É provável que Julian Assange esteja na Islândia

Fundador da Wikileaks pode ter um quarto de milhão de segredos dos EUA para revelar

Julian Assange não assume ter ligações com o soldado Bradley Manning
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Julian Assange não assume ter ligações com o soldado Bradley Manning Peter Erichsen/New Media Days (CC: by sa)

Dir-se-ia um enredo de um complicado policial high tech: as autoridades norte-americanas estão desesperadas para falar com um australiano que é um verdadeiro “homem internacional de mistério” da era da Internet. Querem saber se Julian Assange tem em sua posse 260 mil comunicações entre embaixadas dos Estados Unidos, que lhe terão sido passadas por um soldado estacionado no Iraque que atravessava uma crise de consciência

É provável que Julian Assange, o ex-hacker fundador do site Wikileaks, esteja na Islândia, onde foi consultor para a proposta da autorização legislativa aprovada pelo Parlamento na madrugada de quarta-feira, por unanimidade, que permitirá transformar este pequeno país de menos de 320 mil habitantes num refúgio da liberdade de expressão. A ideia é que a Islândia se torne numa espécie de ilhas Caimãs da liberdade de imprensa, um local onde as empresas de comunicação tenham a sua sede — ou alojem os seus servidores — para ficarem ao abrigo da censura.

Assange colocou no Twitter — o seu principal meio de comunicação actualmente, pois ninguém tem conseguido falar com ele, por telefone ou e-mail — várias mensagens congratulando-se com a aprovação.

Aliás, foi a partir de uma casa alugada em Reiquejavique que preparou a divulgação, a 5 de Abril, do vídeo baptizado Collateral murder, relata um artigo publicado na edição de 7 de Junho da revista New Yorker sobre Assange. Eram imagens colhidas no Iraque pela câmara de um helicóptero Apache norte-americano, que mostram os soldados a abaterem dois jornalistas da Reuters, tomados por rebeldes com um lançador de granadas, e outros civis iraquianos.

Esse vídeo encriptado terá sido passado ao Wikileaks pelo soldado Bradley Manning, um especialista em informação de 22 anos com uma alta autorização de segurança.

Ora, Manning está preso no Kuwait desde o fim de Maio, depois de ter sido denunciado ao FBI por um ex-hacker, Adrian Lamo, a quem contactou on-line, depois de ler um artigo sobre ele na revista Wired. Terá sentido que podia confiar nele e confidenciou-lhe os seus problemas no Exército e as suas incursões. Disse a Lamo ter feito download das imagens usadas por Assange para fazer Collateral murder, e do vídeo de um bombardeamento da aldeia de Garani, no Afeganistão, em que o Governo de Hamid Karzai diz terem morrido 140 civis, dos quais 92 crianças.

E também as tais 260 mil comunicações entre embaixadas americanas, que as autoridades temem que estejam nas mãos de Assange e possam vir a aparecer no Wikileaks. Essas co-municações, dizia Manning a Lamo, mostram “negociações políticas de bastidores quase criminosas” (a Wired publicou extractos das conversas, fornecidos por Lamo, no blogue Threat Level). Lamo achou que podia estar em causa a segurança nacional e denunciou Manning.

Até agora, não foi formalizada nenhuma acusação contra Manning, embora já se tenham passado três semanas sobre a sua detenção. Mas Assange, sempre através do Twitter (os dados da conta do Wikileaks são eloquentes. Localização: em todo o
lado; Bio: abrimos governos) tem mantido a ambiguidade, sem assumir a ligação ao soldado, nem sequer que tem as 260 mil comunicações que, dizia Manning, podiam provocar “um ataque de coração” a “Hillary Clinton e muitos outros milhares de diplomatas em todo o mundo”.

Mas, embora não assuma a ligação a Manning, Assange ameaçou divulgar no Wikileaks o vídeo do bombardeamento de Garani — algo que tinha sido prometido pelo general David Petraeus, comandante das tropas no Iraque e no Afeganistão, mas nunca chegou a ser feito. Nesta altura, poucos duvidam que o possa fazer.