Bola de cortiça já rola nos relvados de Santa Maria da Feira

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A bola fez a sua estreia num jogo Paços de Brandão-FC Porto, em sub-19 ADRIANO MIRANDA / PúBLICO

Empresa de Paços de Brandão quer demonstrar ao mundo que o produto natural é resistente. Estados Unidos, Canadá e Argentina estão à espreita

Uma bola de cortiça que preenche todos os requisitos das bolas oficiais. A Sedacor - Sociedade Exportadora de Artigos de Cortiça, Lda, do grupo JPS, de Paços de Brandão, Santa Maria da Feira, criou a primeira bola de cortiça do mundo. E não se ficou por aqui. Produziu chuteiras de cortiça com palmilhas a condizer e camisolas desportivas "confeccionadas" com o mesmo produto. A altura de lançamento não foi escolhida ao acaso. Depois de um ano de testes laboratoriais, a bola foi apresentada dias antes de arrancar o Mundial da África do Sul. Um timing perfeito. "Queremos mostrar que a cortiça também dá para chutar. É um produto que mais ninguém está a fazer, amigo do ambiente, 100 por cento natural", adianta Carlos Alberto Pinto de Sá, da Sedacor.

O treinador da selecção nacional, Carlos Queiroz, já teve um exemplar nas mãos oferecido pela empresa no jogo de preparação contra os Camarões, ainda a equipa portuguesa estava na Covilhã. O seleccionador autografou a bola com um simples, mas significativo, "Ao futuro", que entretanto se apagou. A tinta preta da caneta permanente acabou por descolar-se da cortiça.

"É uma bola para quem não sabe e para quem sabe jogar futebol, que ensina a jogar." Carlos Pinto de Sá fala por experiência própria. A criação é um motivo de orgulho e o empresário não cruza os braços e vai tentar que a bola seja homologada pela Federação Portuguesa de Futebol e pela FIFA. E por várias razões: "É uma bola que tem cultura, uma bola diferente, feita de um produto natural e em que Portugal é líder", justifica. O sonho maior, mas impossível de concretizar, era ter visto a bola rolar na África do Sul.

Seja como for, a bola de cortiça está a despertar a curiosidade e a empresa já foi contactada por casas de desporto de Portugal, Estados Unidos da América, Canadá e Argentina. A criação da Sedacor pode custar menos de metade de um esférico oficial, de vários tamanhos, e ser personalizada ao gosto do cliente. O grupo económico feirense está preparado para esta nova área de negócio e tem capacidade para produzir 200 bolas por semana. E tudo começa com a preparação da cortiça juntamente com as telas próprias de reforço. Trata-se das impressões e depois as bolas são cosidas à mão.

A estreia decorreu num jogo entre o Clube Desportivo de Paços de Brandão, terra natal da Sedacor, e o Futebol Clube do Porto, em sub-19. E a bola voltou a rolar pelas mais de 20 equipas participantes no 10.º Torneio Internacional de Verão, para escolas A e B e "benjamins", que se realizou no final de Junho, em Paços de Brandão, onde o clube está a comemorar 50 anos de vida. O primeiro exemplar foi, aliás, oferecido ao clube aniversariante. Entretanto, a câmara local já fez uma encomenda para um torneio que se realizará este Verão.

O fim de um tabu

Depois de vários testes, sob o olhar atento de um engenheiro têxtil, a bola viu a luz do mundo com um objectivo preciso. "A bola já esteve no relvado e resistiu. O tabu de que a cortiça não era resistente desapareceu", garante Carlos Pinto de Sá.

A empresa pretende chamar a atenção para as potencialidades que a cortiça tem e, estrategicamente, criou a bola numa altura em que o futebol concentrou todas as atenções do mundo. Criou a marca Dynamic Cork e está debruçada sobre as novas potencialidades que o produto pode ter, desde a confecção de fatos de mergulho, a estofos para automóveis, passando para vestuário para alpinistas e roupa de Inverno.

"É um produto natural, ecológico, amigo do ambiente, um bom isolante térmico e, até hoje, nenhum cientista conseguiu determinar a estrutura molecular da cortiça", sublinha o empresário. A vontade da Sedacor é, portanto, apostar em áreas "que até agora eram impossíveis de imaginar". "E assim pode dar-se um pontapé valente na crise."