Desordem transatlântica

1. O Presidente Obama partilha um Big Mac com o seu homólogo russo Dmitri Medvedev em Washington. O Congresso americano acaba de dar luz verde para uma reforma do sistema financeiro considerada "histórica", provando que a América quer mesmo liderar pelo exemplo. A China dá um sinal positivo deixando flutuar a sua moeda. O Brasil retira-se discretamente dos "acordos de Teerão". Aparentemente, as grandes potências mundiais, novas e velhas, chegaram a Toronto para a quarta cimeira do G20 num razoável espírito de cooperação.

Era esse o primeiro objectivo do Presidente americano: provar às potências emergentes que o G20 tem o potencial para ser um fórum informal mas efectivo de governação global. Deu prioridade à cooperação económica com a China e ao restabelecimento de uma melhor relação com a Rússia. Pode agora recolher os frutos.

Olhando para trás, o G20 revelou-se decisivo em conter os efeitos devastadores da crise financeira, garantiu a coordenação entre as economias desenvolvidas e emergentes para estimular a economia mundial. Esconjurou a tentação proteccionista. "Funcionou", escreveu o Presidente americano na primeira frase da carta que dirigiu aos seus pares do G20 antes da cimeira. Podia ter acrescentado: graças à liderança americana. Gostaria de ver repetir em Toronto a demonstração de unidade que conseguiu em Londres e em Pittsburgh.

2. Dificilmente a terá. Desta vez, será a Europa a fazer o papel de desmancha-prazeres. Em primeiro lugar, porque a forma desastrada como geriu a crise da dívida grega acabou por transformá-la numa crise europeia. Chegará a Toronto como o elo mais fraco da recuperação mundial. À mesa do G20, a grande preocupação é saber se a crise europeia pode ainda pôr em risco a retoma mundial.

Depois, porque se há um confronto nesta cimeira, ele é entre os dois lados do Atlântico, independentemente dos esforços feitos de ambos os lados para tentar minimizá-lo.

A questão é simples e é conhecida. Para Washington, a prioridade ainda é o fortalecimento da retoma económica. E como o mundo "não pode continuar a depender tanto dos Estados Unidos como anteriormente, esperando que se comporte como o consumidor de último recurso", como não se cansa de insistir o secretário do Tesouro Timothy Geithner, é fundamental que os países que dispõem de largos excedentes comerciais se disponham a dar o seu contributo para a retoma mundial. O recado é para Pequim e para Berlim. A China já deu sinais de que se dispõe a ouvi-lo. A Alemanha continua intransigente, aliás em conformidade com a política de austeridade que impôs aos seus parceiros europeus. Ninguém espera que mostre maior flexibilidade em Toronto do que aquela que demonstrou em Bruxelas.

3. Como se apresenta, então, em Toronto a vasta delegação europeia? A chanceler, que obrigou Sarkozy a engolir a sua visão "austera" da gestão da crise europeia, terá nele o parceiro ideal para exibir a defesa de uma forte regulação do sistema financeiro, mesmo que ambos saibam que as duas propostas que levam para Toronto (a taxa sobre os bancos e o imposto sobre as transacções financeiras) serão rejeitadas e que, ao contrário de Obama, a Europa ainda não concluiu o seu próprio trabalho de casa para poder ter a ambição de liderar. Terá em David Cameron um inesperado aliado para a sua prioridade absoluta aos défices. Barroso e Rompuy, que partilham o lugar da UE no G20, segui-la-ão.

Se Obama quer fazer do G20 o fórum para integrar as potências emergentes na governação mundial, tentando moldar um novo mundo multipolar, toda a colaboração dos aliados europeus seria bem-vinda. Constatará, pelo contrário, que a Europa continua a olhar para dentro de si própria, a ruminar a sua própria crise. Por enquanto, à falta de unidade interna e de visão global, segue a Alemanha e a Alemanha segue o seu interesse imediato: impor a disciplina orçamental (incluindo a si própria) e esquecer o crescimento. Condenando a Europa a ficar para trás e a relação transatlântica a revelar-se, porventura, de pouco préstimo aos olhos de Washington.