Negócios com o estrangeiro ajudam as PME a contornar a crise

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Para dar a volta à crise, os empresários reduziram custos e reorganizaram as empresas PAULO PIMENTA

A descida de receitas, a perda de fornecedores e clientes e o aumento de custos são as dificuldades mais sentidas pelos empresários

A recuperação económica pode chegar mais cedo às pequenas e médias empresas (PME) que obtêm parte do volume de negócios graças à presença no estrangeiro. Um inquérito da consultora KPMG, feito a três mil empresários de oito países, mostra que para a maioria a estratégia internacional é importante para lidar com a crise e 14 por cento admitem mesmo ter acelerado a expansão em resposta ao contexto económico.

São os sectores financeiro, industrial (com destaque para a metalurgia, aeroespacial e defesa) e químico que se mostram mais dispostos a competir fora de portas. Pelo contrário, 51 por cento das PME da área da construção admitem que a internacionalização não faz parte da sua estratégia. Portugal não está incluído na lista de países analisados, mas, segundo Vítor Ribeirinho, head of audit da KPMG (responsável pela área de auditoria), os gestores nacionais de empresas cujo volume de negócios já provém de mercados internacionais "têm um sentimento positivo quanto à evolução dos seus negócios". Sem poder contar com os países da União Europeia para crescer (ver texto), as PME portuguesas reforçam presença em Angola e noutros países de expressão portuguesa para compensar as quebras em mercados tradicionais como o espanhol e o norte-americano.

Quem depende do mercado doméstico (a maioria do tecido empresarial português) aguarda pelos impactos do Plano de Estabilidade e Crescimento quer na economia, quer nas "dificuldades de acesso ao crédito que colocam as empresas em situação muito difícil ao nível da tesouraria", diz Vítor Ribeirinho. Por cá, diz o especialista, as pequenas e médias empresas pensam mais no mercado interno devido, sobretudo, a razões culturais, dificuldades de financiamento, "custos de contexto nas candidaturas a programas e incentivos governamentais, aversão ao risco", entre outros factores.

Os maiores desafios colocados pela recessão mundial às PME foram a quebra de receitas (consequência apontada por 47 por cento dos inquiridos), a perda de fornecedores e de clientes, o aumento de custos, a dificuldade de acesso ao financiamento e as alterações nas condições de crédito. Foi, sobretudo, na Alemanha, França, Itália e Dinamarca que os empresários mais sentiram as descidas no negócio. Já a Bélgica e a Irlanda confrontaram-se com a perda de fornecedores-chave. No Reino Unido, a subida de custos foi o maior desafio. Por cá, os impactos foram semelhantes.

Situação de ruptura

As PME dependem, muitas vezes, das decisões dos seus clientes de referência, cujos centros de decisão estão localizados no exterior. Com a crise muitos reduziram encomendas ou terminaram mesmo a ligação comercial com o país, sustenta Vítor Ribeirinho. "Há também casos de clientes que recorriam ao outsourcing ou à subcontratação, e a redução de encomendas ou decisões de insourcing (execução interna de tarefas) deixaram algumas PME em situação difícil ou de ruptura", descreve o responsável pela área de auditoria da KPMG.

Juntam-se a estas dificuldades os custos de financiamento, com os combustíveis e matérias-primas, que afectam "decisões operacionais estratégicas". Um problema crónico é o do atraso dos pagamentos. "Assistimos à dilatação nos prazos médios de recebimento. As PME recebem mais tarde dos seus clientes e consequentemente pagam mais tarde aos fornecedores", diz Vítor Ribeirinho. O barómetro anual da Intrum Justitia, divulgado no início do ano, revela que o Estado demora em média cinco meses a liquidar as suas dívidas. A percentagem de incobráveis aumentou o ano passado, de 2,7 por cento para 2,8 por cento, acima da média europeia que está nos 2,6 por cento. Devido a atrasos e à falta de pagamento, um quarto das empresas vai à falência.

Custos reduzidos

Para dar a volta à crise, os empresários europeus reduziram custos e reorganizaram as empresas (62 por cento). Uma grande percentagem (43 por cento) optou por uma estratégia de vendas mais agressiva, com reduções de preços e campanhas de publicidade - sobretudo em Itália. Outros tentaram renegociar com os bancos as condições de financiamento, como os franceses, ou apostaram na expansão internacional (destaque para a Alemanha).

O recrutamento de trabalhadores também ficou congelado. Apenas 22 por cento admitem contratar novos funcionários e 16 por cento vão mesmo dispensar pessoal. No sector do retalho apenas 55 por cento tencionam manter o mesmo número de trabalhadores; nos transportes a percentagem sobe para 62 por cento.

Nos próximos tempos, as PME prevêem mais dificuldades em tudo o que esteja relacionado com créditos financeiros e a gestão de d? vidas. Os planos até 2011 são reorganizar internamente a casa e optimizar recursos para cortar ainda mais nas despesas (65 por cento), e lançar novos produtos ou serviços inovadores (55 por cento). Em menor número, alguns irão avançar para aquisições e fusões. "Atendendo ao custo do dinheiro, às dificuldades dos nossos próprios bancos e ao contributo desfavorável do rating da República Portuguesa, o acesso ao financiamento bancário vai ser difícil de resolver", analisa Vítor Ribeirinho.

Quanto à inovação de produtos, em que grande parte dos inquiridos diz estar a apostar, em Portugal dificilmente se podem esperar resultados práticos no curto prazo. O responsável da KPMG diz mesmo que é difícil essa inovação dar origem, em tempo útil, "a crescimentos significativos do PIB".

Nos oito países representados neste estudo (Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Espanha, Bélgica, Dinamarca e Irlanda) há 1.096.542 PME, que garantem 50 por cento do emprego. Perto de 70 por cento têm negócios exportadores e 54,5 por cento têm entre 50 e 99 trabalhadores.