Crítica

Estado de graça

Mesmo que a história dos Avi Buffalo acabasse aqui, já tínhamos este disco

Os Avi Buffalo ainda não chegaram aos vinte e isso nota-se nas suas vozes de Verão adolescente, nesta música com grão de "Virgens Suicidas" sem suicídio.

Os Avi Buffalo ainda não podem beber cerveja em muito estado americano, mas esse atestado de menoridade não nos deve toldar a apreciação deste que é o seu homónimo álbum de estreia.

As guitarras cristalinas que fluem como as dos Byrds e as harmonias vocais agudíssimas, planando na mesma dimensão dos Shins perfeitos de "Oh Inverted World", apresentam-nos como novos representantes da música gentil e eternamente sonhadora que a Califórnia produz desde que a pop foi inventada e uma geração de adolescentes, nos idos de 1960, invadiu a famosa Sunset Strip. Mas os Avi Buffalo, estes Avi Buffalo em estado de graça, não são simplesmente esse ambiente, esse estado de espírito: cantam versos surpreendentes como "you're tiny and your lips are like little pieces of bacon", ou violentos como o refrão de "Where's your dirty mind", "all this time to die, all this time to die / too much time to die, and I just want to die" - ou seja, entre toda a luz e encanto das canções, há algo que as corrói, uma pedra colocada com perversidade na engrenagem. O culpado é Avi Zahner-Isenberg, vocalista, guitarrista e compositor deste admirável quarteto revelado pela Sub Pop.

Em "What's in it for" são os Shins como os Shins já não conseguem ser, porque já perderam a inocência e já conhecem demasiado mundo (os Avi Buffalo ainda estão a sonhar com ele). Em "Jessica" conduzem as guitarras em cascata a planagens eléctricas controladas com mestria (ouviram os Television, mas não apreciam particularmente o cimento nova-iorquino). E em "Summer cum" (a perversidade também pode ser escatologia de miúdo travesso) a voz quebra em vibrato e uma balada folk para guitarra acústica e piano ganha tom surreal - digamos que é bucolismo alimentado a cogumelos alucinogénios.

Há delicadeza nestas canções, mas não aquela fragilidade nostálgica que ouvimos em tanta música actualmente. Nos Avi Buffalo, dois rapazes e duas raparigas de Long Beach, redescobre-se essa capacidade de filtrar a história e o espírito de um lugar para algo de novo. Que é precisamente o que estas dez canções, com as suas irresistíveis melodias solares, com os seus desvios inesperados e letras pouco indicadas à leveza de férias de Verão, nos revelam.

Mesmo que a história dos Avi Buffalo acabasse aqui, antes de chegarem aos vinte, nada haveria a lamentar. Já tínhamos este disco.

Sugerir correcção