Kjell Askildsen escreve pequenas (grandes) obras de arte

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Pedro Loureiro

Este norueguês é um dos mestres na arte da narrativa breve. Diz que escreve histórias para desassossegar o leitor, para o deixar como um peixe fora de água. A estrebuchar. "Um Repentino Pensamento Libertador", o seu primeiro livro por cá traduzido, é um grande acontecimento literário

Kjell Askildsen (n. 1929) é um dos mais importantes e influentes escritores escandinavos, tendo sido distinguido em 2009 com o Swedish Academy's Nordic Prize, uma espécie de Nobel para autores nórdicos. Desde os anos 80 que os livros de Askildsen têm vindo a ser traduzidos um pouco por todo o lado, estando as suas histórias actualmente vertidas para 20 línguas (em castelhano encontram-se, desde há vários anos, quatro volumes de contos, edição da Lengua de Trapo). Não é um autor prolífico: em quase seis décadas de vida literária publicou pouco mais de uma dezena de títulos, dois terços dos quais são colectâneas de contos. Foi, aliás, a narrativa breve que lhe trouxe, desde o começo da sua carreira, o reconhecimento dos críticos e dos leitores. O primeiro livro, intitulado "A Partir de Agora Acompanho-te a Casa" - conto homónimo incluído na colectânea "Um Repentino Pensamento Libertador" (Edições Ahab), que marca a recente estreia de Kjell Askildsen em português - foi publicado em 1953 e de imediato atraiu as atenções do público e causou controvérsia: a biblioteca pública do lugar onde nasceu, Mandal, proibiu-o por considerar o conteúdo "obsceno"; o seu próprio pai, então membro do Parlamento norueguês, queimou-o em público.

Com um estilo "seco" (por vezes assemelhando-se ao de Carver ou ao de Hemingway), e que a uma primeira leitura pode parecer frio, de frases concisas e simples, Askildsen criou um singular universo literário onde não há lugar para retratos idílicos da vida nos fiordes. As personagens (sempre pessoas normais em situações quotidianas), das quais não são feitas descrições físicas, são por vezes cínicas, de sentimentos hibernados e com traços de fobia social, parecendo estar sempre à beira de um qualquer abismo, silencioso e ameaçador.

Na tarde da véspera desta entrevista, e enquanto percorríamos as ruas do centro de Oslo, dissemos ao guia que nos acompanhava que no dia seguinte iríamos entrevistar Kjell Askildsen. "Não sabia que ele dava entrevistas. Não me lembro de ter lido nenhuma num jornal norueguês", disse. Depois continuou: "Ele é enigmático. Nunca aparece em público. Vive nos arrabaldes de Oslo. Tem fama de ser como as personagens dos contos que escreve: muito reservado, misantropo e uma pessoa difícil." Da recusa a entrevistas, já sabíamos: tinham-nos contado que há pelo menos uma dúzia de anos que não concede nenhuma na Noruega, por se "sentir bem na [sua] solidão"; mas abre excepções para jornais estrangeiros, talvez porque os leitores de outros países não o importunarão tão facilmente.

Ao chegarmos à editora, ele esperava-nos, afável. Com um sorriso tímido de criança travessa, a olhar-nos, por cima das lentes dos óculos descaídos, com aquele azul vivo e incisivo dos olhos. Mas afinal ele falava inglês, tinham-nos dito que a entrevista teria de ser traduzida. "Sim, vão ser traduzidas as respostas dele", informou-nos a editora, "porque ele só quer responder em norueguês, apesar de falar inglês [soubemos mais tarde que traduziu Beckett e Harold Pinter!]. Ele é meticuloso com as palavras. Tem medo de não saber a palavra exacta." Assim seja!

Diga-se que algumas das questões foram colocadas, ou aprofundadas, um pouco mais tarde, já em jeito de conversa - enquanto se preparava a sessão fotográfica - de gravador desligado, para dispensar a desnecessária tradução, que apesar de não sabermos norueguês nos deixou a sensação estranha de resumir algumas respostas. Mas Kjell Askildsen não se manifestou. Talvez por timidez ou por civilidade; ou porque não tinha, de facto, razão para isso.

Quase que se pode dizer que a alegria não está presente na literatura nórdica. As histórias são melancólicas, com uma singular espécie de tristeza, quase autista. Isso acontece porque os escritores são tristes ou porque não gostam de mostrar a alegria que sentem?

Eu não sou triste [risos]... Talvez seja porque nós, os escritores nórdicos, não vemos nenhum interesse na alegria, não vemos como é que ela pode ser dramática, como é que pode ser uma boa oportunidade para a intriga... Em que é que a alegria é interessante para uma história?

Mas não acha que a literatura nórdica é mais triste do que as outras?

Não.

Mas as suas personagens são tristes... ou pelo menos têm uma grande tendência para a tristeza mesmo quando as coisas parecem estar a correr bem...

Mas isso são as minhas personagens... não é que essa seja a maneira de ser dos nórdicos. Os finlandeses, por exemplo, são muito mais melancólicos do que os noruegueses. Não acho que a literatura nórdica seja mais triste do que a literatura do centro da Europa.

O humor é de tal maneira cínico que se eu me rir ao lê-lo quase que me sinto culpado. É uma provocação que faz ao leitor?

É [risos]. Tento provocar sempre o leitor. Apanhá-lo com o anzol para o tirar para fora de água... como se faz aos peixes. Fazer o leitor ler. É a minha função. E depois deixá-lo a estrebuchar com o anzol preso na boca [risos)]. Trazer-lhe desassossego ao pensamento. Esse é o objectivo da minha escrita... uma história que não desassossegue não é uma boa história... não serve para nada.

E o anzol para apanhar o leitor é o estilo, a forma, ou a história contada?

É sobretudo a forma. Mais do que o estilo, é a forma como a história é contada que agarra o leitor. E isso foi o que eu procurei desenvolver ao longo da minha vida de escritor. A forma como é apresentado ajuda a que o conto actue no leitor como um conjunto... que o desassossegue, apesar de eu não mostrar qual é a minha intenção ao escrevê-lo. Um conto deve ser trabalhado como uma pequena obra de arte.

É por não mostrar muita coisa que há quem chame "minimalista" à sua escrita... pela sua economia descritiva.

Isso é o que mais me irrita. [Longa pausa]. Minimalista é a poesia escrita com quase nada e que não diz mesmo nada. "Minimalista" é dizer pouca coisa. Ou nada. Odeio que digam que a minha escrita é "minimalista". [Pausa]. Nunca escrevo menos do aquilo que devo escrever. Está lá tudo o que é preciso, nem a mais nem a menos. Tão-pouco há histórias laterais. Não sou um autor de epopeias. Não sou épico. A economia descritiva, como você diz, é apenas na forma, que em mim é mais uma espécie de estilo. Mas está lá tudo.

Como é que as personagens lhe aparecem? Elas retratam pessoas normais em situações normais. Mas há no entanto qualquer coisa que as torna únicas... são pessoas difíceis, lutando com dificuldades que não deveriam ser um problema...

Todas as pessoas são difíceis. Todas as pessoas têm dificuldades, e de uma maneira ou de outra, todas são limitadas. Cada uma de sua maneira... Toda a gente pode ser uma má pessoa num determinado momento... Depende de como se deixar condicionar pela vida. É isso que eu pretendo descrever.

No entanto, quase que não as descreve. Não lhes conhecemos a cara...

Eu descrevo-os não as descrevendo, quase não digo nada sobre elas. São pessoas normais. O leitor não tem uma descrição do que elas aparentam fisicamente - a menos que isso seja necessário para a história -, nem sabe qual a sua função na sociedade, ou que idade têm. Também não descrevo o quarto onde está a personagem porque não quero que o leitor se distraia com a decoração, que não interessa para nada. Essa decoração tem de ser feita pelo leitor.

O quarto está na cabeça do leitor...

Sim. O quarto é a cabeça do leitor. O palco onde a história tem lugar é o quarto que o leitor quiser criar. O que interessa é o que as personagens pensam, como actuam na trama, como falam entre elas.

E também o que calam. Há muito silêncio nas suas histórias, coisas que há muito tempo ficaram por dizer.

Sim... sim.

As suas personagens nascem do seu quotidiano, das suas vivências?

Quando escrevo nunca o faço acerca de mim. Nunca escrevo sobre nada que tenha vivido ou experimentado ou sobre o qual eu já tenha pensado antes... Procuro não mostrar intenções ou juízos... Só escrevo quando consigo escrever. São momentos raros... escrever alguma coisa que no fim não seja para deitar fora. Mas quando acontece, isso chega sempre com uma imagem que me surge vinda não sei de onde. Depois escrevo-a... ou descrevo-a. É o começo, sempre com uma só frase, a da imagem que me apareceu. E essa frase é a razão da frase seguinte, e por aí adiante... como se fosse uma construção, peça a peça, frase a frase. Nunca sei o que virá a seguir... nunca sei como a história vai continuar... ou como vai acabar. Dela só conheço o que já lá está escrito. Escrevo muito devagar. Fico contente quando escrevo um quarto de página durante todo um dia.

Mas nem sequer no conto longo "Últimas notas de Thomas F. para o público em geral" fala um pouco de si, das suas ideias sobre a vida e a velhice?

A escrita desse conto tem uma história. Nos anos 80 fui para a Grécia para terminar a primeira parte ["Xadrez"] desse conto. Mas parti a perna e passei o tempo deitado num colchão. Dentro do mesmo estilo dessa parte surgiram-me várias histórias... e ao escrevê-las senti uma necessidade de falar de mim e de como penso. Mas no resto da minha obra não falo de mim.

Os seus contos, por vezes, fazem-me lembrar alguns filmes do Ingmar Bergman, talvez por causa dos diálogos. Ele influenciou-o?

Sim... não... [risos]. Sim... ele influenciou-me mostrando-me porque é que eu não queria ser como ele. O Bergman é demasiado emocional para o meu gosto, era um homem cheio de sentimentos... [risos].

Quais foram as suas influências literárias?

O Claude Simon, o Robbe-Grillet... e, no estilo, o Camus de "O Estrangeiro", que é o melhor romance do século XX. E o Hemingway.

Mas as histórias do Hemingway são muito mais superficiais do que as suas...

[Risos]. [Silêncio].

O ÍPSILON viajou a convite da Real Embaixada da Noruega e do NORLA.