Os alunos devem perceber que "têm de trabalhar mais"

O professor Hélder Sousa entrou no Gabinete de Avaliação Educacional (Gave) como autor dos exames de Geografia. Poucos anos depois chegou a coordenador da equipa da disciplina. Durante os últimos seis anos foi director de serviço. Este ano chegou à direcção.

Anualmente as críticas repetem-se sobre o facilitismo das provas. Deviam ser feitas por uma equipa externa ao ministério?

Um adulto com formação superior que passou pela escola há 40 anos, com outro nível de exigência, vai sempre achar que as questões são fáceis. É preciso olhar para os resultados que revelam percentagens elevadas de alunos que falham. Nas provas de aferição percebemos que há aprendizagens muito básicas que estão consolidadas e outras não; quando estas estiverem, então essas perguntas desaparecem da prova. Aos alunos é preciso transmitir a ideia que têm de trabalhar mais, eles não têm o background familiar que outrora havia, estudam de véspera e isso tem que mudar. Há um leque de países com gabinetes como o Gave, é preciso ter o sentido de fazer as coisas com rigor e independência e tenho de fazer um elogio a todos os governos que nunca intervieram no trabalho do Gave.

Em vez de provas de aferição devia haver exames no final de cada ciclo?

Na OCDE, à excepção de Malta, nenhum país tem exames no final dos 1.º e 2.º ciclos. Muitos países fazem provas de aferição. Poderemos fazer a mais disciplinas, por exemplo, a Ciências. O feedback que temos é que os professores, as famílias e os alunos olham para as provas com muita seriedade. A ideia que os alunos só se empenham quando há uma nota em retorno é perigosa. Eles devem perceber que têm sempre que se empenhar.

Não há professores que trabalham o ano lectivo inteiro só para os exames?

O equilíbrio e o bom senso na sala de aula são essenciais. Para os professores é difícil os alunos serem expostos a exame, porque os resultados espelham o seu trabalho. A questão passa por o docente acreditar que o seu trabalho prepara os alunos para as provas. É preciso equilíbrio.