Banca portuguesa passa nos testes e com a melhor nota do sul da Europa

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Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, tem razões para sorrir NFACTOS/JORGA MIGUEL GONÇALVEs

O BPI surge na 17ª posição no ranking dos 91 bancos avaliados, à frente de grandes bancos europeus, como o Santander, BBVA, Deutsche Bank ou da Societé General

Os quatro grupos bancários portugueses submetidos aos testes de stress realizados no quadro do Banco Central Europeu (BCE) passaram no exame e não têm necessidade de adoptarem "medidas de recapitalização". O mais resistente aos cenários macro económicos adversos é o Banco Português de Investimento (BPI), que consegue a 17ª posição no ranking dos 91 bancos avaliados, ao lado do inglês HSBC, e à frente do Santander, do BBVA, do Royal Bank of Scotland, do Deutsche Bank ou da Societé General.

Fernando Ulrich, do BPI, Carlos Santos Ferreira, do Banco Comercial Português (BCP), Faria de Oliveira, da Caixa Geral de Depósitos (CGD), e Ricardo Salgado, da ESAF, holding que consolida o Banco Espírito Santo (BES), congratularam-se ontem "com o elevado grau de resistência" do sistema financeiro nacional a cenários adversos.

No ranking europeu dos bancos mais sólidos, o BCP surge na 44ª posição, a CGD no 49º lugar, enquanto a ESAF (que não tem clientes, nem recebe depósitos) posicionou-se na 67ª. Os responsáveis do BES, cujas contas serão conhecidas no dia 6 de Agosto, já garantiram que os resultados serão mais favoráveis.

Os testes de stress medem os níveis de capitalização e de solvência das instituições, quando colocadas perante um conjunto de pressupostos adversos simulados pelas autoridades europeias. Os cenários mais severos levam em linha de conta condições macroeconómicas desfavoráveis, como a reentrada da economia em recessão, variações nas taxas de juro e default de parcelas de divida soberana de países sob pressão devido aos elevados défices públicos. Um quadro rigoroso considerado pelo BCE como "improvável" já que as probabilidades de ocorrência são apenas de cinco por cento [nos testes realizados pelo EUA eram de 15 por cento]. Dos 91 bancos analisados, 82 aguentam um choque financeiro forte (Tier1 acima do valor de referência de seis por cento). Mas sete instituições (cinco espanholas, uma grega e uma alemã) derraparam por ausência de capitais suficientes, necessitando de injecção de fundos (ver texto pág.3).

O pressuposto extremo do fecho dos mercados de liquidez não constou dos cenários do BCE e, no limite, se o fizesse, teria de concluir que a banca europeia, que tem dívida a rolar e compromissos assumidos por cumprir entraria em colapso. Este é um dos bloqueios sentido sobretudo pelos países do sul da Europa.

BPI é o mais resistente

A CGD, BCP, BES e BPI, os quatro sobreviventes aos testes de stress, representam mais de metade do sistema financeiro nacional, condição exigida pelo BCE para aferir da solidez do sistema financeiro de cada país. Todos eles apresentaram rácios de resistência superiores a seis por cento. O BPI revelou-se como o mais resistente, com um Tier 1 de 10,2 por cento, mesmo em contexto severo, e destronando o Santander que se considerava o banco mais forte da Europa. O BCP, que este mês foi alvo de boatos sobre a sua solidez, posicionou-se em segundo lugar, com um Tier 1 de 8,4 por cento, enquanto a CGD resistiria com um rácio de 8,2 por cento, e a ESAF de 6,9 por cento.

Os bons resultados dos quatro bancos não são alheios às especificidades do sistema financeiro nacional. Num cenário de subida das taxas de juro, as margens dos bancos portugueses que têm os créditos hipotecários indexados à euribor acabam por subir, compensando o aumento do crédito malparado. Uma situação que não se regista com tanta intensidade noutros países.

A 31 de Março deste ano, a CGD, o BCP, o BPI e o ESFG possuíam uma exposição líquida à divida pública da Zona Euro de 2,96 mil milhões de euros, sendo a grega responsável por 1,74 mil milhões de euros. O BCP que consolida o banco grego, NovaBank, tem na sua carteira 718 milhões de euros, seguido do BPI, com 501 milhões de euros, do ESFG com 464 milhões e da CGD, com 56 milhões.

A análise aos indicadores de solvabilidade dos sistemas financeiros dos PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha), países com problemas macro económicos graves, permite tirar uma conclusão favorável aos bancos nacionais que, em termos médios, surgem melhores posicionados com um Tier 1 de 8,425 por cento. Por contrapartida os bancos espanhóis analisados apresentam um rácio médio de capital médio de 7,2 por cento, abaixo dos gregos, 7,375, e italianos, 7,3 por cento, mas acima dos irlandeses (na sua maioria estatizados já este ano), 6,8 por cento.

O Ministério das Finanças não perdeu tempo a reagir, considerando que os resultados demonstram que os bancos portugueses "são sólidos e bem supervisionados".