Crítica

Um novo começo

O disco mais ambicioso de Ariel Pink é uma maravilhosa homenagem à história da música popular

Antes do lançamento de "Before Today", especulava-se se Ariel Pink, rei do "lo-fi", sobreviveria à prometida maior qualidade das canções que aí vinham. Até agora, os discos de Pink eram colecções de canções a que os meios de gravação artesanais davam uma qualidade quase etérea, nos melhores momentos (em especial no sublime "The Doldrums"), ou amadora, nos piores. Caminhar na corda bamba, sempre a um passo do falhanço, era um dos charmes de Pink; o outro era a habilidade enquanto escritor de canções, que nenhuma má gravação conseguia esconder.

Em "Before Today", o primeiro disco com uma banda, Pink faz o seu álbum mais ambicioso. Não apenas no som, que se aproxima do de um disco "normal", mas também nas possibilidades que abre em cada canção. "Can't hear my eyes" é uma canção perfeita algures entre as tentativas dos brancos fazerem soul e as guitarras dos Fleetwood Mac mais suaves. "Round and round" é outra pérola com tudo no sítio: os "na-na-na-na" introdutórios, a reverberação da voz a formar um "drone" ao fundo (como os 10CC fizeram em "I'm not in love"), sublimes arranjos de sintetizador, um refrão em crescendo que podia ser caso de estudo em "workshops" sobre escrita de canções.

Em "Reminiscences", um sintetizador faz a festa em cima de linhas de baixo dignas de figurar numa banda sonora porno. "Beverly Kills" tem um delicioso falsete, baixo funk, sintetizadores a pingar um santo mau gosto, enquanto "Bright lit blue skies" eleva o modesto original de 1966 dos Rockin' Ramrods a epifania rock'n'roll e "Revolution's a lie" parece sacada a "Unknow Pleasures" dos Joy Division. Pôr isto tudo a funcionar de forma coerente é mérito de Pink.

Não há muitos discos como "Before Today" - tal como não há muitos artistas como Ariel Pink. Pega na música popular, não para a subverter, não para lhe sacar "samples" e fazer outra coisa (tudo coisas legítimas e válidas), mas para se inserir nessa narrativa que vai dos Monkees a Bowie, com total respeito e amor. Tal de pouco valia se as canções fossem fracas. Mas não são: são espantosas.