Crítica

Ao maestro falta melhor e à orquestra falta mais

O maestro Pedro Neves lembra um jovem instrumentista em início de carreira que ainda não teve oportunidade de adquirir o instrumento adequado ao seu nível.

Foram evidentes as suas tentativas de imprimir algumas subtilezas no programa com que a Orquestra Clássica de Espinho (OCE) encerrou o 36.º Festival Internacional de Música de Espinho (FIME) e testemunhou-o a numerosa plateia do Auditório de Espinho, na sexta-feira passada. Porém, nem sempre a sua gestualidade elegante se traduziu em resultados audíveis. A falta de um trabalho continuado da orquestra é uma justificação possível para tal.

No início do espectáculo, a orquestra causa uma boa impressão. E o maestro, com toda a segurança, inicia a "Sinfonia n.º 40" de Mozart sem partitura - não há sequer estante: Pedro Neves dirigirá de cor.

A intenção musical não passa despercebida logo no primeiro andamento daquela divulgadíssima sinfonia, à qual a orquestra se entrega com alguma garra. Mas a partir do segundo andamento tornam-se indisfarçáveis alguns sinais de "empastelamento" nos violinos, que arrastam graus conjuntos com pouco rigor, e também pontuais imprecisões de ataque nas madeiras. Ponto comum entre naipes: vários finais de frase são inconclusivos, receosos (talvez igualmente pela eventual falta de um trabalho mais regular). Nota positiva para as restantes cordas, cuja prestação se apresenta com resultados mais sólidos.

Também não passa despercebido o peso que o maestro atribui à qualidade do som, que surpreende agradavelmente logo ao início da sinfonia.

O programa desperta algum interesse: associadas à mais reconhecível sinfonia clássica surgem obras de António Fragoso (1897-1918) e de Richard Strauss (1864-1949). Do primeiro, foram apresentados três prelúdios para piano numa notável orquestração de Joly Braga Santos (1924-1988), trabalho que carrega emotivamente a história da música portuguesa; de Strauss, as "Quatro últimas canções", a partir de textos de Herman Hesse e de Joseph von Einchendorff.

O soprano Janice Watson foi a estrela convidada para o encerramento do FIME, acompanhada por uma orquestra reforçada por naipes mais preenchidos. A sonoridade desta obra e a sua projecção num espaço de comedidas dimensões, como é o palco do Auditório de Espinho, muito bem trabalhadas pelo jovem maestro, conduzem lentamente a uma mistura de modorra e de entrega ao universo sonoro de Strauss.

Se os gostos não se discutem, não vale, então, a pena discutir a prestação de Janice Watson e a sua voz, encorpada e plena de vibrato, aplaudidíssima pelo público.

Benéfico seria pensar numa grelha de programação mais intensiva e com maior regularidade de ensaios para a OCE. Será imoral pensá-lo em tempo de crise?

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