Presidente que não teve o "privilégio de conhecer" Saramago garante ter cumprido as suas obrigações

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Ex-presidentes Eanes e Soares na despedida a Saramago NUNO FERREIRASANTOS

A ausência de Cavaco Silva nas cerimónias causou algum incómodo, mas as críticas foram surdas. Excepções: Francisco Louçã e Mário Soares

Marcelo Rebelo de Sousa, ex-líder do PSD e conselheiro de Estado, começou a fazer o controlo de danos sábado, antes de se confirmar que Cavaco Silva não anteciparia o regresso dos Açores para assistir ao funeral de José Saramago. "Perante um morto destes, não se contam votos", disse Marcelo. Francisco Louçã, coordenador do Bloco de Esquerda, fez o desafio que Jerónimo de Sousa, secretário-geral do partido a que Saramago pertencia, o PCP, não fez: pediu que fosse às cerimónias, esquecendo "a mesquinhez do passado" e a "perseguição política". Foi duro. Cavaco "não deve deixar nenhuma névoa que permita qualquer confusão com aquilo que foi a mesquinhez de atitudes do passado" - a exclusão do livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo da lista de candidatos ao Prémio Literário Europeu, em 1992, era Cavaco primeiro-ministro.

A polémica começou sábado, continuou domingo, mas foi quase assunto tabu à porta dos Paços do Concelho de Lisboa, de onde saiu o funeral do Nobel da Literatura. Uma excepção foi o ex-Presidente Mário Soares. O comentário foi directo: "Se eu fosse Presidente, estaria presente. Até porque estou aqui e não sou Presidente."

Cavaco Silva não foi, explicou-se nos Açores, onde ontem terminou um curto período de férias com a família, garantindo ter cumprido todas as suas obrigações como Presidente. O que o chefe de Estado deve fazer, disse, é "diferente daquilo que deve ser feito pelos amigos ou pelos conhecidos". "Devo dizer que nunca tive o privilégio na minha vida, se me recordo, de alguma vez conhecer ou encontrar José Saramago", declarou.

Depois, lembrou que emitiu "uma nota oficial prestando homenagem à obra literária de José Saramago e ao seu contributo para a projecção da cultura portuguesa no mundo", enviou uma coroa de flores e promulgou o decreto de declaração de dois dias de luto nacional. "Hoje [ontem] de manhã, o meu chefe da Casa Civil e o meu chefe da Casa Militar apresentaram sentidas condolências aos familiares de José Saramago", disse.

O Presidente tinha mais uma justificação para continuar de férias em S. Miguel, apesar da morte de Saramago: a importância que para ele tem a palavra dada. "Todos os portugueses sabem que desde quinta-feira à noite estou nos Açores, em S. Miguel, cumprindo uma promessa que fiz há muito tempo a toda a minha família, filhos e netos, de lhes mostrar as belezas desta região."

Já o presidente da Assembleia, Jaime Gama, segunda figura do Estado, também nos Açores, não foi e optou pelo silêncio.

O incómodo com as duas ausências é disperso, mas existe. Institucionalmente, Pedro Passos Coelho, que não foi às cerimónias para estar num almoço do PSD em Leiria, fazendo-se representar por Miguel Relvas, secretário-geral e porta-voz, relativizou a questão. Porque é preciso "pôr de lado algumas dessas polémicas e concentrarmo-nos no que é essencial, num dia em que uma pessoa com a grandeza de José Saramago deixa um vazio na nossa cultura".

Silêncio no PS

Entre dirigentes do PS reinou a cautela. Resultado: silêncio. Um dos ministros presentes nas cerimónias, Mariano Gago, levou um cravo vermelho à viúva, elogiou Saramago, mas nada disse sobre a controvérsia. E José Sócrates, presente na Câmara de Lisboa, não teve uma palavra para a polémica. "Isso não acontecerá."

Independentemente do passado - o caso de O Evangelho Segundo Jesus Cristo ou as críticas do escritor a Cavaco na campanha para as presidenciais -, dirigentes sociais-democratas admitiram ao PÚBLICO que o Presidente poderia ter estado nas cerimónias, "enterrando" a história. Mas ninguém se atreve a dizer do mais que isso. A crítica mais directa, dentro do PSD, é para Jaime Gama, que preside a um órgão de soberania representativo do país e não foi às cerimónias - esteve representado pelo vice-presidente da assembleia, Guilherme Silva.

Ramalho Eanes, ex-Presidente e apoiante de Cavaco, enalteceu a obra de Saramago e desdramatizou a polémica: "Cavaco Silva associou-se à homenagem da sua mensagem", limitou-se a responder, criticando "qualquer aproveitamento político, mesmo que aparente", desta questão.

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