A maior parte do petróleo já não está na água, mas as consequências serão duradouras

O poço da BP já está enterrado, mas a morte do derrame ainda não foi confirmada

Pelicano-castanho coberto de petróleo
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Pelicano-castanho coberto de petróleo Sean Gardner/REUTERS

É o princípio do fim para o poço de onde parecia sair todo o negrume do mundo para os habitantes da costa do Golfo do México: o poço da BP que rebentou quando a plataforma petrolífera Deepwater Horizon explodiu, a 20 de Abril, está finalmente tapado. Mas só estará mesmo morto e enterrado quando estiverem terminados os poços alternativos, em meados de Agosto. Entretanto, surgiu a boa notícia de que três quartos dos 4,9 milhões de barris de petróleo que foram derramados naquela zona do Atlântico foram já eliminados

Durante oito horas, na madrugada de quarta-feira, a BP foi injectando um líquído pesado (cada litro pesa 1,56 quilos, nas contas do site da revista New Scientist), que na gíria da indústria petrolífera se chama “lama”, para dentro do poço acidentado, a 1500 metros de profundidade, no fundo do mar. O objectivo era selar o túnel por onde o petróleo vinha, do interior do planeta.

“Não queremos que saia nada desta tumba”, ironizou o secretário da Energia norte-americano e Nobel da Física Steve Chu, profundamente envolvido na resolução da crise provocada pelo maior derrame acidental de petróleo da história.

Depois de, no dia 15 de Julho, ter conseguido colocar novas válvulas que fizeram com que o poço deixasse de derramar petróleo, a operação correu como mandam os manuais. A BP chamou-lhe “um marco”, numa comunicado de imprensa divulgado no seu site. “O poço está a ser monitorizado, para garantir que se mantém estático”, adianta a empresa, no mesmo comunicado.

“Estático” é uma expressão estranha para quem está fora do meio, mas o que os engenheiros da petrolífera querem é que nada se mexa mesmo no poço Macondo, onde se deu o acidente. Que não haja espaço para gás natural ou petróleo se movimentarem ainda neste túnel, que não é apenas um buraco no fundo do mar, como dizia o jornal "The Washington Post". Tem revestimentos de aço, válvulas, sapatas e se calhar até os restos danificados do tubo por onde descia a broca de perfuração de petróleo.

A lama deverá ter feito com que a pressão no poço tenha descido até ao zero, mas o poço pode “estar só a fazer-se de morto”, nas palavras de Chu. O calor pode ter modificado o líquido pesado, por exemplo, fazendo com que o reservatório de hidrocarbonetos possa fazer pressão e expulsar o tampão de lama. “Até se pode imaginar os hidrocarbonetos a infiltrarem-se através da lama, como se fossem dedinhos”, disse Chu ao jornal de Washington.

“Estamos a analisar os números”, explicou Chu. Estar atento aos dados que vão chegando do fundo do mar é o que é essencial para decidir o que fazer a seguir. “É o que se faz em ciência”, sublinha Steve Chu.

Rolha de cimento

Algo que deve ser decidido em breve é se será despejado cimento no poço ou não. O procedimento normal para fechar um poço exigi-lo-ia. Mas se a “rolha” de cimento ficar em má posição, explicou Chu, isso pode complicar a utilização dos poços alternativos para conter o derrame, que estão a ser perfurados há três meses. “Os poços alternativos é que são a solução”, declarou o almirante da Guarda Costeira na reforma Thad Allen, responsável pela grupo de resposta de emergência federal ao acidente da Deepwater Horizon. Espera-se que estejam terminados em meados do mês.

Barack Obama bateu nesta tecla de que o Verão do grande derrame ainda não está verdadeiramente terminado: “Os esforços de recuperação têm de continuar. Temos de compensar os estragos que foram feitos. Os poluidores vão ter de pagar pela destruição que causaram. Temos de garantir que as pessoas que foram afectadas recebem indemnizações, e vamos apoiar as pessoas da região durante o tempo que for necessário, até que consigam pôr a sua vida de volta nos carris”, garantiu o Presidente dos Estados Unidos.

Três quartos eliminado

Mas enquanto transmitia a mensagem de que a crise não terminou ainda, a administração Obama divulgava ontem um relatório, da responsabilidade da NOAA, a agência responsável pelos oceanos e a atmosfera, em que se dizia que três quatros dos 4,9 milhões de barris de petróleo (qualquer coisa como 779.037 milhões de litros) derramado nas águas do Golfo do México desde 20 de Abril tinham já sido eliminados.

O uso maciço de dispersantes quiímicos — que está ainda debaixo de fogo e está a ser investigado pelo Congresso — foi responsável pela dispersão de oito por cento dessa quantidade. Espera-se que agora o petróleo, transformado em gotas minúsculas, sejam degradadas por bactérias — mas podem também infiltrar-se em ovos e larvas de animais marinhos, não se sabe bem, porque nunca foram usados desta forma intensiva, abaixo da linha de água.

Quanto aos restantes 75 por cento retirados da água, repartem-se desta forma: 25 por cento evaporaram-se ou dissolveram-se naturalmente, até ao ponto de se ter tornado indetectávéis, 17 por cento foram recuperados na boca do poço, 16 por cento dispersaram-se naturalmente, cinco por cento foram queimados e três por cento recuperados à superfície (como se fossem nata do leite).

Cerca de 26 por cento persistem à superfície, ou perto da superfície, como uma película brilhante e gordurosa, ou como bolas de alcatrão, ou então já deu à costa. Pode estar ainda enterrado na areia ou nos sedimentos, a iniciar um processo lento de degradação com consequências ainda desconhecidas para o ambiente.