Confiança dos portugueses ao pior nível face à zona euro desde que há registo

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Consumidores pessimistas

Enquanto na Europa, a maior parte dos países voltou a confiar na economia, Portugal seguiu no sentido oposto, penalizado pela crise da dívida e pela política de austeridade

Nunca a confiança dos consumidores portugueses esteve tão longe da média da zona euro, pelo menos desde que há registo deste indicador, ou seja, desde 1986. Segundo dados ontem divulgados pela Comissão Europeia (CE), o índice de confiança dos consumidores está nos 40 pontos negativos, que é mais do que o dobro da média registada nos países do euro. Em Portugal, este indicador tem permanecido teimosamente em baixa, enquanto na Europa disparou este mês para o nível mais elevado dos últimos dois anos.

Os inquéritos conduzidos pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) - e trabalhados para todos os países pela CE - mostram que Portugal não conseguiu prolongar a tendência positiva que iniciou em Janeiro deste ano. A confiança dos consumidores mantém-se inalterada nos 40 pontos negativos desde Maio, quando teve início a crise da dívida soberana e quando o Governo anunciou as medidas de consolidação orçamental. Na Grécia, a situação vivida foi semelhante e também gerou um recorde. Em Julho, a confiança dos gregos caiu para os 67 pontos negativos, a maior diferença de sempre face aos países da moeda única.

Em Portugal, as perspectivas dos consumidores sobre a forma como evoluiu a situação económica do país nos últimos 12 meses, bem como a situação financeira do agregado familiar, voltaram a piorar em Julho. E as expectativas futuras são de um novo agravamento. Quanto aos receios face ao desemprego para os próximos 12 meses, houve uma estabilização, mas, ainda assim, estão quase duas vezes acima da média da zona euro.

A compensar a falta de confiança dos consumidores, está um maior optimismo na indústria, serviços e comércio, que ajudou a dar um empurrão ao sentimento económico geral. Este indicador aumentou em Julho para os 93,3 pontos, face aos 90,2 do mês anterior. A diferença face à zona euro é de apenas oito pontos.

Na Europa, o cenário já é outro. Além de o clima económico estar a melhorar no mundo dos negócios, a confiança dos consumidores prossegue a retoma. Embora esteja ainda em valores negativos (menos 14 pontos), atingiu em Julho o melhor nível desde Maio de 2008. A recuperação face a Junho, de três pontos, foi impulsionada sobretudo por um maior optimismo em relação à situação económica e ao emprego.

Comprar carro, mas não casa

A Alemanha foi o grande motor desta recuperação, ao registar o maior aumento no indicador de sentimento económico (mais quatro pontos) e o maior nível de confiança dos consumidores face à zona euro desde que há registo. Os últimos dados mostram que a maior economia europeia está a ganhar fôlego, estimulando a recuperação global.

O desemprego voltou a cair em Julho pelo 13.º mês consecutivo, enquanto a evolução da produção industrial e dos serviços mostram que as exportações alemãs estão a aumentar, a reboque da recuperação da procura mundial. Segundo a previsão do instituto alemão de pesquisa económica DIW, a economia alemã deverá ter crescido 1,1 por cento no segundo trimestre face ao anterior, o maior crescimento da zona euro.

Além de uma perspectiva sombria sobre a evolução da economia, do desemprego e do seu próprio orçamento, os portugueses estão a revelar uma atitude dúbia quanto às expectativas de compra dos dois principais bens de consumo duradouro: casas e automóveis. Enquanto a intenção de comprar um automóvel nos próximos 12 meses está a aumentar, embora permaneça em valores negativos, as previsões de comprar ou construir casa estagnaram e estão a um nível mais baixo do que no final de 2009.

No terceiro trimestre, a intenção de comprar carro voltou a descer três por cento, para -85, o melhor valor em dois anos. Do lado oposto está a intenção de comprar ou construir uma casa, que está nos 92 pontos negativos desde o início do ano. Depois do recorde registado no terceiro trimestre de 2009 (-93 pontos), este é o segundo pior valor de sempre nas expectativas de procura imobiliária e demonstra os receios que subsistem quanto à evolução da economia.