Ghob, o Rei dos Gnomos não confessa crimes mas fica preso

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O suspeito voltou ontem a tribunal debaixo de forte aparato policial MÁRIO CALDEIRA/LUSA

Ainda não se sabe onde estão os corpos das três vítimas. Polícia investiga chamadas efectuadas com os telemóveis dos desaparecidos

Prisão preventiva foi a medida de coacção aplicada pelo juiz de instrução do Tribunal de Torres Vedras, ontem à tarde, ao homem que a polícia prendeu na madrugada de terça-feira sob suspeita de ter assassinado, por ciúmes, três jovens residentes no concelho da Lourinhã.

A medida decretada é a mais gravosa de todas as que podem ser aplicadas a suspeitos. Após três horas de interrogatório na quarta-feira e outras tantas ontem de manhã, o juiz entendeu que as provas apresentadas pela Polícia Judiciária (PJ) são suficientes para mandar o suspeito, de 42 anos, aguardar julgamento em prisão. Numa primeira fase, deverá ficar na zona prisional da PJ de Lisboa.

Ao contrário do que sucedeu na quarta-feira, ontem não houve possibilidade de populares agredirem o suspeito, uma vez que o juiz mandou colocar grades à volta de todo o edifício do tribunal.

A localização das antenas retransmissoras que permitiram a realização de chamadas e o envio de mensagens, através dos telemóveis das vítimas, podem ser determinantes para localizar o local ou os locais onde o sucateiro de Carqueja, Lourinhã, poderá ter escondido os corpos das três pessoas que a PJ afirma terem sido assassinadas, provavelmente com recurso a armas brancas, e depois enterradas.

A PJ tem em sua posse os telemóveis apreendidos ao suspeito e já concluiu que alguns deles são dos desaparecidos. Os investigadores também já averiguaram que, em pelo menos um dos casos, o aparelho serviu para enviar mensagens (falsas) à família alguns dias depois do suposto homicídio ter sido consumado.

Ghob, o Rei dos Gnomos, Xico Avião ou Nirubu, algumas das alcunhas pelas quais o sucateiro atendia na zona onde morava, teima em não revelar aos inspectores da Unidade Nacional de Combate ao Terrorismo (UNCT) da PJ os locais onde poderá ter escondido os corpos. Mesmo após ter sido confrontado com indícios fortes recolhidos durante as investigações, recusou sempre a autoria dos crimes (ver perfil no caderno P2).

Muitas contradições

As contradições entre o que já afirmou e o que afirmam, por exemplo, familiares e amigos das vítimas são, no entanto, muitas e, até agora, inexplicáveis. À mãe da rapariga de 16 anos que terá sido assassinada a 3 de Março deste ano o suspeito terá feito crer que a jovem partira para França, para trabalhar num bar. Já em relação ao jovem que terá matado a 26 de Junho de 2008, fez constar que estava no Sul de Espanha, numa quinta que ele, o Rei Ghob, ali possuía. O desaparecido, disse ainda o sucateiro a algumas pessoas da zona, precisava de se esconder da justiça portuguesa devido a um crime nunca especificado.

Para evitar ser procurado pela polícia, o suspeito chegou mesmo a inventar uma história que "vendeu" aos pais do jovem. Convenceu-os de que estava a trabalhar no seu ramo (a sucata) e, em algumas ocasiões, supostamente quando ia a Espanha ver como estava o negócio, chegou a levar-lhe comida e dinheiro enviados pelos pais. Em declarações à SIC, uma tia da alegada vítima contou que o suspeito chegou mesmo a levar de carro o pai do rapaz. Iam visitá-lo no seu local de trabalho, em Espanha. No entanto, já numa localidade do outro lado da fronteira, fez abortar a visita, dizendo ao pai que o jovem acabara de passar num carro que com eles se cruzara e que já não era possível alcançá-lo.

Já sobre a primeira vítima, uma mulher de 27 anos que terá sido morta a 5 de Junho de 2008, o suspeito terá enviado mensagens, através do seu telemóvel, anunciando que estava bem, mas que não a procurassem.

São muitas contradições e demasiadas coincidências, dizem os investigadores, sabedores que o suspeito, a quem há muito não é conhecida uma actividade permanente, deve cerca de um milhão de euros às Finanças. A proveniência do seu dinheiro está igualmente a ser averiguada. A PJ tenta saber como é que reuniu, em poucos anos, a quantia suficiente para transformar um velho barracão no Castelo de Carqueja, nome pelo qual é conhecida a casa onde vive com um irmão, a cunhada e sobrinhos.

Os cães que a GNR utilizou para tentarem, de algum modo, farejar vestígios das vítimas, nada de relevante conseguiram detectar no Castelo de Carqueja, facto que reforça a convicção dos inspectores da UNCT de que as três pessoas terão sido assassinadas fora da localidade, em locais ermos onde os corpos terão sido enterrados.