Ditador africano promete reformas para garantir adesão à CPLP

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Teodoro Obiang conquistou o poder em 1979 MIKE HUTCHINGS/REUTERS

O Presidente Teodoro Obiang anunciou uma reforma das instituições do seu país, de modo a conseguir uma maior credibilidade no palco internacional

O controverso Presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, há três décadas à frente da Guiné Equatorial, tem vindo nas últimas semanas a tentar melhorar a sua reputação, para que ainda este mês possa entrar em pleno na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. A VIII Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP vai decorrer no dia 23 de Julho em Luanda.

Por um milhão de dólares (789.000 euros) por ano, o Presidente contratou como seu assessor de imagem o advogado norte-americano Lanny J. Davis, que foi conselheiro especial do ex-Presidente Bill Clinton.

Tendo-se deslocado no fim de Junho à Cidade do Cabo, Obiang (como é mais conhecido) disse ali que tenciona proceder a uma série de reformas durante a próxima década, com o apoio da União Africana (UA), da qual espera aliás vir a ser no próximo ano eleito presidente.

Ao discursar naquela cidade sul-africana, prometeu que os incomensuráveis rendimentos do petróleo do seu país vão ser usados a favor de um povo muito carenciado; e disse que irá convidar o Comité Internacional da Cruz Vermelha a estudar as acusações de que o seu regime viola os direitos humanos.

"O meu país é democrático", insistiu, quando confrontado com as notícias de que grande parte dos rendimentos obtidos com a exploração do petróleo e do gás natural têm ido parar a contas bancárias no estrangeiro. Mas Davis já lhe explicou, segundo o jornal The New York Times, que as votações oficiais que tem tido, sempre acima dos 95 por cento, deixam muitas dúvidas quanto à espécie de democracia que se pratica no país.

"Quero fazer com que o meu país seja como os Estados Unidos, nos seus valores", teria dito o Presidente ao seu novo assessor, colaborador do senador Joe Lieberman.

O Brasil está com ele

Obiang já se congratulou pelo facto de uma das potências emergentes, o Brasil, lhe ter confirmado esta semana que apoia a entrada da Guiné Equatorial como membro de pleno direito da CPLP. O apoio surgiu no comunicado conjunto divulgado no fim de uma visita efectuada a Malabo pelo Presidente Lula da Silva.

"O Presidente da República da Guiné Equatorial depositou as suas esperanças no sentido de que esta se torne membro de tal comunidade na próxima cimeira, a ser realizada no próximo dia 23 de Julho em Luanda", lê-se no comunicado.

País de língua oficial espanhola e ultimamente também francesa, a antiga colónia de Madrid terá agora de adoptar como terceira língua o português para que as suas pretensões se tornem viáveis.

Menos expansivo do que Lula sobre a possibilidade da entrada da Guiné Equatorial na CPLP mostrou-se na quarta-feira o Presidente de Cabo Verde, Pedro Pires: "Eu tenho uma visão pragmática da vida. Já tenho 50 anos de vida política..."

Quanto ao Presidente de Timor-Leste, José Ramos-Horta, interrogado pelo PÚBLICO sobre a entrada efectiva da antiga colónia espanhola na comunidade lusófona, limitou-se a comentar: "É bem-vinda a participação da Guiné Equatorial e de qualquer outro país mais como observador da Comunidade de Países de Língua Portuguesa."

Tanto a presidência da Guiné-Bissau como o Ministério português dos Negócios Estrangeiros não responderam a solicitações do PÚBLICO para se pronunciarem sobre as pretensões de Teodoro Obiang.

No entanto, já em Agosto de 2008, numa entrevista ao Jornal de Negócios, o ministro Luís Amado explicava que "a diplomacia portuguesa tem de estar cada vez mais ao serviço da economia, das empresas e dos produtos nacionais". Seja na Líbia ou na Guiné Equatorial, onde o erro foi ter chegado "tarde de mais".

A promoção dos interesses económicos de Portugal na Guiné Equatorial foi, aliás, o tema principal da visita oficial de dois dias que o chefe da diplomacia portuguesa efectuou a Malabo há pouco mais de dois meses.

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