Vespa World Days Ainda é ela quem mais ordena

Milhares de entusiastas portugueses e estrangeiros prestam homenagem à mítica scooter italiana num encontro em Fátima. O espírito continua vivo e não importa a cor, tamanho ou idade da moto. Quem vem daí para uma voltinha?

Existe em todas as cores que se possam imaginar, faz um barulho característico e ninguém lhe fica indiferente. Não, não é a vuvuzela, a famigerada corneta sul-africana que tem marcado este Mundial de futebol. Falamos da scooter mais famosa de todos os tempos, cujo design intemporal a elevou à categoria de ícone e continua a fazer as delícias das pessoas um pouco por todo o mundo: a Vespa.

Por estes dias, é ela quem mais ordena em Fátima. São milhares e formam um mosaico colorido. O som dos motores e das buzinas é uma constante, há no ar um cheiro a fumo e um sorriso em cada rosto. A localidade acolhe, desde quinta-feira e até amanhã, a edição deste ano do Vespa World Days (VWD). O recinto do evento, instalado junto ao estádio municipal, é uma Babel em ponto pequeno: italianos, franceses, espanhóis, belgas, austríacos, alemães, ingleses, gregos... E portugueses, muitos e de todo o país. Da Madeira vieram 15, conta Diamantino Rodrigues, do grupo Vespa Amigos Madeira. As motos vieram de barco, num contentor.

Organizados ou a título individual, todos partilham a paixão pela scooter desenhada por Corradino D"Ascanio, cuja produção começou em 1946. Bruno Mortandello veio de Montegrotto Terme, perto de Pádua. Trouxe a Fátima uma Vespa que tem desde os 18 anos e com a qual já fez 350 mil quilómetros. "Quando ando de Vespa vejo tudo, ouço, sinto os cheiros... Relaxo", resume.

O andaluz Vicente destaca a "condução divertida" que estas pequenas motos proporcionam. Veio de Jaén com a namorada Ana e trouxeram as Vespas num atrelado. Antes de seguirem para Fátima visitaram a zona do Estoril e comprovaram o espírito de entreajuda que une a comunidade: tiveram um problema na moto mas foram ajudados por outro entusiasta que passava na zona.

Fila de 15 quilómetros

As inscrições para o encontro eram limitadas a 2010 participantes mas o número será ultrapassado. No total dos quatro dias estima-se que passem sete mil pessoas pelo recinto, que a partir das 19h abre ao público em geral, diz Filipe Primitivo, presidente do Vespinga - Vespa Clube de Fátima, que organiza o VWD. O elevado número de participantes coloca desafios em termos logísticos: hoje de manhã, por exemplo, realiza-se o grande passeio do encontro, com passagem pela Batalha, Nazaré e Alcobaça. Deverá provocar 15 quilómetros de fila - a caravana mais extensa com que a GNR já teve de lidar.

Ao longo do passeio não serão poucas as pessoas a acenar às Vespas. "Se fossem motos normais, ninguém ligava. Mas as Vespas têm o efeito de fazer virar a cabeça", sublinha Chris Hurton, que veio com Laura de Viena. Ambos destacam o estilo da máquina e a "grande família" que são os vespistas. A viagem até Fátima era "demasiado longa", por isso vieram de avião e alugaram as motos em Lisboa. Mas para o ano contam ir a rolar até Oslo, onde se realiza o VWD 2011.

No Vespa Clube de Lisboa (VCL) - o primeiro que surgiu em Portugal, criado em 1954 - também já se fazem planos para o ano que vem, confessa o presidente João Serra. No currículo tem algumas viagens mais longas, duas delas à Alemanha: a primeira foi em 2000, para o Eurovespa (designação do VWD até 2007) em Hamburgo; a segunda em 2006, aproveitando o encontro realizado em Turim para passar pelo país onde decorria o Mundial.

A edição de Fátima é a 44.ª de um evento que surgiu em 1954, em Paris, e já passou por Lisboa, em 2004. Vasco Alves, comissário português do Vespa World Club, confia que será "um dos melhores" dos últimos anos porque os portugueses se têm distinguido pelas boas organizações.

Para lá da Vespa

"Não se gosta da Vespa, sente-se", vinca Vasco Alves. "Somos 46 clubes e mais de seis mil associados [em Portugal], embora nem toda a gente faça o clubismo da Vespa", acrescenta o mesmo responsável.

Tiago Pereira está nesse grupo. Há 18 anos que abraçou a causa das scooters clássicas (com mudanças de punho) e opta por ver as coisas de forma mais abrangente: "Prefiro falar em "scooterismo". Gosto muito de Vespas mas reconheço que há outras clássicas que também têm piada. Gosto muito de Lambretta e de Heinkel", explica o criador do fórum ScooterPT, plataforma que surgiu há quatro anos para esclarecer dúvidas e aproximar os entusiastas.

"A Vespa vendeu-se muito em Portugal, os importadores fizeram um bom trabalho. Das três marcas grandes, sempre foi a mais acessível", ressalva Tiago, dono de uma scooter de cada marca. As raízes do "scooterismo", tal como Tiago o vive, estão na Inglaterra e no movimento mod, que teve o auge na década de 1960. É daí que vem a música, a forma de vestir, a atitude: "Trabalho em informática, mas faço questão de resolver eu os problemas nas motos antes de as levar a um mecânico."

O expoente máximo do "faça você mesmo" será Hugo "Bob" Cardoso. Mantém o blogue Horta das Vespas, dedicado ao "scooterismo" clássico, que vai desde os tutoriais de mecânica aos videoclips a parodiar maus restauros e Vespas de cor "azul-cueca". Inicialmente não se interessava "absolutamente nada" por motos, mas por influência de um amigo começou a mexer nas pequenas scooters. "Achei piada por serem tão baratas e disponíveis. São relativamente fáceis de trabalhar e proporcionam um divertimento incrível", salienta. E nem precisam de estar a brilhar: "Para mim não deixam de ser bonitas, consigo ver a beleza por baixo da ferrugem."

Os preços das Vespas clássicas estão muito inflacionados, algo que Hugo designou no blogue como o "Dilúvio dos Preços Absurdos". "Existe muito lixo à venda. É facílimo comprar um monte de lixo bonitinho", avisa. João Pedro Gouveia chama "salvamentos de ferro-velho" a estes "pseudo-restauros". Ele é um dos sócios da loja/oficina Old Scooter, em Lisboa, que num ano se tornou uma referência e cuja agenda está sempre preenchida, muito graças aos anos de experiência e sabedoria do mecânico Emanuel Almeida (ou Manel das Vespas).

A prima indiana

Para quem não tem uma Vespa na herança familiar as alternativas não são muitas. Há uns anos, a Piaggio descontinuou a produção de scooters com mudanças manuais e apostou nas automáticas - e não é a mesma coisa, dizem os entusiastas. Para os amantes das mudanças de punho, a única máquina no mercado é a LML, de fabrico indiano. A desconfiança inicial deu lugar ao entusiasmo graças à chamada "Lei das 125", que ajudou a que se comece a ver bastantes nas estradas portuguesas.

"Não é uma imitação. É uma marca que se dissocia da Vespa, apesar das semelhanças", sublinha Eduardo Antunes, da Roda Gigante, empresa importadora da moto para Portugal. Um observador não avisado poderá não distinguir uma LML de uma Vespa clássica, mas as diferenças existem, principalmente a nível do motor.

Hoje, como em 1946, o espírito que inspirou o nascimento da Vespa continua vivo. Antigas ou mais recentes, italianas ou indianas, enquanto houver entusiastas destas scooters curvilíneas as ruas nunca vão ter falta de cor.Para o 44.º VWD, a decorrer em Fátima, as inscrições estavam limitadas a 2010 participantes mas estima-se que passem sete mil pessoas pelo recinto