Coincidente presciência política e cultural

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Maurício LIMA/AFP

No dia da morte de José Samarago, BE e PCP recusaram o sim a um voto de pesar pela morte do poeta Couto Viana

Não me sinto autorizado para entrar na polémica literária sobre se Lobo Antunes até é melhor escritor do que José Saramago, porque não é esse especificamente o meu campo; e, se fosse uma questão de escolha pessoal, eu prefiro, entre eles todos, Vergílio Ferreira. Mas uma coisa eu sei e julgo que ninguém com dois dedos de testa e dois dedos de texto lido pode negar: José Saramago, goste-se ou não do cidadão e desta ou aquela atitude ou afirmação mais infeliz ou infelizmente mais enfatizada, é uma figura incontornável da cultura portuguesa do século XX e alvores do XXI que estamos a viver.

É-o não apenas enquanto Prémio Nobel e reconhecidamente grande escritor mundo fora. É-o também porque de filho de gente muito humilde, certamente com dificuldades imensas para ter podido aceder a um conhecimento vasto e amplo, se tornou ele mesmo parte indispensável desse conhecimento e património de que cuidou saber em mais novo. É-o também porque enquanto congéneres seus se ficavam pelas tertúlias de café a choramingar o "desinteresse" do "povo" pela sua própria "obra" ou culpabilizando (passivamente) o Estado por nada fazer para os "recompensar", José Saramago, já então e fruto disso mesmo que vem a seguir, tinha tiragens e vendas superiores aos que, então, pairando num Auto-Olimpo e se calhar rindo de tão estranho "caixeiro-viajante", se ficavam por essas jeremíadas tão portuguesas no meio artístico.

Em vez de ficar de braços cruzados em auto-flagelação e autocomiseração intelectual, metia uns quantos livros no carro e ia Portugal além fazendo conferências, colóquios, apresentações e sessões de autógrafos à procura desse "povo ingrato" - provavelmente porque dele vinha e isso lhe era gratificante fazer - para ser mais lido. Por estradas então esburacadas, parando em escolas, colectividades, cantinas e que mais "na província", a 10 ou a 500 km de que distavam os "artistas injustiçados".

Este outro lado verdadeiramente superior de José Saramago interessa também lembrar, apesar de o galardão sueco ser um reconhecimento que comoveu quer o ego pessoal do escritor, quer o ego colectivo dos portugueses. É que infelizmente essa "cultura" dos "meios culturais" permanece, permitindo avançar cada vez mais esse outro lado perverso do que é dito popular e não passa de um gigantesco embuste comestível de consumo em massa de subprodutos "literários", havendo mesmo já quem - tragicamente, porque é esse o seu destino no tribunal da História, independentemente de até ter podido passar a comer bife de lombo no CCB, em vez do bitoque na tasca - tenha aderido à moda de eventos em intelectual social show... as duas caras da mesma moeda. E José Saramago, aí, aí era mesmo moeda diferente.

Coincidência é no mesmo dia em que José Saramago fechava definitivamente os olhos em Lanzarote - em grande parte porque magoado com a imbecilidade de um subsecretário de Estado da Cultura, cujo nome só ficará ocasionalmente na História por tristes razões como as de Torquemada ou de Béria - no nosso Parlamento (por mais diferentes que sejam as estaturas artísticas, mas que a maioria dos em causa menos sabe do que eu), o BE e o PCP recusavam o sim a um voto de pesar pela morte do poeta e escritor Couto Viana em nome de ele ter combatido ao lado dos falangistas (certamente esquecidos do enquadramento histórico em que do lado das brigadas internacionais não se disparou só sobre os fascistas espanhóis, mas também sobre os trotskystas pela República), fazendo com que o PS também recuasse e a proposta nem fosse apresentada! No dia seguinte, o Presidente da República teve o bom senso de homenagear o Nobel esquecendo o comunista, que certamente enquanto tal e como ex-director do Diário de Notícias detestou, mas distinguindo, em silêncio, uma coisa da outra.

Com isso eu não me vergo a Cavaco Silva, mas vergo-me de vergonha por já não saber onde me situar nessa tradicional divisão entre a esquerda e a direita e vergo-me perante a presciência lúcida de José Saramago quando um dia disse: "Antes gostava de dizer que a direita é estúpida, mas hoje não conheço nada mais estúpido que a esquerda. A esquerda deixou de ser esquerda." Encenador ([email protected])