Portas recusa substituir o socialismo pelo liberalismo

Num tom apaziguador a favor de uma Constituição que "una e não que divida", Paulo Portas rejeita substituir o socialismo pelo liberalismo na revisão do texto fundamental. Só num ponto o líder do CDS-PP parece concordar com o PS: o timing do debate não é adequado, apenas depois das eleições presidenciais se deve avançar.

"O CDS não quer o socialismo pela simples circunstância de que há muitos portugueses que não são socialistas, mas também não queremos substituir o socialismo pelo liberalismo", disse Paulo Portas.

Questionado sobre se sentia ultrapassado pela direita nas propostas do líder do PSD, Portas não quis pronunciar-se sobre o anteprojecto de Passos Coelho e sublinhou o papel da Constituição. "É um texto que une um país. Um democrata-cristão, um liberal e, no limite, um trotskista devem poder rever-se na lei fundamental", afirmou, defendendo que a Constituição Portuguesa "tem ideologia a mais e precisa de ideologia a menos".

Rejeitando tratar a revisão constitucional como "arma de arremesso", o líder centrista acusou PS e PSD de lidarem com a questão com "bastante fingimento".

"O PSD usa a revisão constitucional para fingir que não tem acordo com o Governo na política económica e fiscal, o PS usa para fingir que é o partido do Estado Social", criticou, acrescentando que "o CDS não alinha nesse fingimento". Tal como os socialistas, Paulo Portas defende que o processo de revisão só deveria ser aberto após as eleições presidenciais para não "contaminar" o acto eleitoral com a discussão sobre os poderes do Presidente. Mas, se for aberto antes, Portas garante que o CDS terá propostas para apresentar, num projecto que está a ser trabalhado há dois meses por uma equipa coordenada por José Luís Cruz Vilaça.

Paulo Portas acabou também por desvalorizar o aceso debate da revisão constitucional que se tem assistido nos últimos dias, argumentando que "não é essencial para o país", tendo em conta a crise económica.

O mesmo argumento foi usado pelo secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, mas para de seguida criticar fortemente o PSD e o PS. Jerónimo de Sousa considerou que a revisão não é uma prioridade e disse existir "um silêncio profundo" do PS em relação a alterações constitucionais no plano económico, garantindo que o seu partido estará "atento" e "na primeira li- nha de defesa da Constituição". O anteprojecto do PSD "não é uma novidade, tendo em conta que o ataque do partido à Constituição é tão antigo com a própria Constituição", criticou Jerónimo de Sousa.

Já o líder do BE, Francisco Louçã, usou três adjectivos iniciados pela letra E para classificar a iniciativa do PSD sobre a revisão constitucional. "Extemporânea" por ter um calendário inadequado, "extravagante" pela proposta sobre a organização dos poderes e "extremista" por representar o maior aumento de impostos de sempre à classe média ao retirar a gratuitidade nos serviços de educação e saúde. Mas, tal como o PCP, Louçã também receia um entendimento entre PS e PSD.