Crítica

Overdose de solos em noite revivalista

Para o ex-Guns N’ Roses, uma canção sem um solo de guitarra não é uma canção a sério
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Para o ex-Guns N’ Roses, uma canção sem um solo de guitarra não é uma canção a sério Bill Auth/Reuters (arquivo)

Slash
Coliseu do Porto
Terça-feira, 22 de Junho, 21h00
Sala quase cheia
2,5 em 5 estrelas

“Are you ready to rock and fucking roll?”, perguntava Slash ao público, ainda antes do primeiro acorde do concerto, no Coliseu do Porto. O que se seguiu, ao longo de duas horas, foi de facto um festim de rock, mas convém especificar do que falamos, no âmbito de um género tão vasto. O rock & roll segundo Slash vai beber ao heavy metal e aos blues mas, acima de tudo, segue uma linha virtuosa e purista. Para o ex-Guns N’ Roses, uma canção sem um solo de guitarra não é uma canção a sério, e abandonar o formato guitarra-bateria-baixo-voz é quase uma heresia. Na digressão de promoção do seu primeiro álbum em nome próprio, estes ideais foram seguidos à risca: só contámos um tema sem um solo e o que é demais é moléstia. A assistência vibrou e adulou o instrumentista, mas não podemos dizer que se tenha assistido a uma gloriosa jornada de rock. Para azar de Slash, os anos 80 já passaram e o que de mais inventivo se faz na música moderna segue o caminho oposto ao virtuosismo pelo virtuosismo.

O que faz falta é um pouco de criatividade: olhamos para o alinhamento numa ordem cronológica e percebemos que os temas se tornam cada vez menos interessantes à medida que Slash foi assumindo o total controlo da sua produção discográfica. Aos Guns N’ Roses foi repescar os interessantes Nightrain e Civil war, para além de Sweet child o'mine, indubitavelmente um dos mais deliciosos riffs da história do rock. Do seu recente disco a solo, apresentou seis temas, e apenas By the sword, com uma forte sugestão blues, nos pareceu acima da média (foram ainda abordados os repertórios dos Slash’s Snakepit, primeiro projecto pós-Guns, e Velvet Revolver). A resposta às novas composições até foi calorosa, mas dois outros factores terão levado a maior parte dos espectadores a marcar presença: a possibilidade de ver em palco um mito como Slash e recordar músicas dos Guns N’ Roses, recebidas com um entusiasmo incomparavelmente superior. No Coliseu, parece ter-se juntado uma tribo multigeracional algo órfã de ídolos: acreditamos que não haveria muitos amantes do metal mais extremo, mas sim adeptos de um rock com décibeis ao alto, onde a guitarra assume protagonismo quase total e as vocalizações são exuberantes. As t-shirts de Scorpions e AC/DC, bem como de bandas mais recentes como os Tool, ajudam a caracterizar esse público.

Em boa verdade, só se pode dizer que tiveram aquilo que pediram. Slash reuniu um conjunto de músicos experientes e competentes, com Myles Kennedy como vocalista. O líder dos Alter Bridge usou e abusou do tom agudo e pareceu demasiado colado às versões originais: soou como Axl Rose quando interpretou temas dos Guns N' Roses e adoptou os trejeitos de Scott Weiland quando foram recuperadas canções dos Velvet Revolver. Depois, houve as costumeiras “festinhas” ao público: a bandeira de Portugal foi agitada depois de Sweet Child o’mine e foi ainda mostrada uma camisola do FC Porto com o nome de Slash. No encore, imediatamente antes do fecho, com Paradise city, uma boa surpresa: uma versão de Communication breakdown, dos Led Zeppelin (impressionante a forma como Slash executou o solo por trás das costas). Talvez tenha sido esta a maneira encontrada pelo músico para justificar a desinspiração que revela no seu disco a solo, enquanto compositor: já não há riffs memoráveis no mercado, porque Jimmy Page, fundador dos lendários britânicos, já os inventou todos.