A herança de Eusébio nos pés de Meireles e Tiago

Foto
Meireles abriu o marcador aos 29 minutos Foto: Carlos Barria/Reuters

Há 44 anos, Liverpool presenciou uma tarde histórica. A tarde de Eusébio e de uma selecção portuguesa capaz de transformar um 0-3 num 5-3 frente à Coreia do Norte. O treinador Otto Glória teve então de recorrer aos palavrões para espicaçar uma equipa que perdia por 2-3 ao intervalo e no fim daquela gesta mítica os jogadores ficaram tão eufóricos que até se esqueceram do técnico no estádio.

As histórias que se viveram esta segunda-feira no balneário português, na Cidade do Cabo, ainda estão por contar, mas a selecção portuguesa voltou a viver um momento histórico em Mundiais frente à mesma Coreia do Norte. Menos épico, menos importante e sem a exibição de uma vida, como a de Eusébio, mas com Raul Meireles e Tiago a brilharem numa goleada (7-0) que será lembrada por muito tempo e que abre caminho para os oitavos-de-final do Mundial 2010.

Mesmo que perca com o Brasil, na sexta-feira, e a Costa do Marfim vença os norte-coreanos, Portugal tem uma vantagem de nove golos sobre os africanos para gerir. No pior cenário (derrota portuguesa e vitória costa-marfinense), seria necessário à Costa do Marfim recuperar dez golos ou, na melhor das hipóteses, vencer por oito caso Portugal perdesse por 1-0. Uma vez que a diferença de golos é o primeiro critério de desempate, só assim a equipa de Eriksson pode obter o segundo lugar, que Portugal garantirá se empatar com os brasileiros.

Uma vitória frente ao Brasil até permite a Portugal ser primeiro do grupo.

Meireles a abrir

A semana difícil de gerir depois do empate com a Costa do Marfim e o caso Deco terminou com um jogo quase perfeito. Nem Carlos Queiroz teria sonhado com algo tão motivador como conseguir aquela que é não só a maior goleada deste Mundial, como o resultado mais alargado da equipa portuguesa em fases finais de Mundiais, superando o 4-0 à Polónia (2002).


Portugal não marcava sete golos desde que bateu a Rússia, por 7-1, na qualificação para o Mundial 2006 (Outubro de 2004) e conseguiu a vitória mais gorda desde o 8-0 num particular ao Kuwait em Novembro de 2003.

Além de ser um momento histórico-estatístico dos Mundiais, o jogo frente aos coreanos foi uma injecção de moral e confiança. O desfecho foi tão bom que até o ansioso Cristiano Ronaldo pôs fim a 16 meses sem golos pela selecção. O avançado, no entanto, não foi o homem decisivo.

É certo que ninguém atingiu o nível da mítica exibição de Eusébio há 44 anos, mas dois médios (Raul Meireles e Tiago) carregaram bem a herança do “Pantera Negra”. O primeiro marcou o golo mais importante da tarde (29’), aquele que deitou por terra as esperanças norte-coreanas, que eram de marcar primeiro e depois defender o resultado. O segundo, Tiago, apareceu depois do golo para comandar, ao lado de Meireles, o meio-campo português, que se tornou numa máquina trituradora na segunda parte.

Mesmo tendo em conta as debilidades da Coreia do Norte (105.ª do ranking), o segundo tempo de Portugal foi de grande nível. Há 44 anos, Portugal perdia ao intervalo e Otto Glória teve de agitar as consciências dos jogadores para completar a reviravolta. Esta segunda-feira, sabe o PÚBLICO, Queiroz limitou-se a pedir no balneário que os jogadores continuassem a jogar como na primeira parte.

A verdade é que eles fizeram muito mais. No primeiro tempo, Portugal enviou uma bola ao poste (Ricardo Carvalho) e marcou um golo, mas os coreanos surpreenderam e fizeram vários remates perigosos à baliza de Eduardo, chegando ao intervalo com sete tentativas de golo (contra 11 de Portugal).

Após o descanso, os norte-coreanos mostraram que não são assim tão bons a defender e a inexperiência (só fizeram três faltas, a primeira aos 57’) ficou bem patente, cada vez que os jogadores portugueses puseram em campo os seus melhores argumentos. Queiroz viu então Tiago, Simão (2-0) e Hugo Almeida (3-0) justificarem a titularidade, com o médio do Atlético de Madrid a entrar na história.

Tiago, que fez a assistência para Meireles, apontou o 4-0 e o 7-0, tornando-se o quarto jogador português a marcar mais do que um golo numa partida de uma fase final de um Mundial. Antes, só José Augusto (“bis” à Hungria em 1966), Eusébio (“bis” ao Brasil e “póquer” à Coreia, ambos em 1966) e Pauleta (hat trick à Polónia, em 2002) o tinham feito.

Liedson ainda entrou a tempo de se estrear a marcar em Mundiais (5-0) e até Ronaldo (6-0) aproveitou uma bola recuperada por Liedson para, com malabarismo à mistura, voltar a sentir o prazer de marcar com a camisola da selecção. O sorriso do número sete foi a imagem da tarde. O sinal de um dia em que tudo correu bem.


Ficha de jogo

Portugal 7
Coreia do Norte 0

Golos
1-0, Raul Meireles, 29'
2-0, Simão, 53'
3-0, Hugo Almeida, 56'
4-0, Tiago, 60'
5-0, Liedson, 81'
6-0, Cristiano Ronaldo, 87'
7-0, Tiago, 88'

Estádio Green Point, na Cidade do Cabo
Assistência 60 mil espectadores

Portugal Eduardo, Miguel, Bruno Alves, Ricardo Carvalho, Fábio Coentrão, Pedro Mendes, Raul Meireles (Miguel Veloso, 70'), Tiago, Simão (Duda, 74'), Cristiano Ronaldo e Hugo Almeida (Liedson, 77')

Coreia do Norte Ri Myong-Guk, Cha Jong-Hyok (Nam Song-Chol, 75'), Pak Chol-Jin, Ri Jun-Il, Pak Nam-Chol (Kim Kum Il, 58'), Ri Kwang-Chon, Ji Yun-Nam, Mun In-Guk (Kim Yong Jun, 58'), Hong Yong-Jo, An Yong-Hak e Jong Tae-Se

Árbitro Pablo Pozo (Chile)
Cartões amarelos Pak Chol Jin (32'), Pedro Mendes (38'), Hong Yong Jo (47') e Hugo Almeida (70')
Notícia actualizada às 22h19