhor. Mas, claro, seria preciso saber-se o que o autor efectivamente destinou à obra, e dificilmente encontraremos dois investigadores que estejam de acordo neste ponto. E é natural que assim seja, porque o próprio Pessoa só viria provavelmente a saber que textos fariam ou não parte dele no momento em que preparasse o livro para publicação e se visse obrigado a tomar decisões. E nada nos garante que não viesse a dispensar alguns dos fragmentos aos quais apôs a indicação "L. do D.", como nada nos assegura que não viesse a incluir textos que nenhuma indicação expressa associa ao livro. É mesmo quase certo que faria ambas as coisas. E, provavelmente, iria ainda reescrever vários textos, e talvez fundisse alguns, ou, pelo contrário, dividisse outros em vários fragmentos.

Pizarro, como compete a uma edição crítica, ordenou os textos por ordem cronológica. Teresa Sobral Cunha também, mas, no seu caso, por estar convencida de que o autor, caso tivesse tido tempo de publicar o livro, adoptaria este critério. Zenith preferiu aproximações temáticas e optou por reunir num apêndice aquilo a que chama os "grandes trechos", retomando uma expressão do próprio Pessoa, que a dada altura terá ponderado publicar à parte esses ditos textos. No entanto, além de o termo "grandes" não aludir necessariamente, ou apenas, à extensão dos trechos, ninguém sabe quais os textos em que Pessoa estaria a pensar, excepção feita a uns poucos que deixou referidos numa nota, a título de exemplo.

O critério de Zenith tem um precedente na primeira edição do livro, mas, ao mesmo tempo, evita o que nela motivou as críticas de Lind (a justaposição, a que se poderia chamar anacrónica, de dois Pessoas drasticamente diferentes), reduzindo drasticamente a presença de textos anteriores à entrada em cena de Bernardo Soares.

Como Teresa Sobral Cunha explica na introdução à sua mais recente edição do livro, dos textos escritos para a obra entre 1912 e 1921, Pessoa apenas datou quatro. Ao contrário, a partir de 1929 - ano em que o autor ressuscita publicamente o projecto do "Livro do Desassossego" com a publicação de alguns fragmentos em "A Revista", dirigida por José Pacheco e editada pela Solução -, a datação torna-se quase a regra. Para Sobral Cunha, trata-se de "uma indicação muito explícita" de que, nesses seus últimos anos, Pessoa se decidira por uma organização cronológica, consistente, aliás, com o registo semi-diarístico do texto. Pizarro contesta o argumento, recordando que o poeta também datou os textos da "Mensagem" e nem por isso os publicou pela ordem em que os escreveu.
Se há argumentos válidos quer para a solução cronológica, quer para a opção "temática", a segunda, se for bem conseguida, torna provavelmente o livro de mais fácil leitura para leitores não especializados. E o facto de boa parte das edições estrangeiras da obra, designadamente a versão inglesa de Zenith e as que foram traduzidas a partir das edições da Assírio & Alvim, terem já consagrado a alternativa temática, torna eventualmente mais difícil que a opção cronológica venha, no futuro, a tornar-se dominante.

Uma heteronimia mais funda

O percurso editorial do "Livro do Desassossego" dependeu sempre, após a morte de Pessoa, de circunstâncias fortuitas. A sua história teria sido, desde logo, seguramente diferente se a primeira edição tivesse sido preparada por Jorge de Sena, como estava previsto, e não por Jacinto Prado Coelho, que só surgiu em cena após a desistência do anterior.
"Foi uma pena que Jorge de Sena tenha acabado por não organizar o livro", diz Pizarro. "Teríamos podido partir de uma primeira edição certamente mais canónica".

Durante cerca de 20 anos, o trabalho de organização e fixação dos textos do "Livro do Desassossego" coube quase exclusivamente a Maria Aliete Galhoz, que ia fazendo chegar a Jorge de Sena as suas transcrições e fotocópias dos originais. Os envios começaram pouco depois de Sena se exilar no Brasil, em 1959, o que lhe impossibilitava o contacto directo com o espólio. Sena trabalhou muito no projecto, mas acabou por abandoná-lo, achando que não tinha condições para o realizar de acordo com os altos graus de exigência que sempre impôs a si próprio. Segundo conta Pizarro, ter-se-á sentido especialmente perturbado quando, num momento em que julgava estar já de posse de quase todo o material, recebeu subitamente mais de uma centena de trechos que ainda não conhecia. E nunca terá chegado a ler outros, que Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha descobriram e transcreveram no final dos anos 70, destinados à edição de Jacinto Prado Coelho.

Se Jorge de Sena acabou por deixar cair o projecto, o tempo que lhe dedicou não foi de todo perdido. Em 1979, a revista "Persona" publicou a introdução, então inédita, que este escreveu para a sua projectada edição do livro. Este ensaio de mais de meia centena de páginas, integrado depois por Mécia de Sena em "Fernando Pessoa & Cª Heterónima" (1982), continua a ser, muito provavelmente, o mais importante texto até hoje escrito sobre o "Livro do Desassossego". Se alguém acrescentou alguma coisa de relevante às fulgurantes intuições de Sena, esse alguém foi Eduardo Lourenço, num ensaio intitulado "'O Livro do Desassossego' Texto Suicida?", redigido em 1983 e apresentado publicamente no ano seguinte, num colóquio pessoano em Nashville, nos Estados Unidos. Texto que, a somar aos seus méritos intrínsecos, tem a virtude de recordar que a referida introdução de Sena é "referência obrigatória para todos os que não queiram repetir sem o saber, ou fingindo que o não sabem, aquilo que já lá está dito ou insinuado".

Sena é o primeiro a pensar realmente o livro no contexto da obra e da vida de Pessoa. Sublinhando que, em 1929, quando retoma a escrita do "Livro do Desassossego", Pessoa era já um escritor cuja obra tinha "admiradores" e inspirara "estudos críticos", Sena sugere que a responsabilidade inerente a esta exposição pública "o paralisava para a invenção plena de heterónimos que já toda a gente sabia que eram ele mesmo". Em Bernardo Soares, conclui Sena, "confluía toda a meditação dispersa e fragmentária de uma sociedade de heterónimos na disponibilidade".

Correspondendo a esta fase a que poderíamos chamar de exaustão da heteronimia, Bernardo Soares já não seria muito distinguível de Pessoa "ele mesmo", ou do Álvaro de Campos final, o único dos heterónimos principais então ainda activo. É o que o seu criador sugere quando atribui ao ajudante de guarda-livros a condição de "semi-heterónimo" e dele afirma: "Sou eu menos o raciocínio e a afectividade".

No entanto, como Sena intuiu ao ver no "Livro do Desassossego" uma espécie de processo de destilação da "náusea do não-ser", há que ter cautela em assumir Bernardo Soares como um Pessoa finalmente sem máscara. Não tanto por causa da alegada ausência de máscara, mas por se presumir que alguma vez existiu um rosto por trás das muitas que Pessoa afivelou. Esta aparente atenuação final da capacidade de "outrar-se", o fim desse período glorioso que assistiu ao espectacular nascimento de Caeiro, Reis, Campos e outros irmãos seus menos célebres, pode bem, afinal, corresponder à revelação, como pretende Eduardo Lourenço, de "uma heteronimia mais profunda".

No seu referido texto dos anos 80, Lourenço escreve: "Aos 'textos-diferentes' que justificariam a mitologia heteronímica (...) opõe-se o 'texto das diferenças", chamado 'Livro do Desassossego', onde os escritos imaginários que designamos como Caeiro, Reis e Campos se articulam entre si e [com] os outros textos não-heteronímicos sem solução de continuidade, revelando-nos, assim, não o carácter fabricado dos textos heteronímicos, mas tão-só o carácter 'lúdico' da sua autonomização". Por isso mesmo, o ensaísta conclui que o que este livro testemunha é que, "sob a heteronímia expressa, resiste e persiste uma 'heteronimia natural'".

Num trecho de 1931, que Zenith cita na introdução à sua mais recente edição do "Livro do Desassossego", Bernardo Soares escreve: "De tanto recompor-me, destruí-me. De tanto pensar-me, sou já meus pensamentos mas não eu. Sondei-me e deixei cair a sonda; vivo a pensar se sou fundo ou não, sem outra sonda agora senão o olhar que me mostra, claro a negro no espelho do poço alto, meu próprio rosto que me contempla contemplá-lo".

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