"As mulheres são mais emocionais, complexas e belas"

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Elas choram, sorriem, desviam o olhar... É para os rostos de uma centena de mulheres iranianas (e uma francesa, Juliette Binoche) que vamos olhar durante a hora e meia de "Shirin", que estreou em Lisboa e no Porto. Como sempre no cinema de Abbas Kiarostami, o processo para chegar à verdade é puramente artificial. Numa entrevista ao Ípsilon, o cineasta iraniano diz que este é o seu filme "mais artificial, mas também o mais autêntico". Nestas páginas, o crítico iraniano Boumchade Pourvali explica por que é que as mulheres de "Shirin" são o verdadeiro rosto do Irão

Em "Shirin", de Abbas Kiarostami, 114 mulheres, todas iranianas excepto uma francesa (Juliette Binoche), olham para algo que supostamente se passa num ecrã que não vemos, apenas ouvimos como uma narrativa reduzida à sua banda sonora. As mulheres assistem a uma representação de um poema persa do século XII, "A História de Khosrow e Shirin". Quanto a nós, espectadores de espectadoras, nada mais temos em campo para além dos rostos - muito diversos e todos magníficos - dessas mulheres. Primeiro choque de "Shirin", por vir de onde vem: a silenciosa partilha de uma dupla intimidade, a dos olhos e a das emoções, isto é, a partilha longa de um olhar feito da acumulação de olhares. O primeiro fotograma de "Shirin" já fica para lá da primeira fronteira do interdito feminino na república islâmica do Irão (pois "é através dos olhos que o diabo dispara", ensina a cartilha dos Guardas da Revolução).

As mulheres riem, choram, reagem, instalando uma segunda narrativa, contracampo tão invisível para nós como a tragédia de Khosrow e Shirin, um contracampo afinal "realizado" pelo espectador, na medida em que é escrito em nós por 114 actrizes de um filme sem argumento. O centro de "Shirin" não é a representação de um poema mas a sugestão, profundamente poética, de paixões, de recordações e de dor.

Este nível de exposição é sacrílego para a ortodoxia xiita no poder em Teerão. Kiarostami, no entanto, não abre mão de qualquer leitura política. "Garanto que não é um filme feminista em nada", afirmou numa entrevista recente ao Ípsilon em Paris, feita nos escritórios da distribuidora francesa dos seus filmes, a MK2.
Estranha presença de um realizador fugidio: Kiarostami, sempre de óculos escuros, insiste em responder em farsi, através de uma intérprete, às perguntas feitas em francês e em inglês. A sua voz ocupa, então, o campo todo de uma entrevista onde ele não mostra nunca os olhos, como a representação "cega" de "Shirin"; e a voz dele apenas ganha sentido - argumento, emoção -  na fala da intérprete. Uma voz de mulher.

Qual foi o critério de escolha das actrizes de "Shirin"?

Não houve critério nem selecção. Apenas disse ao meu produtor que escolhesse as actrizes que quisesse.

E como apareceu  Juliette Binoche, única estrangeira do filme?

Exactamente da mesma maneira. Juliette  não estava lá [no Irão] para filmar, estava lá apenas para me visitar. Tinha chegado na véspera e estava exausta. Quando acordou, eu disse-lhe que havia uma filmagem a decorrer na cave de minha casa e ela desceu só para dar uma olhadela. E o que era a filmagem? Apenas três cadeiras numa divisão vazia, uma folha de papel pendurada (sob a lente da câmara) e eu a dar algumas instruções às actrizes. A Juliette ficou tão desconcertada que disse que queria também ser filmada. E teve uma reacção incrível: sentou-se e começou a chorar, chorar, chorar.

O que aconteceu foi que, quando os seus seis minutos estavam feitos e nós dissemos "corta!", a Juliette Binoche apenas mudou de cadeira e continuou a chorar. Foi esta também a reacção de muitas outras mulheres. Não paravam de chorar só porque nós dizíamos para pararem. Continuavam a chorar, o que para mim é a prova de que o filme não é um filme artificial. Não são lágrimas por encomenda. Um filme artificial é o que se interrompe quando nós pedimos, que pára quando se pára a representação. Aquelas mulheres não estavam a representar. Só lhes demos uma pista, abrimos-lhes uma porta e com isso elas regressaram à sua própria verdade.

É por isso que há tanta verdade em "Shirin". Quanto a Juliette Binoche, eu disse-lhe que estava muito contente por ela participar no filme mas que não podia pagar-lhe, como não pago a nenhuma das actrizes, mas que não usaria o seu nome. Ela seria apenas mais uma mulher no meio das outras. É isso que acontece. Este filme mostra a universalidade da feminilidade. Dei a Juliette Binoche as mesmas instruções que dei às actrizes muçulmanas e vemos que as reacções pessoais em relação ao amor são as mesmas.

Porquê a presença dos homens em segundo plano, algo assustadores?

Parecem-lhe assustadores? Tenho que ver outra vez o filme. A única razão pela qual os coloquei lá é para mostrar que no Irão as mulheres não têm de ir ao cinema separadas dos homens. Podem sentar-se na mesma sala com eles. Mas todos os actores tiveram as mesmas instruções, incluindo os homens. Se eles parecem ameaçadores, é porque se sentem ameaçados pelas suas próprias emoções. Seria interessante verificar isso. Geralmente, os realizadores dizem que o seu melhor filme é o que acabaram de fazer. Não é esse o meu caso. Eu fiz um filme posterior a "Shirin" e não quero julgá-lo nesses termos. O que posso dizer é que nunca antes nem nunca depois de "Shirin" tive oportunidade de captar com a minha câmara momentos de tanta verdade e autenticidade. Foi uma oportunidade que me foi dada uma única vez na minha carreira e não acontecerá nunca mais.

De onde surgiu a ideia de "Shirin"? Resultou do seu episódio de três minutos para o "Romeu e Julieta" colectivo?

A ideia é a mesma. Tinha uma ideia para a curta-metragem e a matéria que me foi dada era de tal maneira complexa e rica que me dei conta de que não cabia lá. A reacção do público foi tão intensa que exigia, pelo menos, uma metragem que pudesse abarcar essa substância.

O que é essa "matéria" em "Shirin"? Os actores ou o impacto no espectador?

É a reacção dos actores. Com o filme de três minutos, senti uma grande frustração, desejava ter pelo menos dez minutos. E quis fazer uma longa-metragem.


De onde surgiu a história?

Pensei estender a ideia dos três minutos com a mesma história. Mas os direitos de adaptação de "Romeu e Julieta" eram tão caros que eu nunca poderia comprá-los. Percebi que tinha de fazer a minha própria banda sonora - a história sem imagens contada em som que acompanha as actrizes. Então decidi olhar para toda a literatura iraniana e para o nosso imaginário literário. E escolhi Shirin, entre outras heroínas e histórias, pela sua grande modernidade. Remonta ao século XII mas é a primeira história de um triângulo amoroso cujo centro é uma mulher. Eu queria que a personagem de Shirin, na sua coragem e ternura, fosse contada por uma mulher. Isto é, a personagem principal e o narrador ficaram então sendo mulheres. O primeiro público do filme seria por isso feminino. Era isso que importava para mim. Notei, no início, que os espectadores masculinos tinham reações mais simples. Apenas olhavam calmamente para o filme, não tinham esta variedade de reacções das mulheres, mesmo na versão de três minutos. E por isso queria principalmente atingir um público feminino.

Pensou nas mulheres iranianas? De onde vem essa diferença de reacções entre mulheres e homens?

Não tive nenhuma oportunidade de observar outras pessoas no mundo como espectador como tive para observar pessoas no Irão. Mas a minha impressão é que as mulheres são em geral, não apenas no Irão, mais emocionais, mais complexas e mais belas. São três razões para ter o seu olhar. Quando o assunto é emocional, relacionado com amor, devoção e afecto, as mulheres reagem mais intensamente e são mais expressivas do que os homens.

Que emoções procurou em "Shirin"?

Tinha uma câmara pequena, três cadeiras numa sala vazia e uma folha de papel pendurada sob a objectiva. As mulheres estavam sentadas em silêncio total, fixando um ponto imaginário no papel. Apenas pusemos alguns efeitos de luz reproduzindo o que seria o reflexo de uma projecção de um filme diante delas. E pedi-lhes que pensassem num episódio amoroso, ou de um filme ou de uma história que fosse muito especial para elas e fizesse apelo a emoções profundas. Temos tantas histórias diferentes projectadas neste filme quantas as actrizes que são filmadas, cada uma projectando o seu próprio filme e cada uma delas reagindo a uma história mental que elas são as únicas a conhecer.

A narrativa não existe para lá de cada uma das actrizes?

Diria que este filme é o mais artificial que já fiz, mas também o mais autêntico que já fiz. É o filme que tem mais verdade. Consegui vê-lo pelo menos 150 vezes, o que não aconteceu com nenhum dos meus outros filmes. Tenho a impressão de que foi feito por outros e não por mim. A verdade resulta de estas mulheres mostrarem reacções verdadeiras a emoções verdadeiras. Dão a sua própria verdade ao filme. Foi isso que aconteceu. Em primeiro lugar, coleccionei todas estas emoções verdadeiras de todas estas mulheres e depois decidi fazer todo o processo de uma banda sonora de filme clássico, com as gravações dos actores, uma banda sonora, os efeitos sonoros, a mistura, tudo o que é normal. Depois usámos esta banda sonora como modelo. As imagens que tínhamos funcionavam como peças de um puzzle. Tivemos de ver peça a peça qual é que servia para completar o puzzle. Foi através deste processo muito artificial que pudemos atingir um nível de verdade que eu nunca tinha visto antes.

Antes de filmar tinha um argumento para "Shirin"?

Não havia argumento nenhum. Na altura em que filmei as actrizes, ainda não sabia que ia ter que fazer a minha própria banda sonora. Pensava que ia fazer a história do Romeu e Julieta. Não é isto que interessa, nem o som que veio depois, que é a narrativa que vem depois. O que interessa é que as emoções mais íntimas destas mulheres são exibidas nos seus rostos. E essas emoções vêm do amor. Lembra-me um poema de Hafiz que diz que não há história nenhuma para além da história única que é o amor, que, apesar de ser repetida, não é nunca a mesma. Adorava ter sido corajoso o suficiente para não pôr som nenhum em "Shirin". Ficaria um filme sem som, apenas com as emoções dos rostos, porque isso é a verdade da obra.

A verdade do filme é também "Shirin" ser constituído pelo seu próprio público?

É apenas um ciclo. São alguns espectadores silenciosos sendo vistos por outros espectadores. E, afinal, se houvesse um sistema de filmar os espectadores vendo os primeiros espectadores e projectá-los noutro ecrã, isso continuaria sem fim. Não é nada mais do que a representação da inocência dos espectadores que estão completamente indefesos diante da magia desta luz e desta imagem, e que entregam completamente as suas emoções e sentimentos nas mãos do que está a acontecer no ecrã. Acredito que esta forma de arte que é o cinema é a que de uma maneira mais poderosa mexe com os espectadores e incorpora as suas emoções. Este filme é um tributo a esse poder do cinema.

É também um tributo às mulheres? É uma declaração com mais de cem rostos femininos saídos de um país como o Irão?

Talvez. É uma homenagem. Eu próprio fiquei sensibilizado e surpreendido quando notei a força enorme da soma destes rostos em sequência e da expressão das suas emoções amorosas. Penso que o facto de as pôr todas juntas produz o impacto da forma como as mulheres lidam com as suas dores e alegrias amorosas e as esquecem com menos facilidade do que os homens. É uma lição e um aviso também aos homens para lembrá-los da forma como as mulheres reagem e conseguem ainda mergulhar na memória do seu sofrimento e sentimentos. Secretamente, adorava que houvesse uma indicação de prazo de validade em subtítulo de cada uma destas mulheres para nos dar um sinal: quão atrás elas vão na sua memória enquanto pensam na sua própria história? Qual é o prazo de validade do amor? Durante quanto tempo se pode lembrar? O filme é um sinal para os homens, para que vejam as mulheres ou a sua história amorosa com mais detalhe e cuidado. É um filme de apoio às mulheres.

Um filme feminista?

De forma alguma. Posso mesmo dizer que não é feminista em nada. Se fosse feminista, não o teria feito. Não concordo com nenhum "ismo". A forma como as coisas são mostradas e sugeridas em "Shirin" seria impossível com qualquer "ismo", incluindo o feminismo. Isto é um alerta mas feito da forma correcta, artística e muito indirecta. Os "ismos" não funcionam assim, colocam a culpa e a responsabilidade apenas num lado. Eu nunca digo neste filme que as mulheres não são responsáveis. É um alerta aos homens mas também às mulheres. É essa a minha atitude na vida. As pessoas são responsáveis por elas próprias. Quando não se vê as coisas na sua complexidade, apenas se coloca a culpa nos outros. Essa não é a minha postura. A minha opinião é que cada um é responsável pelas suas emoções e pela sua vida.